terça-feira, 14 de julho de 2009

Lembrando da moral da história

Como todas as outras pessoas, sonho bem alto. Tanto acordado como dormindo. E num destes sonhos, lembro-me de um fato que me intrigou e ficou martelando em minha complexa cabecinha durante um tempão. Deixe-me narrar o sonho:

" Eram mais ou menos onze horas da noite e eu voltava da casa de uma amiga. No trajeto, tive que passar por uma pracinha, mal-iluminada, com a força de uma noite sombria e estranha. Estava lendo um livro, com muita dificuldade, por que uso óculos para ler à noite. Como o gênio aqui é o rei do desastre, não percebeu, com a escuridão imensa daquele instante, um igualmente imenso buraco em sua frente. Resultado, levei um tombão, para a risada geral dos casais que ali namoravam ou só conversavam. Não conseguia enxergar nada sem meus óculos naquele breu, e sem eles, provavelmente seria vítima de um atentado por bandidos. E por incrível que pareça, não vinha uma alma bendita me ajudar! Até que, finalmente, pus a mão no maldito buraco que me fez cair e encontrei-os. Limpei as lentes, ainda sem condições de levantar-me sozinho e, de repente, ouço uma voz estranhamente familiar vinda de trás de mim:

- Você precisa de ajuda - disse o rapaz, que prontificou sua mão para me ajudar. - Tá tudo bem?

Para a minha imensa surpresa, era meu pior inimigo, Davi. Um cara da minha escola que vivia me enchendo a paciência e vivia arrumando motivo pra me bater. Ele recolheu meu livro do chão, rindo.

- Você curte Machado de Assis? Dom Casmurro é legal, eu gosto muito. Já li duas vezes.

Aquilo me intrigava cada vez mais e, já em pé, perguntei:

- Érr, Davi, não tá havendo nada de errado aqui não?! Cara, você vive me batendo, me xingando... E agora vem me ajudar?! - eu sinceramente, naquele momento, não senti medo daquele monstro, pela primeira vez. Ele é absurdamente grande e forte, partiria-me em dois em um segundo.

- Tiêgo, presta atenção. Agora sou outra pessoa, não quero mais briga, não quero mais confusão, não quero mais nada que possa prejudicar ninguém. Me dei conta da burrada que tava fazendo e resolvi parar - explicou Davi, fechando a capa do livro, sorrindo novamente.

- Quer minha opinião? Você tá irreconhecível - disse, ainda pasmo.

- Você prefere como antes? - perguntou, limpando a contracapa de Dom Casmurro.

- Com toda a certeza do mundo, não - concluí.

Ele estendeu mais uma vez a mão para mim, sorriu e seguiu seu caminho. Eu ainda tinha muitas dúvidas à tirar, mas preferi me calar, pois ainda poderia fazer besteira... Davi mudou completamente, da água pro vinho. Davi, meu maior inimigo, agora é um santo.
E eu preferia daquele jeito. "

Vocês devem estar se perguntando porque eu escrevi isso. Sim, vou explicar : mais ou menos duas semanas depois deste sonho, quando nem me lembrava mais de nada, esse mesminho Davi do devaneio bem viajado veio se desculpar comigo, por tudo o que fez por mim. Eu não tenho nem ideia do porquê até hoje. Éramos amigos até ele viajar, agora mantemos contato via internet.

*Moral da história: de onde você menos espera que possa vir o apoio, a ajuda, a compaixão, acaba vindo. Agora eu amo meus inimigos, vai que eu caia num buraco em plena escuridão de onze horas da noite e um deles venha me ajudar...



*Texto para o Blorkutando - 43º Semana: Lembranças

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