quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Aicmófobo

- Oh não!

Essa foi a minha reação quando minha mãe chegou do labóratório de diagnósticos com aquele maldito envelope branco que carrega as informações sobre meu estado de saúde. Parado feio uma estátua, não conseguia sem respirar direito.

Eu tenho horror a agulhas ou a qualquer objeto que tenha o mesmo formato!

lembro que, depois de a mamãe dizer que eu passaria por mais uma bateria de exames (e mais agulhadas), eu desmaiei. Era o que sempre acontecia. Mas desta vez havia algo de diferente: eu consegui sonhar enquanto estava desfalecido.
Encontrava-me num salão, imenso, e totalmente branco e brilhante. Eu também estava que nem um médico, todo de branco. Caminhei por ali para ver se percebia algum vestígio de presença humana, mas, ao posicionar-me exatamente no meio do salão, abriu-se um buraco aos meus pés e, como um escorregador imenso, parecia que eu deslizava sentado numa cadeira cheia de óleo. Após levar mais alguns segundos ali, com meus gritos que não saíam e meus movimentos paralisados, caí perfeitamente bem (espantado, aterrorizado, assustado...) em cima de uma cadeira de consultório médico. Só meus olhos esbugalhados conseguiam expressar todo o medo que eu estava sentindo e que tomava conta de todos os meus nervos. Sem poder me mexer, observava a situação, encarava-a como se fosse um ritual de magia negra. Um baque surdo na porta que eu não havia percebido indicava a entrada de uma mulher, belíssima, com seu coque impecavelmente preso com um grampo e seu jaleco refulgente na luz fluorescente; ela parecia um anjo. Olhando para mim, ela sorriu e disse, olhando para o relógio prateado no pulso.

- Está na hora.

Ela tirou uma seringa de metal de dentro dos bolsos do jaleco e veio andando até mim. Quando ela tocou a pontinha fina e fria em meu braço direito, meu eu desesperado resolveu juntar todas a suas forças e gritar, muito alto e forte, o que fez a médica recuar e soltar a agulha. Ela despiu o jaleco, tirou uma injeção maior ainda da gaveta branca ao meu lado e, sem dó nem piedade, pressionou a agulha contra meu braço esquerdo.
Na mesma hora, o grito ensurdecedor que eu havia dado no sonho se fez real.
Reunindo todas as minhas forças, consegui murmurar para mim mesmo:

- Foi apenas um sonho.

E desfaleci, novamente, para o desespero de minha mãe, que ainda tinha o envelope branco nas mãos.

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