segunda-feira, 27 de julho de 2009

Minha vida aos dezoito, parte um.

Se não fosse pelo barulho ensurdecedor vindo das obras do apartamento ao lado, com certeza eu não teria acordado. Pensei que ainda fosse cedo, por força do hábito, tipo oito ou nove horas da manhã; mas, para minha enorme surpresa e espanto, já eram duas da tarde! Tentei lembrar o porquê de toda aquela preguiça que eu nunca fui acostumado a ter. Meu Deus, eu nunca acordei tão tarde em toda a minha vida adolescente.
Toquei na palavra-chave: adolescente. Eu não era mais adolescente, estudante do segundo ano do ensino médio; agora eu era um homem, por lei e por verdade. Dezoito anos.
Tudo aquilo era uma grande novidade pra mim: faculdade, morar sozinho, ter que me virar sozinho. Estes pensamentos ocorreram em minha mente ao mesmo tempo em que lembrei porque havia passado metade do dia largado na minha cama, sem dó nem piedade: pela primeira vez, tinha criado coragem e vontade para ir em uma micareta. Ok, eu não sou nem vou ser nenhum fã de festas, mas era meio que uma obrigação que eu seria, obviamente, levado a cumprir; era minha festa de comemoração dos meus dezoito anos, completos ontem, de verdade, naquela festa. Meu passaporte para a liberdade fora carimbado. Eu estava livre! Livre de verdade, poderia fazer o que quiser, na hora que der na telha, enfim!
E, podia-se dizer de passagem, que eu estava feliz, depois de tanto tempo absorto no infinito do sofrimento.
Levantei-me da cama, sorrindo. Caminhei lentamente pelo quarto, sentindo o quanto é bom o sabor da vitória (que, no meu caso, era ser livre). Cheguei ao banheiro, lavei o rosto e retornei ao quarto. Era muito estranho ver que aquilo tudo era meu, só meu. Mas era uma estranheza boa. Logo que lembrei da palavra posse - indiretamente, meu é pronome possessivo, né? -, quis consultar meu celular, que não estava por ali, como pude perceber. Presumi que ele tivesse sido roubado ou coisa parecida na micareta; até que o barulho da britadeira naquela maldita obra no apê ao lado cessou e eu pude ouvir ele tocar, timidamente, em algum lugar por ali. Vasculhei meu quarto inteiro, da cama ao armário, e nada. Porém, a musiquinha, insistentemente, continuava a tocar. Ocorreu-me de ir até a sala, pois eu poderia ter largado minha calça jeans ensopada de chuva no sofá - é, eu bebi e estava sem ação. Nem sei como parei em casa - e continuei a busca. Como suspeitei, estava lá, entre as almofadas, meu celular, que por um milagre ainda estava funcionando. Tinham nove chamadas perdidas, todas de uma garota chamada Bruna. Legal, eu não conheço nenhuma Bruna. Ela mandou um torpedo dizendo que tinha adorado a noite anterior e que queria me ver de novo! Putz, eu não me lembro de nada do que aconteceu ontem depois da minha entrada do meio do povão! E agora?
Novamente o celular toca, e era ela. Receoso pelo o que ela iria falar, atendi:

"-Oi.
- Oi Ti! É a Bruna, lembra?"

Queria poder mentir, juro! Mas meu instinto sincero resolveu aflorar.

"-Desculpe Bruna, eu não lembro de nada. Não tenho ideia de quem é você;
- Poxa, sou eu, Ti! Bruna! Ontem foi tão especial e você ficou de me ligar e até agora nada... Eu que tive que te ligar mandar mensagem. E você diz que não se lembra da nada?!"

Ela não parecia irritada, por incrível que pareça. E eu havia me arrependido de ter aflorado meu instinto sincero.

"-Ok, você sabe aonde eu moro, certo? - eu disse, ainda com um pé atrás.
-Sim, eu sei bem onde você mora.
-Então vem aqui, pra ver se eu consigo me lembrar de quem você é. Isso não é brincadeira minha, tá?
-Tá, eu sei. Pode me esperar, eu apareço aí mais tarde. Beijo.
-Outro."

Eu não havia parado para pensar que em uma coisa: desde quando eu havia virado pegador? Safado? Eu sou nerd, desengonçado, trapalhão...
Meus dezoito anos me fazem amadurecer cada vez mais. Tanta coisa mudou, tanta coisa tá mudando... Problemas, que eu mesmo vou resolver. Rolos, que eu mesmo vou desenrolar. Nada vai depender dos meus pais agora. Tudo depende de mim, somente da mim.

Liberdade, enfim.

Às sete horas da noite, alguém batia na porta. Não estava esperando visitas, com a exceção de...
Quando abri a porta grande e pesada, quase caio para trás!


+Querem saber quem era? Não perca as próximas duas edições de "Minha vida aos dezoito" !



* Texto para o Bee Writer - Ediçao cinco: Aos dezoito anos.
** Agradecimento: obrigadão pela ideia, pessoal do Bee Writer! Gostei muito, tanto que vou dividir este post em três partes! Uma pequena história. Espero que gostem!
*** Pedido de desculpas: desculpem mesmo or ter postado um dia depois do prazo; problemas pessoais me impediram, mas postei, porque o que vale, sempre, é a intenção, não é?

1 pseudocomentaram:

Erica Ferro disse...

Adorei e quero ler, logo, as outras partes. Curiosíssima.

:*