domingo, 12 de fevereiro de 2012

Beija! Beija!


Muito, muito diferente da foto acima, não dei meu primeiro beijo quando criança. Ainda me lembro como se fosse ontem de quando aconteceu pela primeira vez, aos treze anos. Eu já era bem grandinho para a minha idade e por isso mesmo, era pressionado mais do que nunca pelos outros a beijar. Naquele tempo, eu era bastante inocente, do tipo que escrevia milhões de cartas de amor para a garota pela qual eu estava apaixonado e nunca conseguia entregar, só olhava, distante, vendo a mesma andando de mãos dadas pelo colégio com o namorado grandalhão que me colocaria para correr só de andar. Hoje eu dou risadas, mas antes eu realmente ficava apavorado com a situação.
Era novembro quando conheci a Marina. Eu detestava ir à escola nas aulas de educação física no contraturno porque jamais tivera aptidão para a mesma, só que era disciplina obrigatória e eu tinha que estar lá todas as terças e quintas, das oito às dez da manhã. Espertíssimo e nerd como sempre, eu assinava a lista de frequência que os meninos passavam antes de começar a jogar bola, esperava uns cinco minutos e dava o pinote para a sala de leitura, o lugar que eu mais amava no colégio. Entre Monteiro Lobato e Cecília Meireles, eu me sentia confortável e protegido, mais do que em qualquer outro lugar ali. E foi justamente lendo Monteiro Lobato, "Emília no País da Gramática", que aproximei-me despropositalmente da Marina. Ela era novata e eu já havia notado a sua presença há algum tempo, pois ela também fugia das aulas de educação física, porém não era da mesma classe que eu. Talvez isso tenha até colaborado com a nossa aproximação, já que um não sabia absolutamente nada da vida do outro. Atravessei a sala para buscar o exemplar de "Emília no País da Gramática" e prosseguir com a minha leitura quando ela interviu, pegando-me totalmente de surpresa:

"- Acho que alguém vai ficar sem ler um livro hoje" - disse, entre risos com o último exemplar disponível do livro em mãos.

Eu era um bocó. Sim, tenho certeza disso, pois logo depois dessa abordagem singela e honesta dela, eu ri e me esquivei. Como se não fosse capaz de confrontá-la. E só fui me dar conta disso horas mais tarde, no tempo de aula normal, quando fui à sala de leitura devolver um outro livro que havia emprestado e topei com a Marina no corredor. Percebi que aquilo não estava acontecendo em vão, na mesma hora. Ela sorriu para mim e eu, deixando a timidez de lado, perguntei como ela se chamava. Ela suspirou um "Marina. E o seu?", antes de voltar seu corpo, já pronto para entrar na sala de leitura, para mim. Sorri torto, respondi "Tiêgo" e ela completou, dizendo que tinha a estranha sensação de já me conhecer de outro lugar - o que me deixou profundamente feliz, não sei bem ao certo o porquê.
Daí para a frente, foram sucessões de encontros pelos corredores, depois na biblioteca e sempre terminando ou começando na sala de leitura. Ao início de dezembro, quando estávamos prestes a entrar de férias e Marina viajaria com os pais para a cidade onde nascera, tivemos um último encontro na sala de leitura. Àquela altura do campeonato, mal estava a responsável pela sala de leitura e um ou dois colegas devolvendo livros atrasados. Já perdidamente apaixonado e sonhando a cada dia que passava com a Marina do meu lado a todo momento, inventei a desculpa furada (que mais vou ser grato na minha vida) de que eu deveria devolver um livro antes das férias e que eu precisava vê-la antes da sua partida. Ela chegou alguns minutos antes de mim e quando ela percebeu que não havia mais ninguém na sala além de mim, achou estranho. Eu confesso que também fiquei assustado com a situação, mas mesmo assim fui porque não aguentava mais guardar aquilo só para mim. Entrei decidido naquela sala. As memórias me são bem claras: Marina riu ao me ver entrar e eu, sem esperar, pedi a ela que se sentasse porque eu tinha algo para dizer. Ela, assustada, sentou-se num dos vários almofadões espalhados pela sala e assim que eu vi que poderia continuar, segurei suas mãos geladas, abaixei-me à sua altura e disparei:

-"Eu estou apaixonado por você."

Ela riu. Não deu gargalhadas, apenas sorriu. Olhou bem no meu rosto, viu o brilho que meus olhos estavam exalando e concluiu, para a minha felicidade:

-"Eu acho que estou sentindo a mesma coisa por você."

O que se seguiu foi mágico: ela tremeu quando larguei as mãos dela, segurei seu rosto e nos beijamos, de um jeito tão inocente e simples que era como se eu já tivesse feito aquilo há anos. Meu corpo todo parecia estar recebendo uma descarga elétrica forte o suficiente para me arrepiar e fraca o suficiente para ser gostosa de se curtir. Nem sei ao certo quanto tempo passamos ali. Só sei que depois disso, senti-me o cara mais feliz do mundo. Não por ter deixado de lado o título de BV, mas sim pelo momento ter sido lindo e um dos mais emocionantes da minha vida.

Foi tão bom, mas tão bom que quis viver aquela sensação para sempre. Pena que o "para sempre" durou apenas um ano e nove meses, mas mesmo assim o meu "para sempre" foi intenso, bonito e eu sei que, enquanto viver, jamais esquecerei, em especial, do meu primero beijo.

***

14 pseudocomentaram:

Laís Pâmela disse...

Divo,
Arrasou com seu depoimento. Amei amei.
Você sempre quebrando paradigmas!

Beijo.

PS: o importante não é ser pra sempre. É SER!

Ana Seerig disse...

Que linda história, Tiêgo!
Queria poder contar o mesmo do meu primeiro beijo, também com 13 anos, mas infelizmente não posso, foi beeem menos emocionante que o teu...
Enfim, adorei tua lembrança tão belamente contada!

Rede Social Mural de Caldas disse...

O Seu blog tem um conteúdo maravilhoso! Aproveite e divulgue ele aqui grátis! http://www.muraldecaldas.com.br

Jeniffer Yara disse...

Seu primeiro beijo foi tão lindo,inocente e puro Ti, ainda não sabia de toda a história com Marina. E eu sei o que é ser BV quando todo mundo que você conhece já não é mais, rola aquela pressão nada básica, o meu primeiro beijo não foi nada como esperava que fosse, comigo nunca é, impressionante! :/ rs

Linda história, as lembranças que ficaram são as mais importantes aí.

Beijos

Juliana Santos disse...

Parabéns!Adorei essa postagem. Abraços!

Thaina Farias disse...

Que coisa mais fofa!
Faz um tempo que li um texto teu falando dessa Mariana. Legal o modo como você fala dela, é bonito.
Achei bacana essa tua experiência ter sido tão especial, porque a da maioria das pessoas é meio traumática, corriqueira e sem graça.

Beijão!

Nati disse...

E também não esquecerá, por ter sido um sentimentos correspondido, já que infelizmente são tão raros.

Relembrar é viver.

Beijo

Felipe disse...

É tão bom poder lembrar de coisas boas que aconteceram e nos tornaram mais felizes.
Bonita a tua história e bom que deu certo, no tempo necessário.

Thamy disse...

Ai que lindo.
*-------------*

eu nem me dava ao trabalho de fugir da ed fisica, jova no ali mesmo com os professores e os colegas preguiçosos. Me arrependo disso hj...

Thamy disse...

jogava UNO ali mesmo*

rs

Jade Amorim disse...

OMG! *suspiros*
Que coisa mais linda e romântica para vir de um garoto! *-*

Sua experência de primeiro beijo foi incrível mesmo, a minha foi um fiasco, mas também foi aos 13 anos (como todo bom nerd! rs).

No dia 8/08/2008. Sinistro, não? '-'

Beijos.

Cássia Vicentin disse...

Eu imaginei toda a cena... Que história vivida mais fofa! Meu primeiro beijo foi um desastre :|

Cicero Edinaldo disse...

olá! meu primeiro bjo foi estranho. Não gosto nem de lembrar. PARECIA ALGO TERRIVELMENTE DESAJEITADO E NOJENTO! Hoje, OS MEUS BJOS TEM OUTRO SOM E OUTRA TONALIDADE!
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pelo depoimento. parabéns! vou te seguir! abraços!

Cristopher disse...

vc é sortudo mas eu nunca namorei nem dei o primeiro beijo, Tenho vergonha de mim mesmo devo me suicidar?