quinta-feira, 4 de agosto de 2011

CRÍTICA: espancar gay pode, explicitar o amor não?

 

Se já é difícil falar de um assunto delicado como homossexualidade separadamente, não me surpreende que eu esteja com um pé atrás na hora de explanar minhas considerações sobre o tema abordado nas telinhas. Mas muito maior do que a vontade de falar, existe a necessidade de comentar o contexto LGBT nas novelas brasileiras.

Tenhamos como foco, mais uma vez, Insensato Coração (novela das nove horas da Globo). Do início do folhetim até agora, pudemos acompanhar uma mudança significativa e interessante do desenrolar e formação do seu núcleo gay. De personagens caricatos e hilários, passando pelos bem resolvidos sexualmente e chegando aos confusos e indecisos, os autores inseriram homossexuais em todos os núcleos de sua história, com leves exceções. Levando em consideração que anteriormente víamos apenas os gays e lésbicas em tramas isoladas do resto do enredo, Insensato Coração deu um belo passo em relação à suas antecessoras de mesmo horário. Até mais ou menos três semanas atrás, a novela estava recebendo meu respeito grande neste aspecto. Mas então, eis que os chefões da emissora chegam e, sem mais nem menos, mandam os autores amenizarem a história de amor entre os personagens Hugo (Marcos Damigo) e Eduardo (Rodrigo Andrade), como se a novela fosse regredir em termos de audiência com o romance dos dois. Vou confessar que não entendo mesmo porque tanto medo, tanto receio de expor o amor entre duas mulheres ou dois homens numa novela, seja lá em qual for o horário. Caso ninguém tenha reparado, quanto mais for acontecendo as histórias gays envolvendo afeto, carinho, amor, mais a mente limitada de quem vê repulsa nestes atos estará se abrindo para aceitar as diferenças, porque diferentemente do que muita gente por aí pensa, não é só evitá-las que elas deixarão de existir. Elas são fatos reais. E merecem aceitação e respeito, principalmente respeito.

Se a direção de Insensato Coração pensa que vai fazer o público LGBT e simpatizantes esquecer do amor entre Hugo e Eduardo, com cortes bruscos nas cenas, está enganada, redondamente. Ainda mais “substituindo” as cenas do casal por cenas pesadas de homofobia e rejeição aos gays , uma das mudanças mais frustrantes e decepcionantes na trama. Sabemos que o ódio ao homossexual é realidade e que precisa ser mostrado como é; porém, daí excluir sequências de afeto entre dois homens para colocar em seu lugar cenas de violência desnecessárias já é algo para discordarmos. Ainda pretendo descobrir em que aspecto um abraço carinhoso, um carinho de mão no rosto, são mais agressivos aos olhos do que meia dúzia de homens covardes espancando gays sem motivo aparente. São fatos tão controversos, tão contraditórios que é impossível escrever algo que os descreva de verdade. É um mix de ridículo com pateticidade.

Que fique registrada minha decepção e total desapontamento com as estratégias tolas e baixas que a Rede Globo vem utilizando para manter a audiência – ótima, por sinal – de Insensato Coração. Uma história que vem fazendo os telespectadores perderem o fôlego não preciso mesmo chutar para escanteio uma história de amor tão bonita – e não menos bonita do que qualquer outra das restantes da novela.

7 pseudocomentaram:

Deyse Batista disse...

Tiêgo, acho que concordo e discordo com você em diversos pontos. Você está super certo em reclamar do excesso de cenas de violência contra gays, porque o brasileiro tem a péssima mania de reproduzir tudo aquilo que não presta. Então, se um maluco vê um gay apanhando na novela, não custa nada o gay apanhar na vida real, também. Sempre acho que relatar violência tem uma fase dupla: quando se retrata de forma moderada, serve para combater; se exagera, já é quase apologia.
Mas sinceramente? Não acho que mostrar cenas de afeto também ajude. Eu tiro por um amigo meu, que é super preconceituoso: outro dias estávamos vendo a novela e numa cena do Hugo com o Eduardo, ele simplesmente saiu da sala pra não ver. Ridículo, eu sei, mas percebe? Quem é contra o homossexualismo muitas vezes nem se dá ao trabalho de assistir às cenas... evita aquilo e pronto. Não adianta querer mostrar como um relacionamento gay é normal simplesmente esfregando isso na cara das pessoas, por novelas. Sabe, acho que tudo se consegue aos poucos. Não adita revolucionar as novelas enchendo de casais gays porque quem não aceitava antes, não vai passar a aceitar só por isso. É preciso um trabalho longo de conscientização do povo e isso não se faz apenas com um folhetim.
Mas no mais, acho que você faz um trabalho belíssimo mostrando às pessoas que novelas têm o seu lado social sim e que inútil é não saber ver isso.

Beijos carinhosos!

ps.: não repare no tamanho do comentário :X

Jeniffer Yara disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jeniffer Yara disse...

Globo sempre decepcionando não é mesmo,eu pensei que as novelas poderiam evoluir e colocar mais realidade nas cenas,e bom,isso tá acontecendo mesmo,mas existem coisas que eles não colocam no ar,por ainda o país ser preconceituoso,e por com certeza ter consequências ruins para a audiência da emissora,que como sempre,busca mais ter uma audiência elevada,do que se comprometer a um conteúdo bom e verdadeiro na TV.

Enfim,sua crítica foi muito bem escrita e elaborada,e apoio você.

Beijos

Maristela... disse...

Adorei sua crítica, e vou divulgar como puder!!!! Insensato Coração foi minha maior decepção em novelas, de todos os tempos...

Jota disse...

Eu já discordo com você meu caro. Os homossexuais já se identificaram bastante com os últimos personagens gays que vem aparecendo na TV. Desde Hugo até Julinho. Então, inserir a problemática homofóbica, ao meu ver, foi uma jogada de mestre: além de mostrar que um romance gay é comum e real na sociedade, há também pessoas que não toleram e chegam a matar (como vai acontecer hoje na novela), como pura ignorância dos mesmos. Esses princípios levam a reflexão do descaso com essa parcela da sociedade precisa ser abordado, e na dose certa, como mostrado na novela.

E acredito que o motivo que vc apontou no texto não foi o real motivo pra que fossem diminuidas as cenas de afeto não. Eu li alguma coisa, mas não lembro muito.

Se cuida negão, saudades ;**

Leila Ice Girl disse...

Ei, nem sei o que comentar sobre isso, nem vejo novela, nem nada, mas acho que é por ai como você falou, Tiêgo, só que, mesmo que se fale mais normalmente sobre o homossexualismo na realidade nao existe esse liberalidade que às vezes se pinta na midia, a sociedade ainda é excessivamente preconceituosa, infelizmente.

md disse...

Muito bom seu texto, Tiêgo. Muito bem escrito. Fico feliz em saber que existem jovens pessoas lúcidas, com pensamentos claros e sadios, nesse mar de hipocrisias e contrassensos. A cena de espancamento, mostrada numa novela, de uma grande emissora, como toda cena de agressão e violência, na minha opinião, é muito mais uma fonte de exemplo ruim, uma referência que fica, para que mentes doentias sigam.
Peço permissão para compartilhar, com os devidos créditos, dando destaque para essa parte: "...Sabemos que o ódio ao homossexual é realidade e que precisa ser mostrado como é; porém, daí excluir sequências de afeto entre dois homens para colocar em seu lugar cenas de violência desnecessárias já é algo para discordarmos. Ainda pretendo descobrir em que aspecto um abraço carinhoso, um carinho de mão no rosto, são mais agressivos aos olhos do que meia dúzia de homens covardes espancando gays sem motivo aparente. São fatos tão controversos, tão contraditórios que é impossível escrever algo que os descreva de verdade. É um mix de ridículo com pateticidade.

Que fique registrada minha decepção e total desapontamento com as estratégias tolas e baixas que a Rede Globo vem utilizando para manter a audiência..."