terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Esquina

Fazia frio naquele dia. Caía uma chuva anormal para fevereiro, um mês tão quente em Macapá. Meus dentes batiam e parecia que eu estava num cenário de filme americano. Coberto até a alma, penetrei a chuva que caía com força e juro que teria voltado para casa na mesma hora se não gostasse tanto do clima gelado. As ruas lavadas pela grande quantidade de água assustaram-me de tal forma que cheguei mesmo a pensar se sairia dali, mas estava convicto a decidir o que seria de minha vida. A água e o vento gelado não me fariam voltar atrás. Não mesmo.

Dei os primeiros passos em direção à rua principal quando o movimento dos carros me surpreendeu. Afinal, já passava das sete horas da noite e geralmente neste horário não se veem muitos carros circulando na principal. Caminhei com cuidado pela avenida (felizmente) bem pavimentada até chegar à parada de ônibus. Aguardei a lotação que eu sabia, não demoraria a passar. E realmente, minutos depois a condução passou. Adentrei o veículo sem muitos passageiros e, à medida que ele ia freando nas paradas, a chuva aumentava. E em momento algum quis desistir do que estava fazendo.

Não demorei muito a chegar em meu destino. A chuva havia se resumido a um chuvisco agradável e aquilo me animou. Caminhei mais alguns metros até a casa de Bernardo. Ele me aguardava com um sorriso fascinante no rosto e um guarda-chuva tamanho família nas mãos. O calor que emanava de seu corpo acabou me acolhendo muito mais do que eu esperava. Ele estava só na casa que dividia com a amiga de universidade. Eu o abracei com tanta força que senti medo de quebrar seus ossos. Fazia exatos dois anos e dois meses que ele havia partido e sua volta me pegou completamente de surpresa. Seus olhos brilhavam, assim como os meus. Ainda éramos amigos, melhores amigos. Senti tanta falta daquele sorriso inocente, daquele carisma contagiante e daquela voz que fazia cada nervo do meu corpo tremer. Eu amava Bernardo muito mais do que só como amigo. Eu sabia que ele era o que faltava para minha vida ficar completa. Mas o receio, o medo do que ele ia pensar caso eu dissesse à ele tudo o que sentia me calava, deixava-me incapaz de falar o que fosse.

Naquela noite, conversamos muito. Colocamos em dia tudo o que não havíamos falado um para o outro naqueles vinte e seis longos meses. Não percebemos a hora, que voou. Quando nos demos conta, já passava da meia-noite e ainda estávamos com os ânimos à flor da pele. Eu precisava ir para casa, no outro dia trabalharia normalmente. E como Bernardo morava longe de minha casa, tratei de me adiantar. Eu não queria, obviamente, ir embora. Bernardo insistiu muitas vezes para que eu ficasse, até porque a chuva já estava engrossando novamente. Mas eu sabia que se ficasse, acabaria cometendo uma loucura. E eu não queria perder de vez o que existia de mais valioso para mim.

Bernardo me acompanhou, de má vontade, até a esquina da rua de sua casa. Estávamos mais do que encapados, tamanho era o frio. Não havia vivalma por ali. Apesar de não ser perigoso, aquele silêncio mortal juntamente com o vento cortante me fizeram tremer. Bernardo sentiu isso e, quando chegamos à esquina, ele me abraçou. Retribui o movimento, já não contendo as lágrimas por ter que me afastar do amor da minha vida. Ele não queria me largar. A última condução estava prestes a passar e eu pouco me importava naquele momento se ia ou não para casa. Bernardo me pressionou contra si, parou seu olhos nos meus e disse, fazendo meu corpo petrificar:

- Eu senti mais a sua falta do que pode imaginar. Eu te amo – completou, puxando meu rosto contra o seu. Parecia que eu iria perder o chão. O choque dos seus lábios nos meus foi o suficiente para me acordar e perceber que aquilo estava mesmo acontecendo. Nem o frio congelante nem o vento cortante me impediram de beijá-lo com todas as minhas forças. Aquele breu que envolvia a rua me pareceu um tanto sugestivo. Não me recordo de ter visto o ônibus passando por nós. Só me lembro do melhor beijo da minha vida. Com o amor da minha vida.

 

Pois é, bebês. Foi o que saiu pra hoje. Lembrei de umas coisas aí da minha vida que inspiraram o texto. Pode nem parecer, mas acabei chorando ao escrever o texto. SIM, eu sou patético. Não esqueci o Thales, ainda. Meu amor tá sofrendo pelo Julinho e eu sem poder fazer nada. MAZENFIM, pretendo postar amanhã de novo. Ah, e tô blogando pela primeira vez pelo Windows Live Writer! Recomendo!

Do seu escritor-aspirante,

Tiêgo R. Alencar

4 pseudocomentaram:

●๋• тнαi иαรciмєитσ disse...

Eia! Romance num escuro dia de chuva? História interessante, daquelas que fazem a gente suspirar e querer com todas as forças viver algo parecido.

O layout do blog está lindo!

Rúvila Magalhães disse...

Achei o texto muito fofo! Ficaria feliz de ser esse Bernardo :D
Sabe que em São Paulo 7 da noite as ruas não só são cheias como tem trânsito... fucking metrópole.

beeeijos

Jota disse...

O típico amor incubado. Gosto da sua excelência em escrever. A respeito do texto vc já sabe minha opinião!

Abraaços

mari. disse...

Nossa, que amor mais lindo. Acho que esses amores contidos, não revelados, mas sentidos por ambas as partes, são os mais lindos. Pois quando desabrocham, tornam-se os mais reais, os mais especiais.

=)