segunda-feira, 10 de setembro de 2012

A libertação: relato de uma saída (sem volta) do armário


Talvez este seja o texto mais pessoal que eu já tenha escrito em toda a história (nem tão longa assim) do blog.
Sabe, existem momentos em que você não aguenta, mesmo. Tipo quando você está num sonho tão lindo que ter que acordar às seis para ir ao colégio/trabalhar/whatever acaba sendo o pior dos castigos e você se vê sufocado por uma sensação que você poderia evitar continuando a dormir (e consequentemente, a sonhar), mas que por uma questão obrigatória, força-se a despertar. Ou até mesmo quando você está numa piscina, querendo aguentar mais tempo embaixo d'água, mas seus pulmões não aguentam nem dez segundos e você trata de submergir o mais rápido possível.
Até sábado, eu me sentia desse jeito. Preso num sonho do qual eu não queria acordar, sob a água de uma piscina querendo ficar o máximo possível lá. Porém, a vida prega peças na gente de uma forma surpreendente. Tenho que tirar o chapéu para quem escreveu o script da minha, pois estou satisfeito demais com o desenrolar do filme.
Enfim, era sábado, oito de setembro. Eu acabara de chegar de um encontro com algumas amigas da universidade, por volta de dez horas da noite. Não sei ao certo o que me ocorreu, mas algo me dizia desde o instante em que eu levantara da cama de manhã que aquele dia não seria apenas mais um dia. E assim aconteceu. Na caminhada de volta para casa, vim pensando em mim - coisa que eu não fazia há décadas. Depois de tanto refletir, constatei que eu estava me sentindo frustrado. Como bem vocês sabem, sou gay. Mas minha família não sabe disso, ou pelo menos eu acho que não. Meus amigos sabiam mas eu não conseguia contar para ninguém da minha família, o que seria o suposto 'correto'. Pois bem, cheguei em casa ainda pensando nisso, mas me desviando um pouco mais dos pensamentos por conta dos meus pais e da minha irmã que riam vendo um filme na TV. Assisti um pouco com eles, até que mamãe foi até a cozinha e eu a segui, involuntariamente. Ela iniciou um papo de que eu não ia há um tempão à missa e que queria que eu fosse na de domingo de manhã, pois era festividade de São Benedito.
Foi quando me deu um estalo. Lembrei de toda a confusão que foi tentar frustradamente mesclar igreja e sexualidade. Aquele era o momento. Hora de acordar do sonho lindo, hora de sair de baixo d'água. Hora de exterminar aquela sensação de sufoco que eu não aguentava mais sentir. Eu chamei sua atenção e comecei:

"- Mãe, eu amo você. E espero que a senhora continue me amando do mesmo jeito que sempre me amou durante dezoito anos de vida depois do que eu lhe falar."

Ela ficou gelada. Sorriu, mas logo ficou séria de novo pois percebeu que eu não brincava como sempre faço.

"- Fala, filho. Fala o que você tiver para falar."

E então, saltei rumo à felicidade, ao alívio:

"- Mãe, eu gosto de homens do jeito que deveria gostar de mulheres."

Não sei bem ao certo o que eu senti. Foi um misto de alívio com felicidade e satisfação. Agora ela parecia chocada. Nervosa, chocada, tensa. Eu a confortei, disse que eu era a mesma pessoa que era há cinco minutos atrás e ela me olhou, com os olhos cheios de lágrimas, dizendo as palavras que eu mais queria ouvir na vida:

"- Eu vou te amar e te apoiar do jeito que você é até o fim."

Aquele foi o momento mais feliz da minha vida. Nem tanto pra minha mãe, que depois ficou me perguntando se eu era gay desde sempre e outras coisas mais que todo mundo pergunta quando eu digo. E também confortei-a, falando que não era pra ela se preocupar porque eu não sairia na rua com um top e uma sainha coloridos e um megahair porque eu nunca me vi daquele jeito (desculpa travas lindas do meu coração, amo vocês). Na verdade, disse à ela, eu me sinto bem do jeitinho que eu sou. Com o corte de cabelo militar, com as calças largas, as camisas gola polo, o amor por livros, por jogos de luta, odiando alho e querendo ser escritor. Ela se emocionou com meu discurso e não parava de dizer que me amava, e que aquele era mais um orgulho para ela ter de mim.

E era apenas do que eu precisava. De uma fortaleza na qual eu pudesse me refugiar sem me sentir preso, incauto. E uma vez dispondo dela, não temo absolutamente mais nada. Dei adeus a uma fase minha que eu espero que não volte nunca mais. E agora é hora de continuar sonhando. Só que com os olhos bem abertos e com os pulmões cheios de ar, para que a sensação de alívio possa me invadir e me fazer esquecer que um dia fui um cara frustrado que disfarçava a dor mascarando-a sempre que podia. É hora de sonhar a realidade. A minha mais nova liberta realidade.

7 pseudocomentaram:

osculaiamigos disse...

Parabéns,Tiêgo, pela sua coragem!

Minha opinião é sempre contar logo pra família. Apesar quem em muitas rola muito preconceito, mas são eles que sempre lhe dão apoio incondicionalmente. Acho que tudo fica um pouco mais fácil quando se pode contar com o apoio familiar, não?

Abraço!

Maristela... disse...

Amigo! Que emoção ao ler seu post, que bom que você teve essa atitude, e principalmente, que bom que sua mamãe pode entender-te e orgulhar-se de ti, ainda mais!
Torço mesmo para que esse passo, definitivo, seja o início de uma vida liberta e cheia de amor!

Beijos, estou ORGULHOSA e feliz por vc!

Thaina Farias disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Thaina Farias disse...

Tiêgo, mal nos conhecemos, o máximo que rola é uma troca de comentários, mas acredita em mim, fiquei bem feliz por você, talvez porque entenda tudo isso que passou e não está - ainda bem! - passando mais. Quando leio relatos assim eu fico contente porque me dá uma esperança nas pessoas, sabe? Comigo aconteceu de um jeito bem diferente, bem diferente mesmo, de modo que eu preferia estar dormindo e sonhando ainda, mas bom saber que com alguns é diferente, tem sido diferente! Ainda bem que as pessoas tem se dado conta de que opção sexual não está ligado a caráter. Parabéns pra tua mãe, isso sim é mãe que apóia, ama, que quer o bem e sabe que o bem é te ver feliz! E que ótimo que as coisas vão melhor agora, ufa, né.
Beijos!

Jeniffer Yara disse...

AAAAAAAAAAAAAWN, como assim você fez a grande revelação e eu não fiquei sabendo disso mais cedo?! :/// Que bom que deu tudo certo, que bom que sua mãe é uma linda que te compreendeu e te entendeu super bem <3 Fico muito, muito feliz por você Ti, parece que quando contamos algo que deveríamos contar mas que não tínhamos ainda coragem pra contar, é um alívio imediato *_*

Beijos!

Tay disse...

Que liiindo, Tiêgo!!! Você não sabe (aliás sabe) o quanto eu torci pra que a sua revelação fosse assim: prudente, na hora que era pra ser. Você teve coragem. Isso é inspirador! Eu fico muito feliz por sua mãe ter aceitado porque né, ela é a pessoa mais importante da sua vida. E tá, isso pode até ter deixado ela nervosa, mas ela aceitou. Tô MUITO feliz por ti, meu amigão!!!! <3

Vanessa disse...

Fiquei muito feliz ao ler esse post. Você nem imagina o quanto. Imagino que esteja se sentindo mesmo muito mais leve. E fico mais feliz ainda porque sua mãe aceitou dessa forma. Você merece toda a felicidade do mundo e vai conseguir isso sendo quem é.