quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Uma estória sobre bullying, parte um

Em tempo: esta estória foi baseada em fatos reais e, por eu ter me empolgado demais escrevendo-a, vi a necessidade de dividi-la em duas partes, para que não fique cansativo nem para você, leitor, nem para mim. Amanhã vocês saberão o desfecho da história!


***

" - Mulherzinha!
   - Mariquinha!
   - Vai virar homem, veadinho!"

Era mais ou menos assim que eu era recebido pelos colegas "carinhosos" todos os dias quando pisava em sala de aula. As agressões verbais eram tão constantes que eu até já havia me acostumado com elas - não significando que eu gostasse delas. Muito pelo contrário! Eu queria muito reunir forças para dizer "parem com isso!", mas o máximo que eu conseguia era correr para longe deles, me trancar no banheiro e chorar, numa tentativa frustrada de minimizar o sofrimento que eles me causavam. E o pior é que eu não sabia como acabar com aquilo. Era como se existisse uma espécie de bloqueio em mim sob a influência da qual eu não conseguia, de maneira alguma, reagir.
Até que um dia aconteceu.
Engraçado, eu era maior do que eles. Tanto na altura como na inteligência. E não tinha sucesso em acessar estes atributos. Com treze anos, eu já tinha praticamente um metro e oitenta, enquanto a maioria dos colegas  mal chegava a um e sessenta. Eu me sentia mal por ser tão diferente deles, mas não fazia gosto de que eles soubessem disso. Aliás, eu tentava parecer legal - mas meus colegas não eram nem um pouco legais comigo.
Essa falta de cordialidade deles estava com os dias contados, mal sabiam eles. E eu.
Era sábado letivo e chovia demais, o que era de uma anormalidade ímpar, já que em setembro nunca se veem nuvens negras no céu, principalmente no fim de semana. Cheguei no colégio encharcado e morrendo de vergonha de entrar na sala de aula. Por isso, fui ao banheiro tentar me secar. Ao abrir a porta de acesso ao primeiro dos dois banheiros masculinos, eis que me deparo com quatro meninos parados à minha frente, como se adivinhassem que eu entraria ali de presente para a zoação diária deles.

- A bicha veio molhada para escola hoje! Deveriam proibir isso. Aliás, o que é isso, a nova moda em Paris? - disse Otávio, o mais panaca de todos, apontando para o moleton que eu tirava da mochila.
- Ou será que é um capuzinho para brincar de chapeuzinho vermelho no intervalo com as amiguinhas dele? - ironizou Matias, o cachorrinho mais fiel do Otávio. João e Márcio, os outros dois seguidores se espocaram em gargalhadas mais forçadas do que vômito de bulímicos.
- Não enche - disse eu, tentando me esquivar deles. Obviamente, sem êxito.
- O que foi que você falou? A mariquinha se manifestou, ui! - bagunçou Otávio, com os olhos brilhando como sempre na hora de me azucrinar. - Pois vai aprender a respeitar seu superior. É por isso que eu odeio bichas. Raça de gente que não merece viver - completou, desferindo um soco na minha cara.

Naquele momento, alguma coisa dentro de mim despertou. E com uma fúria de titã. Nem me lembro ao certo como foi, mas larguei a mochila no chão, segurei o Otávio pelo uniforme e pressionei-o contra a parede, ato este que o fez arregalar os olhos.
De medo.

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