domingo, 10 de novembro de 2013

TAG: Hábitos de Leitura

Voltei! E voltei com vídeo bem tal qual pra vocês falando dos meus hábitos de leitura! A TAG foi indicada pela minha amiga maravilhosa e sensual Tailany, do Despindo Estorias, nesse post. Espero que vocês gostem!! E desculpem essa resolução linda demais, eu continuo dependendo do meu celular pra gravar os vídeos. :( Saudades Galaxy Camera, saudades Nikon, saudades riqueza. rss No mais, enjoy it! Até mais!


terça-feira, 5 de novembro de 2013

E aí que eu vou pra Espanha!


Pra aumentar, é só clicar (rimou kk). Link do resultado aqui.

POIS É.

Eu fui de enxerido, como quem não quer nada. Me inscrevi (não me corrijam, sei que o certo é inscrevi-me porque tá no início da frase but whatever) com a certeza de que eu precisava de muito mais do que um histórico bonitinho pra passar. Minhas notas sempre foram boas, isso é bem verdade, mas eu precisava provar que eu não só só acadêmico, mas que participo ativamente da vida universitária. E dá-lhe participação em congresso, seminários, curso de extensão e afins. Quando fui ver, comecei a sonhar. Ainda achava pouco, mas comecei a torcer. Passou  um dia, dois dias, três dias. No quarto dia, saiu o resultado. FUI SELECIONADO PRA PARTICIPAR DO TOP ESPANHA!! Caramba, parece um sonho ainda!!! Sei lá, mirei nos lados e acertei no alvo. haha Foi muito inesperado. Ninguém esperava. Muito menos eu. Eu torcia, lógico, porque a gente não se inscreve em nada aleatoriamente. Mas putz, EU VOU PRA ESPANHA. Vocês tem noção disso? Passar quase um mês longe daqui conhecendo um idioma que eu vi vagamente em um semestre no colegial, vivendo direto a experiência com os habitantes de lá, com a cultura espanhola? Caramba, que experiência. Vai ser diferente de tudo que eu já fiz na vida. Só escrevi esse post porque eu acho digno compartilhar com vocês, leitores. Espero postar muito de lá da Espanha também, pro blog virar a ryqueza também porque né. hahaha

No mais, é isso! Putz, estou me tremendo TODO só me lembrar de quando vi o resultado ontem. Espanha, me aguarde bem tal qual porque logo logo estou aí!! Até logo, seus lindos!!

De um rapaz que não sabe NADA de español além desse N com o til em cima,

Tiêgo

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Library, 5


Na semana seguinte, precisei ir à biblioteca devolver meu exemplar de "Quem Tem Medo do Escuro?". Eu não retornava lá desde que quebrara o óculos do Dimas. Ele tinha marcado de me encontrar lá, depois que ele terminasse a prova de anatomia. Sim, ele era fascinado por livros, atuava em musicais e peças mas fazia medicina. Há controvérsias.
Nesse meio tempo, descobri que Dimas estava prestes a entrar em depressão e que faltava à aula há pelo menos uma semana.
Ele morava sozinho aqui na cidade.
Não tinha amigos próximos senão os colegas de musical.
Tinha se decepcionado com um cara bem antes de mim, pois o rapaz só queria usá-lo. E quando ele se deu conta disso, já era tarde demais e levou um bom tempo para esquecê-lo
Ele disse (ele disse, vejam bem) que assim que me viu entrar com aquela pilha de livros, percebeu que eu era diferente. E que iria atrás de mim mesmo que eu não tivesse derrubado tudo no chão - nunca fiquei tão feliz por ter deixado livros caírem no chão.
Ninguém sabia sobre a sua orientação sexual a não ser eu naquele momento. Eu o entendia perfeitamente, até porque eu já havia passado pela mesma fase e tinha doído exatamente da mesma forma. Ele se sente incompreendido. E eu me senti na obrigação de mostrar a ele que quem deve entendê-lo é ele próprio e mais ninguém. Ele carrega agora a autoaceitação como um mantra.
Descobri ainda que ele escrevia, e muito bem. Seus poemas de amor (declamados ficaram ainda mais belos) eram de uma franqueza e romantismo impressionantes.
E descobri que ele gostava de mim. E que ele acreditava nisso de "gostar" à primeira vista. É estranho pensar que alguém bateu os olhos em você e gostou assim, de cara, mas é um sentimento estranho no bom sentido. Estou nas nuvens, sem brincadeira alguma.
- Alguém está pensando demais - disse a bibliotecária enquanto eu procurava outros livros na estante. - Olhe este, chegou semana passada. Li assim que me foi entregue. "Amor", de um autor desconhecido. É fabuloso. Você deveria ler, é bastante interessante - completou ela, me entregando o volume pequeno do livro. Na capa, a palavra "amor" estava escrita em uma fonte minúscula e vermelha, num fundo branco. Os dizeres "autor desconhecido" abaixo do título me intrigaram. Decidi emprestá-lo.
- Obrigado pela dica. Estou curioso - disse a ela, grato. Como eu não tinha mais aula, decidi me acomodar num dos sofás por ali enquanto Dimas não chegava e comecei a ler "Amor". Era narrado do ponto de vista de um homem de 30 anos que falava que ainda não tinha encontrado o amor. O livro era pequeno, tinha pouco mais de cem páginas. Achei que logo terminaria, por isso iniciei a leitura.
A cada página, uma surpresa. Eu já havia visto aquilo em algum lugar. A inquietação pelo final me fez ler mais e mais e mais e nem reparei no tempo passando nem no entra e sai de gente naquele local. Concluí a leitura com facilidade e fiquei frustrado ao ver que acabou tão rápido. Ao final do livro, o autor dizia a seguinte frase: "eu ainda encontrarei o amor. Nem que seja numa biblioteca."
Dimas me olhava sentado na mesinha em frente, na mesma mesinha onde deixei os livros caírem quando nos encontramos. Sorrindo como sempre, ele fitou a capa do livro e disse, antes que eu pudesse falar algo:
- E eu encontrei o amor. Numa biblioteca.

***
PS¹: o conto saiu todo de um sonho que tive. Escrevi todo no domingo. Sonhei com esse menino de quinta pra sexta e no domingo vi na rua um rapaz que me lembrou na hora o cara com quem eu sonhei. Não é verídico nem nada do tipo! hahahaha
PS²: essa é a última parte, tá? haha
PS³: tenho escrito bastantes coisas nos últimos tempos. Não sei se pretendo publicar tudo, mas com certeza o desejo de blogar voltou com tudo. Tinha esquecido como era bom falar e falar e falar mesmo que esses devaneios malucões. Não tô apaixonado nem gostando de ninguém, mas vai que eu tope com um cara alto, dos cabelos e olhos negros na biblioteca da universidade? hahahaha Até mais!

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Green Mount, 4


- Que grata surpresa! - ele exclamou, ao me ver sentado no topo do morro.
Não havia ninguém ali por perto e um frio percorreu minha espinha. Ele poderia me matar facilmente com um golpe na cabeça, já que eu estava de costas para ele - hoje em dia temos que pensar no pior até nas circunstâncias mais legais. Mas ele me matou mesmo foi de susto.
- Caramba, Dimas, que susto! - disse, espantado. Ele estava mais lindo do que estava no musical, com os cabelos penteados como eu o tinha visto na biblioteca, mas com uma T-shirt quadriculada de preto e branco e uma calça jeans preta, combinando com os olhos e os cabelos. No rosto, para a minha surpresa, estavam óculos novinhos em folha. Ele riu ao ver minha expressão ao reparar no acessório.
- Eu tenho mais dois reservas. Vivo perdendo todos porque de vez em quando a miopia ataca nos ensaios do musical, aí eu preciso usar, infelizmente. Não é charminho nem nada do tipo não, viu? - ele disse, com um sorrisão no rosto.
- Eu percebi. Você quase caiu ontem ao descer as escadas da biblioteca, lembra? - recordei o fato que o fez explodir em gargalhadas.
- Não precisava lembrar! Minha visão é boa para o dia-a-dia, mas como eu disse, tem horas que sinto como se tudo embaçasse. Aí preciso dos olhos extras - completou, rindo.
- Eu acho legal. Acho bonito - não sei de onde saiu a coragem pra falar isso. Ele ficou vermelho.
- Você me chamou de bonito? - perguntou, sério.
- Se você entendeu desse jeito, sim. - estava decidido. Eu já não me importava mais com nada.
- Obrigado.
Silêncio.
- E obrigado de novo, por ter ido ao musical - disse, recuperando o tom natural do rosto. Comecei a metralhá-lo de perguntas.
- E por que você não me disse que ia atuar? Por que me chamou até aqui? Por que me intimou para o café? Por que não me...
Dimas não me deixou terminar. Um beijo tão profundo e sincero me calou a boca com voracidade.
Correspondi, lógico, porque eu esperava por aquilo desde o primeiro momento em que olhei para aquele rapaz. Só não esperava que um: seria correspondido e dois: que aconteceria tão rápido. Enquanto nossos lábios não tinham a menor pretensão de se soltarem, mil e um pensamentos se passavam pela minha cabeça. E tudo o que eu menos queria era ficar longe dele. Queria ouvi-lo cantar, falar sobre o musical, sobre os livros que gosta de ler, sobre o que mais faz da vida. Sobre o que pretende fazer, os filmes que gosta de ver, as angústias e as tensões que passam pela cabeça dele. Eu queria o Dimas como eu nunca quis cara nenhum.
E ele estava ali, bem na minha frente, beijando-me os lábios com o desejo que tomou conta de mim durante esse tempo todo (grande tempo, dois dias).
Ele abriu os olhos e eu permaneci com os meus fechados. Dimas sorriu e perguntou, bem baixinho:
- Por que não abre os olhos?
- Porque é um sonho. E eu estou com medo de acordar.
- Abra os olhos.
Abri.
- Fecha os olhos.
Fechei.
- Abra de novo, Tiêgo.
Abri.
- É real - Ele me beijou de novo, só que bem mais rápido dessa vez. - E acho que era de você que eu estava precisando.
- Você parece um sonho.
- Mas eu não sou. E parece mentira que alguém tenha se interessado por mim - disse ele, deixando-me surpreso. Eu definitivamente acho que ele faz bem o tipo da maioria das pessoas. Ele é bonito. Eu é que não me sentia "à altura" dele.
- Você é lindo. Para com isso - disse. - E eu acho que você deve responder às minhas perguntas, porque eu detesto ficar sem respostas.
- Precisa ser agora? - perguntou ele, ranzinza. Até daquele jeito ele ficava lindo.
- Depende. Por que da pergunta?
- Porque eu quero ocupar a minha boca com outras coisas agora.
- Agora?
Seus lábios encontraram os meus novamente. E de novo, e de novo...

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Musical, 3


Eu amava musicais, mas nunca tinha escutado falar de A Chorus Line. Pode parecer negligência, mas só depois fui olhar no Google sobre o espetáculo.
Às sete horas da noite, pontualmente, eu estava lá. O Teatro Municipal era lindo. Eu me culpava por só ter ido lá uma vez, mas já tinha me prometido que iria mais vezes, pois produções culturais legais aconteciam ali o tempo todo e eu não ia porque era um bocó.
Achei que seria grosseria de minha parte entrar sem esperar o Dimas. Sentei num dos banquinhos de mármore espalhados pela entrada e aguardei. Passaram dez minutos e o espetáculo estava prestes a começar e eu não sabia o que fazer. Decidi entrar, para não dizer que a noite tinha sido em vão. Já estava meio assim, mas entreguei o ticket à moça que ficava na recepção, ela me desejou um bom espetáculo e só o que eu queria era um bom Dimas do meu lado. Ou um Américo, não sei. Agradeci a ela e entrei.
Tinha gente até não querer mais. Ainda consegui sentar na sétima fileira, e havia uma cadeira vaga do meu lado esquerdo, ao  lado do corredor. Imediatamente após me acomodar na cadeira, as cortinas se abriram.
Assisti atento a cada passo dado pelos atores. No terceiro ato, eu já tinha até esquecido porque estava ali quando Dimas surge dançando sapateado e cantando, enquanto os demais cantavam. Senti todos os pelos dos meus braços se arrepiarem. Volta e meia eles desciam do palco e Dimas veio em minha direção, dançando em uma perfeita sincronia com os colegas atores. Eu não parava de sorrir. Ele deixou cair um papelzinho enrolado na cadeira vazia ao meu lado e piscou, enquanto retornava para o palco antes do número terminar. Apanhei-o, mas só o abri no final do espetáculo. Dimas retornou muitas vezes para o palco, atuando, dançando e me emocionando. A Chorus Line era um musical sobre a diversidade, pude bem notar isso. Todos bastante talentosos numa harmonia incrível. Eu era só sorrisos no último ato, que segundo uma mocinha do meu lado, se chamava "One". Todos cantaram juntos e era uma quantidade impressionante de gente naquele palco. Não cheguei a contar, mas acho que tinha mais de cinquenta pessoas. Dimas estava na fileira principal, com outros dez atores e atrizes. Ao encerrarem a canção, a plateia toda aplaudiu de pé, emocionada com o esforço e dedicação de cada um. Dimas sorriu para mim antes de ir para o backstage e só então abri o papel para ler o que estava escrito numa caligrafia impecável:
- "Obrigado por ter vindo. A lua está linda hoje. Se você for do time dos amantes dela, o musical termina às dez. Vou te esperar no Morro Verde, você sabe onde é. Se não, vai ser perfeitamente compreensível. Até! Dimas."
Eu fiquei sem reação. O Morro Verde era um ponto de encontro de casais.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Coffee, 2


- Cappuccino. É. Dois. - pedi ao garçom.
Eu adorava cappuccino. Ele também parecia gostar, pois aguardava ansioso, mais do que eu até. E era eu para estar, pois me sentia culpado demais por ter sido o culpado pela quebra dos óculos dele.
- Eu costumo tomar café aqui todos os dias nesse horário. Leio praticamente a tarde toda, se não fosse por isso - ele disse, escolhendo uma mesa bem distante de onde as demais pessoas estavam sentadas.
Caminhamos em silêncio da biblioteca até a cantina e parecia que eu continuava sem forças para falar. Sei lá que diabos tinha acontecido comigo; eu definitivamente não era daquele jeito. Mas o menino me deixava daquela forma. Só me restava continuar jogando o mesmo jogo que ele queria jogar, por mais que eu não fizesse ideia de como fazer isso.
- Eu trabalho à tarde - comecei, criando um pouquinho de coragem. - Trabalho numa creche, com crianças entre quatro e seis anos.
- Deve ser complicado, estou certo? - ele perguntou, rindo. Aquela risada me desconcertava, porque eu não sabia o que pensar.
- É. Você está certo. Eu realmente gostaria de trabalhar numa biblioteca,  ou em algo que envolva livros. Sou fascinado.
Ele ia começar a falar, mas o garçom interrompeu e disse, colocando as xícaras sobre a mesa:
- Dois cappuccinos. Mais alguma coisa?
- Não, obrigado - ele disse. Eu assenti e o senhor de meia-idade se retirou.
- Eu também gostaria. Aqui mesmo na universidade já seria legal - ele continuou a conversa. Eu achava que ele nem ia mais ligar para nada disso e eu não estava entendendo nada.
- Seria um bom começo. Acho que eu também gostaria.
Tomamos ao mesmo tempo um bom gole do café. E realmente estava delicioso.
- Incrível, como sempre - comentou. - Você não acha, Tiêgo?
Fiquei com cara de tacho. Todas as vezes em que ele chamou meu nome eu fiquei com cara de tacho, mas naquela vez foi pior.
- Américo. É isso que você quer saber, não é? Meu nome?
Senti um arrepio percorrer a minha espinha. Ele lia mentes ou coisa do tipo?
- Ainda bem que você sabe - disse, cheio de coragem. - Eu já estava apreensivo com você me chamando pelo nome e eu evitando construir frases que tivessem que inserir o seu nome.
- Você fala bonito. Eu acho que nunca falei na minha vida que ia "construir frases". - ele observou, rindo. Acho que da minha cara de tacho, mas enfim.
- Ah, já até me habituei a falar assim, Américo. - frisei o nome dele. E ele percebeu.
- Ó, de novo você falou difícil. Eu geralmente me acostumo a fazer algo. Você se habitua. É estranho de um modo legal. - Ele me fez parecer uma gramática daquelas bem grandes. - Ah, e não precisa frisar meu nome da próxima vez.
- Ok, paremos. Estou me sentindo um alienígena - ele começou a rir. Eu tomei mais um gole do café e ele me olhou fazer isso. Confesso que por um mínimo segundo eu me senti desejado, mas foi só por um segundo. Em seguida, ele recomeçou a falar, movimentando a colherzinha em círculos na xícara de cappuccino.
- Meus amigos me chamam de Dimas. Não tem nada a ver com Américo, antes que você me pergunte, mas é porque eu pareço muito com meu pai e o nome dele é Dimas. Prefiro que você me chame assim. - confessou.
- Certo, Américo - brinquei e sorri, já sentindo a tensão eliminada na mesma hora. A excitação ao olhar naqueles olhos pretos ainda persistia e eu ainda estava tentando entender como eu tinha ido parar ali. Só tinha certeza de que estava adorando aquilo tudo e que eu precisava me controlar para não afugentar o Dimas, porque algo me dizia que não acabaria ali.
- Se quiser me chamar assim, chame. Acho que não vou me importar.
Meu coração gelou de novo. Tomei mais um gole de café para ver se melhorava.
- Era brincadeira, Dimas. E antes que eu esqueça, preciso saber quanto custou o seu óculos. Não vou me perdoar se eu não te devolver outro - engatei a conversa, já com medo de me perder no nervosismo.
- De forma alguma. Você vai pagar o cappuccino. Já está de bom tamanho - decretou. - Aliás, tem uma coisa sim que você pode fazer por mim.
- O quê? - perguntei, tenso.
- Me fazendo companhia amanhã à noite. Você gosta de musicais?
Wow. Eu amava musicais, mas se ele me pedisse para eu ir num show de rock pauleira era bem capaz de eu aceitar na hora.
- Muito! Por que?
- Eu comprei dois ingressos para assistir A Chorus Line - O Remake - o inglês desse rapaz era perfeito. Senti vergonha. - A produção é local e eu acho que vai ser legal! É difícil ver algo do tipo por aqui, e não queria perder a oportunidade. Você topa ir comigo?
- Com certeza! Onde e que horas? - confirmei, nitidamente excitado (em todos os sentidos, confesso).
- Às sete, no Teatro Municipal - disse ele, puxando da carteira um ticket de entrada para o musical e me entregando. Ele tomou um último gole antes de acabar a xícara de cappuccino e prosseguir: - Acho que não vou me arrepender disso. E eu sei que você mal me conhece e tal, mas eu consigo ver em você algo que eu não vejo na maioria dos caras: sensibilidade.
Para quem mal tinha me visto uns vinte minutos, acho que ele já tinha feito uma análise completa sobre a minha vida.
- Nem sei o que dizer.
- Não diga. Amanhã, sete horas, Teatro Municipal. Até! - disse, apertando a minha mão e saindo apressado em direção a saída. Murmurei um "tchau, Dimas", mas acho que ele não ouviu. Mas não fazia mal. Eu teria uma noite toda para dizer um pouco mais do que "tchau, Dimas".
Tomei meu último gole de cappuccino, paguei a conta e, caminhando de volta para casa, me peguei afagando minha mão direita, apertada por aquele cara alto, dos cabelos negros e de um enigma indecifrável no olhar.

domingo, 20 de outubro de 2013

Glasses, 1

Engraçado enxergar a situação sobre outro ponto de vista.
Ele era alto, pouco mais do que eu. Tinha os cabelos negros (nem tão negros quanto a asa da graúna, mas era quase isso), lisos e brilhantes. Tinha os olhos igualmente negros e grandes que, assim que me fitaram, me fizeram gelar. O rosto era fino, marcado por traços fortes. Branco (do tipo tocou avermelhou, sabe?). E no final, para eu não esquecer mais, ele usava óculos de grau. Eu era fascinado por pessoas que usavam óculos de grau, e quando eu enxergava um cara daqueles, numa biblioteca, sozinho e parecendo atento à leitura que fazia, nem acreditava. Eu costumava ir ali com frequência e o teria notado com facilidade se o tivesse visto, mas ele era novo. Ah, se era.
Particularmente, eu achava uma palhaçada isso de olhar pra alguém e se excitar na mesma hora. Mas foi bem isso que aconteceu. Desastrado como sempre, fui patetar olhando para o rapaz, o olhar dele finalmente se encontrou com o meu e pá, deixo derrubar uma penca de livros que tinha emprestado na semana passada. Ele riu, mas não vacilou: ofereceu ajuda. Eu ri junto, lógico, não ia perder o rebolado, mas ninguém fazia ideia do frisson que acontecia dentro de mim. Aceitei e agradeci. Ele recolheu os livros que estavam mais perto dele e eu recolhi os que caíram sobre a mesa de madeira que ficava sempre próxima da entrada. Ao me entregar, ele tocou minhas mãos involuntariamente ao me devolver os livros e comentou:
- Também gosto bastante de Sidney Sheldon - e riu mais uma vez, apontando para os títulos que fez questão de deixar em cima da pilha.
- É meu escritor favorito - eu observei, tentando não tremer nem deixar os livros escorregarem. Eu fiz menção de me dirigir à bibliotecária, quando ele olhou para perto da mesa onde deixei cair alguns livros e viu mais um jogado no chão. Eu realmente estava balançado, porque para eu não ter percebido que esqueci um livro largado no chão... Ele me disse para esperar e foi justo quando olhei para baixo e vi o volume minúsculo de "O Conto dos Dez Negrinhos" espatifado próximo ao pé da mesa. Nós nos abaixamos ao mesmo tempo e nos demos de encontro com as cabeças. Os óculos voaram do rosto dele e se quebraram ao tocar o chão. Ele riu de novo (eu ainda tentava me recuperar da pancada na cabeça e já me preparava para ouvir um palavrão do rapaz) e me surpreendeu, dizendo:
- Esse durou três meses. Acho que temos um recorde. - e me devolveu o exemplar. Deixei os livros sobre a mesa, apanhei o óculos dele e avaliei o estrago, como se fosse o maior entendido do assunto.
- Acho que eu te devo um óculos novo. Não dá para salvar nada daqui, cara.
- Você me paga um café e estamos conversados, Tiêgo - ele intimou, lendo o meu nome no cartão de empréstimo do livro que tinha se soltado na queda dos volumes. Fiquei vermelho, nervoso que só vendo. Pedi a ele que esperasse até eu devolver os livros. Ele assentiu. Entreguei os livros para a bibliotecária, renovando somente o empréstimo de "Quem Tem Medo do Escuro?". O menino ria, parecia nem ter se abalado com a quebra dos óculos. Ao retornar ao lugar onde ele estava, o rapaz fechou o enorme livro que analisava criteriosamente, mas não consegui entender sobre o que era. Ele devolveu o exemplar à pasta que carregava e me disse:
- Às vezes é duro gostar de ler. Meus olhos que o digam - completou, me olhando. Os olhos estavam lacrimejantes, como se ele tivesse chorado bastante antes de vir falar comigo.
- Dá para perceber. Seus olhos estão vermelhos - observei.
- Sempre ficam assim. Ignora, Tiêgo.
- Certo, ignorados. Cantina, então? - eu ainda estava nervoso demais para perguntar o nome dele. E eu me sentia em desvantagem por ele saber o meu.
- Cantina. O café das cinco horas é o melhor de todos.
- Eu também acho.
E saímos da biblioteca. Como se nada tivesse acontecido.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Voltamos com nossa programação normal.


[Sim, estou vivo. Por incrível que pareça.]

Semana passada, dei adeus a mais um semestre na universidade. Estou a caminho do quinto e a expectativa só aumenta a cada disciplina finalizada. Expectativa de um mundo novo, de um futuro desconhecido, de um universo que se expande mais e mais. Eu adoro estudar, é um dos meus prazeres preferidos (coisa que muita gente acha esquisito, mas enfim), mas isso tem me feito abrir mão de alguns outros prazeres que antes eram prioridades, mas que hoje não são. Blogar é um deles.
Ontem passei horas pensando nisso, lendo meus posts antigos. Ri, chorei, lembrei de como era fácil deixar as palavras fluírem enquanto minha mente já fervilhava pensando em mais e mais textos. Essa vida corrida me fez deixar de lado a minha principal válvula de escape, para todos os  momentos. Não adianta, já tentei de todas as formas conciliar uma coisa com a outra mas só de pensar em escrever algo à noite, no finalzinho da bateria, sinto um sono infinito. É cansaço, é dor de cabeça... Escrever acaba se tornando uma realidade apenas nos meus sonhos. Quanto mais textos eu lia, mais eu constatava que mudei e que isso acabou se refletindo na minha total negligência com o blog.
Por conta disso, hoje acordei já com a decisão tomada: não importa quantos devaneios, viagens, bobagens e afins eu pense em escrever, venho depositar tudo aqui. Por mais controverso que pareça, aqui eu sou livre. Posso despejar meus sentimentos, minhas angústias, alegrias, desesperos. Aqui, concluí, eu sou feliz. Por mais que tudo esteja dando errado na "vida real", vir aqui, colocar meus pensamentos em palavras e clicar em "publicar" me deixa um pouquinho mais contente. Não posso mais deixar de lado algo que foi tão importante para mim em diversos momentos da minha vida. A vida já é dura demais para que esqueçamos o que nos faz bem.
Portanto, aguardem. Virei louco, virei insano, virei desconexo (às vezes com um pouco de nexo), mas virei. Chega de cansaço. Levantei, sacudi a poeira e vou dar a volta por cima. Wish me luck!

De um cara meio louco, meio insano e meio desconexo (às vezes com um pouco de nexo),

Tiêgo.

sábado, 1 de junho de 2013

And here I go again.

"Why do you walk in the dark
 Hoping that love finds a spark?"
                                   (Maria Gadú - Like a Rose)

E mais uma vez, estou cedendo a sentimentos aos quais jurei resistência há algum tempo atrás. Eu realmente não sabia que a medida que o tempo passa, fica cada vez mais forte. Pode até parecer ingênuo que eu tenha apenas dezoito anos, mas antes estes sentimentos amadurecessem e se tornassem mais intensos ano após ano e não vez após vez. Meu coração está aflito. Eu estou aflito. Não sei, eu não sou assim. Ao invés de passar horas lendo, jogando no computador ou estudando, penso nele. Naquele sorriso que paralisou meus ossos no instante em que eu achei que não fosse mais conseguir respirar. Naquele cheiro incrivelmente impecável que invadiu minhas narinas ao me aproximar de seu corpo num abraço de quem acabara de se conhecer. Penso naquela voz que confesso, pouco foi emitida, mas que foi proferida o suficiente para que ficasse marcada em mim de tal forma que soa como uma orquestra sinfônica a cada vez que me recordo. Pensar naquele momento me traz esperanças. Esperanças de que a felicidade, a tão sonhada felicidade, está próxima de mim. Engraçado, eu não fazia ideia das peças que a vida seria capaz de pregar. Não mesmo. Tão perto e tão longe. Tão próximo e tão distante. Acasos nos separaram por diversas vezes, incontáveis vezes. Até que então, despretensiosamente, encontramo-nos. E como todo bom (ou mau, não tenho certeza) acaso, deixou-me abalado. Minhas mãos geladas, em contraste ao clima quente, passaram a suar. Detesto sentir isso, mas eu estava nervoso, muito nervoso. Como não ficar nervoso diante do inesperado? E pior, quando o inesperado te surpreende de forma extremamente positiva? Sinto até agora os calafrios percorrendo minha espinha. Neste exato momento, inclusive, tive arrepios apenas por me lembrar daquele instante que não sai da minha cabeça de maneira alguma. Poderia existir algum remédio, fórmula, composto ou o que for para esse tipo de ocasião. Não é possível! Até a cura da AIDS já surgiu e ainda não criaram uma pílula capaz de aliviar a angústia, a tensão de um coração estremecido por um amor. Quero me recusar a chamar de amor. Paixão, quem sabe? É um misto de tudo isso. Desta vez, é ainda mais diferente do que todas as vezes. O desejo de estar junto é latente, quase insuportável. É uma força sobrenatural que me faz querer estar perto daquele cara vinte e quatro horas por dia. Faz-me querer acordar ao lado dele e dizer que só de ele sorrir eu já sinto que vai ficar tudo bem. E mais do que em todas as outras vezes, nunca aguardei tanto um "vai ficar tudo bem". Eu não sou assim, repito. Mas puxa, o que é isso? Que sensação mais esquisita é essa que me invade tão depressa e que não pede licença? Eu mal tive tempo para assimilar que estivemos tão próximos e que se o destino tivesse dado só uma mãozinha eu provavelmente não estaria aqui me lamentando por algo que não ocorreu e que eu espero do fundo do coração que aconteça um dia. Agora, nesse momento, eu só quero deitar na minha cama, abraçar meu travesseiro e dizer para mim próprio que mesmo que não aconteça nada, "vai ficar tudo bem". É, é isso. Aceitar que tudo pode acontecer. E pode acontecer. Eu só preciso dar tempo ao tempo. E aprender a lidar com essa força estranha, para começar.

"If I close my eyes, I can see your smile.
I can hear the laugh, I loved and I can't get enough.
I could pull you closer in a moment, just like this.
I could stop the world with only just your kiss.
[...]
I just can't believe the love, the love, the love,e
The love, the love, the love,
It's taking over me."(Lawson - Taking Over Me)

terça-feira, 14 de maio de 2013

Free


Meu semestre na universidade encerrou quarta-feira passada e não consigo descrever de maneira plausível o quão aliviado estou por isso. Tirar o peso de tantos trabalhos, apresentações e afins das costas me foi uma mão na roda: agora, felizmente, posso pensar um pouquinho mais em mim. Coisa que eu não venho fazendo há semanas.
Nesse início de recesso (acaba dia 27. Ô DÓ.), depois de ter descansado bastante, comecei a refletir sobre a mudança drástica que afetou minha vida nos últimos meses. Sinceramente? Olho-me no espelho e não me reconheço. Sou outra pessoa, totalmente diferente. Quando começo a colocar na balança e ver que muito do que eu era já se foi, não sei dizer como me sinto. Feliz, talvez, pelo amadurecimento que chegou com tanta responsabilidade junta; ou triste, por constatar que a cada dia que passa dou adeus a um pedaço do Tiêgo que por tantos anos viveu em mim. Faz parte da vida, sendo bem clichê, crescer. Tornar-se homem. Aprender a reconhecer que existem muitas outras coisas que merecem nossa atenção além de meras superficialidades. E creio que com tudo o que tenho vivido, experimentado, sentido, este novo mundo já faz parte de mim.
Digo isso tudo porque agora sim percebo que "tudo muda o tempo todo no mundo". O que planejei há cinco anos atrás não faz mais tanto sentido hoje. Aliás, o que planejei há um ano atrás já não é mais o que penso para agora. Essa constante mutação de pensamento passou a me afetar de tal forma que não tive mais para onde fugir - só me restou acatá-la. Aceitar que essa mudança de vida me acompanhará para sempre, inevitavelmente. E que essa aceitação mudará o rumo dos meus passos. Meus passos serão guiados dia após dia, com o decorrer das experiências vividas.
Completo esta fala dizendo a você, leitor que não me abandona (e agradeço de coração por isso), que eu não prometerei mais vindas e mais vindas para cá, para o blog. Ele era uma das minhas prioridades, confesso, mas não é mais. Quando o desejo de escrever for maior do que tudo, virei para cá e despejarei meus pensamentos, angústias e reflexões para vocês. Ele continuará aqui, intacto, pois não tenho a pretensão de deletá-lo, mas não me esperem mais com a frequência de antes (já afetada há alguns anos). Sempre que possível, postarei. Até porque muito do que eu sou como escritor, devo a este blog e a vocês, que "me leem" aqui há quatro anos e ainda tem os que me acompanham há muito mais tempo.
Portanto, entendam este post como uma carta de libertação. É assim que eu me sinto agora: livre. Sem obrigações. Sem metas a cumprir ou coisas do tipo. Este blog será o reflexo do meu novo 'eu' a partir de hoje. E esse novo eu, sem sombra de dúvidas, será ainda mais sincero do que foi durante todo o desenvolvimento deste texto.

De uma nova pessoa,

Tiêgo.

domingo, 31 de março de 2013

Eu volto, eu volto!

Galera, minha vida tá num nível hard que vocês nem imaginam. Final de semestre (vocês começando e a gente da federal sofrendo com o final do 2012/2, olha que dor), início de ano das crianças no trabalho, final do curso de inglês... Muita coisa ao mesmo tempo e o vosso blogueiro está sufocando. Ainda tenho um mês todo de dor, porque meu semestre só encerra dia 2 de maio e até lá tenho mais trinta dias lindos pra penar com um monte de coisas. Não sei se passarei por aqui em abril ou não, mas em maio a produção aqui será fértil, creio! Vou tirar férias de um mês. Então não terei motivo para não me dedicar ao meu cantinho que anda tão largado... But the dog days are over. Quero voltar com um lay bem bonito e com um monte de textos novos pra vocês. Vamo que vamo!

Ah, e um PS bem rapidão: participei de um concurso de crônicas que o III Encontro Amapaense dos Estudantes de Letras promoveu semana passada e eis que vosso blogueiro levou o primeiro lugar! Fiquei deveras feliz! E é pra vocês verem que, quando não estou em atividade por aqui, estou escrevendo nos intervalos das aulas, nas noites de insônia e afins. Aqui está o resultado e minha crônica está em anexo. Fiquem com ela nesta ausência daqui. Logo, logo, estou de volta. Até mais!

Tiêgo R. Alencar

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Dos clichês que fazem sentido

[Post baseado neste texto da minha queridíssima amiga Jenny.]

Numa roda de amigos, certa vez, jogávamos verdade ou consequência. Entre uma verdade e outra consequência, eis que a garrafa me indicou à berlinda. Meu amigo que havia girado a garrafa me desafiou a falar a verdade - eu deveria contar se eu já havia feito sexo. Virgem e conhecido pela minha sinceridade e ingenuidade, disse que não, que não tinha transado com ninguém até então. Naquele tempo, eu já era alto e tinha todo um porte de homem, mais do que tenho hoje - aí vocês imaginam a bagunça que eles fizeram comigo. Ninguém acreditava que um homem daquele tamanho ainda fosse virgem no auge da adolescência, enquanto todos se gabavam de suas experiências sexuais. Só que para mim, por incrível que pareça, aquilo era a coisa mais normal do mundo. Sempre foi.
Mas nem todo mundo pensa da mesma forma, certo?
Foi por isso que decidi iniciar o texto com esse relato - 'ilustrando' um pouquinho do que julgo ser você mesmo. Naquela situação, eu poderia muito bem ter mentido e dito que era um ás em assuntos sexuais, mas preferi agir conforme eu sempre agi: sendo o que sou. Quem me acompanha por aqui sabe que não tenho vergonha e muito menos medo de falar de mim, do que passei e passo. Não tenho a menor vergonha de dizer que gosto até hoje de RBD, que vejo BBB e adoro, que sou viciado em açaí com ovos e que choro por qualquer bobagem. Não tenho vergonha porque sei que se eu esconder tudo isso, não serei sincero, tampouco honesto comigo mesmo. E creio que não haja nada mais insuportável para alguém do que viver sob uma manta fantasiosa que só existe para si e para mais ninguém.
Ah, e antes que pedras me sejam atiradas, um aviso: acredito plenamente na personalidade mutável do ser humano. Acredito que as pessoas mudam conforme o contexto no qual elas são inseridas. Mas a personalidade delas, aquilo que as tornam únicas, não se desvencilha jamais daquilo que está incrustado na alma. É exatamente disso que eu falo: não abrir mão do que você é por qualquer coisa. Não é só porque todos estão amando uma banda que você precisa amar também. E aquele romance épico que todos amam, mas você detesta? Você leu e não gostou, e aí? É a sua opinião, foi você quem achou aquilo e não há como contestar (ou talvez até possa, mas isso é outra história).
Até agora, creio eu, ainda não inventaram uma única coisa que agrade a gregos e troianos. Nem Deus foi capaz disso, já que há pessoas que não creem em sua existência. Daí fica a reflexão: onde está o sentido de criar uma máscara para si? Agradar as pessoas? Se auto-promover? Encontrar o pote de ouro no fim do arco-íris? Não creio que valha a pena. Ainda sou mais curtir Cinquenta Tons de Cinza e não ter medo de falar do que ter Machado de Assis como ídolo e não entender uma vírgula do que ele diz. Porque afinal, como diz Preta e Gilberto Gil naquela propaganda da TV, "ser diferente é normal". E ponto final.


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Bullying, vinganças e Facebook*




Há alguns anos atrás, eu era um garoto complexado. Muito complexado. Não tinha vida social, tampouco amigos e ainda menos amigos de verdade. Por conta de toda esta  ‘reclusão social’, tive muitos problemas no colégio, especialmente no ensino fundamental. Não problemas de comportamento ou coisa do tipo, muito pelo contrário: eu era bastante elogiado pelos professores por conta das médias sempre altas. Meus problemas estavam nos colegas.
Para eles, eu não era exatamente o tipo ideal de pessoa. Respondia às questões dos professores, tirava dez, não tinha muitas amizades, não sorria, não era ninguém mesmo sendo alguém. Era assim que eles me viam. Só que eu não tinha o hábito de ligar para o que quaisquer pessoas dissessem sobre mim. Mas os colegas ligavam (demasiadamente) para essa indiferença notável que me era característica – e utilizavam a raiva que sentiam despejando vários e vários xingamentos. Eu era o “viadinho”, o “filhinho de papai”, a “bichinha” e daí em diante vocês já podem ter uma noção. Era um verdadeiro inferno. Ainda mais que na época em que eu estava no ensino fundamental, pouco se falava sobre bullying. O bullying naquela época não era uma doença, não era nada – pelo menos para quem via e para quem praticava. Para quem sofria, como eu, era de uma dor inenarrável. Era mais um motivo para que eu não quisesse estabelecer nenhum tipo de contato com alguém. A desconfiança era maior do que tudo.
O Vinícius** era o galã. Alto, cabelos negros e lisos no estilo Elvis Presley, tinha a hora em que ele bem entendesse todas as meninas do colégio. Usava a sua beleza como um escudo que o protegia de tudo e de todos e que o tornava indestrutível. Apelidaram-no de Capitão América por conta disso, lembro-me bem. E ele acatou o apelido com orgulho, como se fosse mesmo um super-herói. Só que ele não era. O que ele tinha de bonito tinha de ignorante, prepotente, baixo. Agia sem dó nem piedade de quem quer que fosse, inclusive dos próprios professores que, para ele, só estavam ali de enfeite, já que ele não aprendia nada. Eu não fazia ideia de quem ele era até o destino armar a brincadeira de nos colocarmos na mesma classe. Sétima série, eu com 11 quase 12 anos (sempre fui adiantado um ano), ele com 15. Terceira vez que repetia a sétima série – fator esse ignorado pelos seus “fãs”. Por não fazer questão de notar a presença de ninguém na escola, nunca tinha parado para prestar atenção naquele cara. E no mesmo instante em que pisei na sala no primeiro dia de aula, senti aquela presença imponente. Já existia um grupo de outros cinco garotos que sentavam próximos a ele e que riam alto e viviam atrapalhando os professores enquanto eles se esforçavam para lecionar. Eu tentava evitar, mas não conseguia. Eles eram extremamente inconsequentes. E eu não podia contestar nada, porque eu tinha forças para responder aos professores – jamais teria forças para bater boca com um cara que facilmente me daria uma surra antes que eu pudesse pensar em revidar.
Com isso, Vinícius e sua trupe começaram a me azucrinar. Repararam em meu jeito calmo e sempre preparado para as questões dos professores e veio a chuva de apelidos que eu já citei acima. Era na entrada, no intervalo, na saída, entre os horários de um professor e outro, o tempo todo. Nunca conseguia revidar, nunca. Eu era muito fraco, admito. Sentia medo. Não falava disso com mais ninguém – e nem precisava, uma vez que todo mundo via o que eu passava dia após dia.
O tempo passou, eu passei de ano, Vinícius passou também e seus súditos todos ficaram na sétima série. Neste ano, vivi uma das piores sensações de toda a minha vida: tive paralisia facial. Todo o meu lado direito do rosto não se mexia e eu não sentia absolutamente nada nesse lado. Vinícius não perdoou e continuou com o bullying, sem nem pensar duas vezes.  Eu sofrendo, sempre. Mas naquele ano, eu amadureci. Foi um baque atrás do outro e eu já estava com 13 anos, não me sentia mais um moleque. Foi então que decidi acabar com isso de uma vez por todas. Como? Indo direto ao ponto.
Sempre tive curiosidade acerca da vida do Vinícius, com quem ele morava, se tinha família ou coisa do tipo. Não admitia que um menino bonito daqueles pudesse agir de um jeito tão infantil e irresponsável quando tudo conspirava a favor dele. Foi então que parti em uma missão em busca de informações sobre ele. Descobri que ele tinha uma vida incrível – morava numa casa linda, num bairro nobre aqui da minha cidade. Vivia com os pais e mais dois irmãos. Tudo parecia normal, quando cheguei numa informação crucial: Vinícius era adotado. E não aceitava isso, de nenhuma maneira. Só que ele não deixava isso transparecer e era o filho modelo quando chegava em casa: carinhoso, atencioso, amigo. Os pais relevavam as notas e as reprovações por este jeito meigo dele de ser junto deles. Foi aí que eu decidi colocar meu plano em ação.
Fui à secretaria, disse que eu estava fazendo um trabalho em grupo e que o Vinícius fazia parte desse grupo, mas que ele não tinha ido à aula e eu precisava muito falar com ele. A secretária rapidamente me passou a ficha com o número da casa dele, anotei rápido e tentei ligar na frente dela, para que ela visse que eu não estava mentindo. Ninguém atendeu. Na segunda tentativa, já fora da sala, rezei para que fosse qualquer outra pessoa, menos ele. E assim aconteceu: a mãe atendeu. Disse a ela que eu era colega do Vinícius e que ele não era nada daquilo do que ela imaginava que ele fosse. E que ela precisava muito ir até a escola verificar que o filho tão amado dela não passava de um delinquente que machucava a todos sem medo de ser feliz. Ela ficou horrorizada quando falei isso, mas eu, com medo do que ela pudesse fazer, desliguei o telefone e dei meu jeito de voltar para a sala agindo naturalmente, como se nada tivesse acontecido. Minhas mãos suavam em bicas, de tanto nervosismo. Vinícius estava sentado no fundo da classe, como sempre fazia e àquela altura já tinha “convertido” outros colegas a agirem da mesma forma que ele. Decidi focar na aula, mesmo tremendo de nervosismo. O professor começou a perguntar sobre Hitler e eu lembro bem que havia estudado bastante sobre a Primeira e Segunda Guerras Mundiais  na noite anterior. Não me recordo qual foi a questão que ele colocou, mas eu respondi e, na mesma hora em que me posicionei para responder, fui atingido na cabeça por uma bolinha de papel cheia de corretivo lançada por Vinícius. Na frente do professor e de todos os outros colegas, que começaram a rir. O professor (que já havia se acostumado com as palhaçadas de Vinícius) se dirigia até Vinícius para levá-lo à direção quando a mãe dele apareceu, chocada, na porta. Ela não fazia ideia do comportamento do filho e nunca tinha ido à escola, em cinco anos, saber como ele agia. E desvendou tudo assim, rápido e fácil. Minhas mãos gelaram e meu corpo só teve forças para ir até o banheiro e me trancar lá dentro, onde limpei meu cabelo e tentei me acalmar, com medo de que sobrasse para mim. Aquela foi uma das atitudes mais corajosas (por mais covarde que possa ter parecido) que já tomei na vida.
Ao sair do banheiro, só ouvi os burburinhos. Todo mundo queria saber quem tinha ligado para a mãe do todo-poderoso e que agora tinha passado vergonha na frente da escola toda. Revoltada, ela brigara com Vinícius desde a nossa sala até a direção, onde ele levou uma bronca ainda maior. A mãe esquecera por completo que haviam ligado para ela falando do comportamento do filho e agora só queria saber de entender o que havia de errado com o filho dela, que numa hora era o amor em pessoa e na outra era o diabo em carne e osso.
Nunca soube ao certo o que aconteceu com o Vinícius depois de toda essa confusão. Só sei que ele foi transferido, a pedido da mãe, que deixou um pedido de desculpas a todos a quem ele ofendeu  (Vinícius se recusou a pedir desculpas publicamente) e um agradecimento a quem o havia “denunciado”.  Eu continuei sendo quem sempre fui, só que pelo menos por um restinho de ano, sem ofensas, sem xingamentos e sem Vinícius para me atormentar a vida.
Contei tudo isso porque agora há pouco, olhando o Facebook como de praxe, apareceu uma solicitação de amizade. Quando cliquei no ícone, qual não foi a minha surpresa? Vinícius me encontrou. E mandou convite. Preciso dizer mais alguma coisa ou a atitude por si só já não diz muito? Eu até aceitaria, se tivesse certeza que ele mudou. Mas como sei que não terei essa certeza tão cedo, cliquei em “agora não” e vim escrever este texto, antes que a inspiração me fugisse. Talvez ele jamais leia isso, mas obrigado, Vinícius, por ter me mostrado que eu ainda sei escrever. Espero que você tenha mudado para melhor. De um cara que mudou muito do ensino fundamental pra cá,
Tiêgo.

*A estória é real.
**Vinícius é um nome fictício. Decidi preservar a identidade dele, por motivos que só eu entendo.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Era uma vez uma vida social

SAUDADES FIM DE ANO.
Apenas digo isso.
Porque (não direi apenas 'saudades fim de ano', lógico) eu realmente estou ENLOUQUECENDO com tanta coisa ao mesmo tempo. Esse terceiro semestre na universidade está sendo o mais puxado até agora e estou respirando com dificuldade. O pouco tempo livre que tenho está sendo usado para dedicação única e exclusiva a uma surpresa que espero lhes revelar logo e para descansar, coisa que está ficando cada vez mais rara de acontecer. Sinto tanta falta de blogar com aquela vontade que eu tinha antes dessa mudança louca na minha vida. Para vocês terem uma noção, estou há uma eternidade tentando desenvolver esse texto mas pelo visto não vou passar de um parágrafo, assim como os outros 390239082 textos que estão ali nos rascunhos. O blog já foi prioridade em minha vida, mas infelizmente não é mais. Descobri que para amadurecermos, precisamos abrir mão de certas coisas que costumávamos considerar essenciais e o blog foi uma dessas coisas. Enfim, deixa eu parar de lengalenga pois estou dando voltas e voltas e não estou falando nada. Voltarei para o dever de Teorias Gramaticais, dez questões lindas para serem entregues na terça-feira. SO-CORRO. Até breve.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Retrospectiva 2012 [VÍDEOS]

Prometi, cumpri! Falei há alguns posts atrás que gravaria vídeos de retrospectiva e felizmente hoje concluí a gravação deles! Demorou um pouquinho por conta da loucura que está aqui em casa nesse final de ano, mas hoje eu dei meu jeito e terminei de gravar. Apenas algumas considerações antes do play:

- Não tenho nenhuma Nikon ou coisa parecida e gravei no celular mesmo, então ignorem a resolução gatínea do vídeo;

- Eu realmente fiquei nervoso na hora de gravar o vídeo, por isso também ignorem as repetições de palavras e tudo o mais porque eu ficava sem saber que palavras usar em alguns momentos e repetia as que já tinha usado. Sorry por isso, sorry pela toalhinha usada pra enxugar meu rosto (C-A-L-O-R). rs

- Eu não citei todo mundo que gostaria, mas se sintam todos abraçados e queridos por mim no último vídeo. :)

E eu acho que é só! Enjoy it e, mais uma vez, FELIZ ANO NOVO, SEUS LINDOS!

PARTE UM - Introdução


PARTE DOIS - Retrospectiva 2012 e algumas considerações


PARTE TRÊS (e final) - Agradecimentos especiais e despedida


Até  mais, queridões!

Tiêgo R. Alencar