domingo, 28 de novembro de 2010

Um encontro no metrô (Parte3).



- Ah, papai, não! Pegue-a para mim!

- Filho, não se preocupe. Na ida de volta para casa eu compro outra para você - tranquilizava-o o pai.

- Mas eu quero ela! Aquela bicicleta! O senhor não vai achar outra! - dizia o garoto, enfurecido com o pai.

- Chega, Stevie. Ela está toda quebrada, não tem mais conserto. Logo eu compro outra para você! - o pai tentava fazer o filho parar com a birra. Sem sucesso.

- Aaaaaah! Aquele garoto roubou a minha bicicleta! Pega ladrão! - gritava o garoto, indignado com o fato de o pai permanecer lendo seu jornal como se nada tivesse acontecido enquando o outro menino sentava no jardim do térreo do apartamento e tentava consertar delicidamente a bicicletinha de madeira.

- Stevie, querido, venha almoçar! - chamou a mãe. - E largue essa mania de querer consertar tudo! Você não consegue nem colocar as rodinhas dos seus carrinhos no lugar! - ironizou a mãe, rindo juntamente com o pai.

- Será que eu preciso me jogar daqui de cima para vocês entenderem que eu só quero consertar a bicicleta? - tentou pela última vez o garoto.

- Não seja tolo e venha almoçar! - gritou novamente a mãe, bastante chateada. Stevie Leans via o garotinho hábil com as partes danificadas da bicicletinha em mãos e desejava muito estar ali com ele, montando seu tão querido brinquedo. Porém, os pais o puxaram para a mesa e o levaram das suas vontades. Ao terminar, Stevie correu para a janela e qual não foi sua frustração ao constatar que o garoto havia sumido dali.
As lágrimas correram involuntariamente pelo rosto do menino. E como se fossem ácido, corroeram aquela cena inteira. O apartamento em Cannes com os pais se dissolvera, ao mesmo tempo em que Stevie Leans, o analista de sistemas da Global PC's Corporation LTDA., se via com os lábios envolvidos num beijo ardente com Victor Bouvier.
Meio minuto após o despertar, Stevie empurrou Victor com toda a sua força, berrando:

- Você é louco, cara?! Que diabos você pensa que é para sair me beijando assim? Nem de homem eu gosto, pra início de conversa - disse Stevie, limpando a boca com a manga da camisa e se aprontando ao máximo para ir para cima de Victor, que ria da situação.

- Foi diferente de tudo o que eu já havia experimentado - disse Victor, entre risos. - E acredito que para você tenha sido o suficiente.

- Suficiente o quê? - perguntou Stevie, furioso.

- O suficiente para você lembrar da bicicletinha de madeira que... ops! Estava quebrada - respondeu Victor, puxando de trás de si uma pequena bicicleta em madeira polida, impecável.

Stevie simplesmente ficou chocado com o que vira.
As iniciais S.L ainda estavam cravadas nela. O tempo não a deteriorara, pelo contrário. Deixara-a mais linda do que já era. Stevie tinha uma adoração pela bicicleta. Ela era a maior lembrança de sua infância.

Que tinha se perdido e um garotinho loito, hábil com o conserto e esperto havia levado consigo há exatos vinte e seis anos.

- En-tão... então você era o garotinho que... - começou Stevie, esquecendo completamente da raiva que sentia por Victor, que o interrompeu logo em seguida.

- Exato. E ali, nossos destinos foram traçados, Stevie. Lembro perfeitamente do dia em que você foi embora do apartamento em Cannes. Eu quis devolver para você, mas seu pai já havia lhe dado algo mais atraente, o que percebia-se pela sua felicidade - dizia Victor, como se tudo tivesse acontecido há um dia atrás. Ele entregou a bicicletinha de madeira nas mãos de Stevie, completamente confuso.

- Mas não pode ser verdade! Você sabe de tudo da minha vida e eu mal sei seu nome! E você é um moleque - disse Stevie, revoltado e perplexo.

- Um moleque de vinte e nove anos, muito obrigado - brincou Victor, quebrando todo o clima de tensão possível. Por um momento, Stevie também pareceu esquecer de tudo o que havia acontecido momentos antes e entrou no clima de descontração:

- Você aparenta ter vinte anos! - comentou Stevie, sentindo uma pontinha de inveja da jovialidade do rapaz.

- Eu não sou um velho ranzinza, feito algumas pessoas que dormem em compartimentos de metrô e que deixam cair seus salários pelo chão - zombou Victor, desafiando-o.

- Velho ranzinza não! Cansado um pouco, talvez... - admitiu o irado Stevie. "Ele me chamou de velho!" pensou consigo. E atirou a pasta em Victor, que se esquivou rapidamente.

- Você esqueceu assim, de uma hora para outra, de tudo o que aconteceu, não é mesmo? - disse Victor, parecendo sério outra vez. - Eu sei que você morre de medo de envelhecer.

- Eu só queria entender porque estou numa plataforma de metrô vazia às sete e cinquenta da noite - confirmou Stevie olhando para o relógio - com um moleque que acabou de me beijar e que sabe de tudo da minha vida! Até a bicicletinha de madeira você me trouxe de volta, não sei de onde! Alias, quanto mais penso que vou saber, menos sei! - completou Stevie, rindo da própria desgraça, ironicamente.

Victor respirou fundo antes de começar.

- Stevie, nós não nos encontramos por acaso.

E Stevie não pareceu surpreso, por algum motivo.

- É, pelo visto estou percebendo. Prossiga.

- Acho que já até passou da hora de nos conhecermos.

- Como assim? - Stevie parecia cada vez mais confuso.

- Stevie, não se assute com o que sentirá. Prometa-me que não será um velho ranzinza e reclamará de tudo.

Victor, mesmo tendo brincado, olhava séria e fixamente para Stevie, que estava parado, absorvendo casa palavra, mesmo sem querer. A conexão com Victor estava sendo estabelecida mais uma vez.

- Prepare-se. A verdade sobre sua vida será descoberta agora. - finalizou Victor, gesticulando para o alto como se invocasse redemoinhos. Stevie sentia a cabeça latejar e, ao menor toque das mãos de Victor, ele perdera o chão.

Um conhecido hálito de cereja o informava a Stevie que estava mais uma vez abraçado a Victor.

Sobre uma também conhecida cama em seu pequeno apartamento.

2 pseudocomentaram:

Jeniffer Yara disse...

Wol que mistérioso o Victor!O que será que ele irá mostrar a Stevie?! O_o ahh fiquei super curiosa mesmo,enquanto lia fiz as mesmas perguntas que Stevie fez á Victor,rs
Ahh tá muito bom o conto Ti *-*

Beijo

Edy disse...

Gostei, muito bom... como sempre!