domingo, 20 de outubro de 2013

Glasses, 1

Engraçado enxergar a situação sobre outro ponto de vista.
Ele era alto, pouco mais do que eu. Tinha os cabelos negros (nem tão negros quanto a asa da graúna, mas era quase isso), lisos e brilhantes. Tinha os olhos igualmente negros e grandes que, assim que me fitaram, me fizeram gelar. O rosto era fino, marcado por traços fortes. Branco (do tipo tocou avermelhou, sabe?). E no final, para eu não esquecer mais, ele usava óculos de grau. Eu era fascinado por pessoas que usavam óculos de grau, e quando eu enxergava um cara daqueles, numa biblioteca, sozinho e parecendo atento à leitura que fazia, nem acreditava. Eu costumava ir ali com frequência e o teria notado com facilidade se o tivesse visto, mas ele era novo. Ah, se era.
Particularmente, eu achava uma palhaçada isso de olhar pra alguém e se excitar na mesma hora. Mas foi bem isso que aconteceu. Desastrado como sempre, fui patetar olhando para o rapaz, o olhar dele finalmente se encontrou com o meu e pá, deixo derrubar uma penca de livros que tinha emprestado na semana passada. Ele riu, mas não vacilou: ofereceu ajuda. Eu ri junto, lógico, não ia perder o rebolado, mas ninguém fazia ideia do frisson que acontecia dentro de mim. Aceitei e agradeci. Ele recolheu os livros que estavam mais perto dele e eu recolhi os que caíram sobre a mesa de madeira que ficava sempre próxima da entrada. Ao me entregar, ele tocou minhas mãos involuntariamente ao me devolver os livros e comentou:
- Também gosto bastante de Sidney Sheldon - e riu mais uma vez, apontando para os títulos que fez questão de deixar em cima da pilha.
- É meu escritor favorito - eu observei, tentando não tremer nem deixar os livros escorregarem. Eu fiz menção de me dirigir à bibliotecária, quando ele olhou para perto da mesa onde deixei cair alguns livros e viu mais um jogado no chão. Eu realmente estava balançado, porque para eu não ter percebido que esqueci um livro largado no chão... Ele me disse para esperar e foi justo quando olhei para baixo e vi o volume minúsculo de "O Conto dos Dez Negrinhos" espatifado próximo ao pé da mesa. Nós nos abaixamos ao mesmo tempo e nos demos de encontro com as cabeças. Os óculos voaram do rosto dele e se quebraram ao tocar o chão. Ele riu de novo (eu ainda tentava me recuperar da pancada na cabeça e já me preparava para ouvir um palavrão do rapaz) e me surpreendeu, dizendo:
- Esse durou três meses. Acho que temos um recorde. - e me devolveu o exemplar. Deixei os livros sobre a mesa, apanhei o óculos dele e avaliei o estrago, como se fosse o maior entendido do assunto.
- Acho que eu te devo um óculos novo. Não dá para salvar nada daqui, cara.
- Você me paga um café e estamos conversados, Tiêgo - ele intimou, lendo o meu nome no cartão de empréstimo do livro que tinha se soltado na queda dos volumes. Fiquei vermelho, nervoso que só vendo. Pedi a ele que esperasse até eu devolver os livros. Ele assentiu. Entreguei os livros para a bibliotecária, renovando somente o empréstimo de "Quem Tem Medo do Escuro?". O menino ria, parecia nem ter se abalado com a quebra dos óculos. Ao retornar ao lugar onde ele estava, o rapaz fechou o enorme livro que analisava criteriosamente, mas não consegui entender sobre o que era. Ele devolveu o exemplar à pasta que carregava e me disse:
- Às vezes é duro gostar de ler. Meus olhos que o digam - completou, me olhando. Os olhos estavam lacrimejantes, como se ele tivesse chorado bastante antes de vir falar comigo.
- Dá para perceber. Seus olhos estão vermelhos - observei.
- Sempre ficam assim. Ignora, Tiêgo.
- Certo, ignorados. Cantina, então? - eu ainda estava nervoso demais para perguntar o nome dele. E eu me sentia em desvantagem por ele saber o meu.
- Cantina. O café das cinco horas é o melhor de todos.
- Eu também acho.
E saímos da biblioteca. Como se nada tivesse acontecido.

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