domingo, 24 de fevereiro de 2013

Dos clichês que fazem sentido

[Post baseado neste texto da minha queridíssima amiga Jenny.]

Numa roda de amigos, certa vez, jogávamos verdade ou consequência. Entre uma verdade e outra consequência, eis que a garrafa me indicou à berlinda. Meu amigo que havia girado a garrafa me desafiou a falar a verdade - eu deveria contar se eu já havia feito sexo. Virgem e conhecido pela minha sinceridade e ingenuidade, disse que não, que não tinha transado com ninguém até então. Naquele tempo, eu já era alto e tinha todo um porte de homem, mais do que tenho hoje - aí vocês imaginam a bagunça que eles fizeram comigo. Ninguém acreditava que um homem daquele tamanho ainda fosse virgem no auge da adolescência, enquanto todos se gabavam de suas experiências sexuais. Só que para mim, por incrível que pareça, aquilo era a coisa mais normal do mundo. Sempre foi.
Mas nem todo mundo pensa da mesma forma, certo?
Foi por isso que decidi iniciar o texto com esse relato - 'ilustrando' um pouquinho do que julgo ser você mesmo. Naquela situação, eu poderia muito bem ter mentido e dito que era um ás em assuntos sexuais, mas preferi agir conforme eu sempre agi: sendo o que sou. Quem me acompanha por aqui sabe que não tenho vergonha e muito menos medo de falar de mim, do que passei e passo. Não tenho a menor vergonha de dizer que gosto até hoje de RBD, que vejo BBB e adoro, que sou viciado em açaí com ovos e que choro por qualquer bobagem. Não tenho vergonha porque sei que se eu esconder tudo isso, não serei sincero, tampouco honesto comigo mesmo. E creio que não haja nada mais insuportável para alguém do que viver sob uma manta fantasiosa que só existe para si e para mais ninguém.
Ah, e antes que pedras me sejam atiradas, um aviso: acredito plenamente na personalidade mutável do ser humano. Acredito que as pessoas mudam conforme o contexto no qual elas são inseridas. Mas a personalidade delas, aquilo que as tornam únicas, não se desvencilha jamais daquilo que está incrustado na alma. É exatamente disso que eu falo: não abrir mão do que você é por qualquer coisa. Não é só porque todos estão amando uma banda que você precisa amar também. E aquele romance épico que todos amam, mas você detesta? Você leu e não gostou, e aí? É a sua opinião, foi você quem achou aquilo e não há como contestar (ou talvez até possa, mas isso é outra história).
Até agora, creio eu, ainda não inventaram uma única coisa que agrade a gregos e troianos. Nem Deus foi capaz disso, já que há pessoas que não creem em sua existência. Daí fica a reflexão: onde está o sentido de criar uma máscara para si? Agradar as pessoas? Se auto-promover? Encontrar o pote de ouro no fim do arco-íris? Não creio que valha a pena. Ainda sou mais curtir Cinquenta Tons de Cinza e não ter medo de falar do que ter Machado de Assis como ídolo e não entender uma vírgula do que ele diz. Porque afinal, como diz Preta e Gilberto Gil naquela propaganda da TV, "ser diferente é normal". E ponto final.


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Bullying, vinganças e Facebook*




Há alguns anos atrás, eu era um garoto complexado. Muito complexado. Não tinha vida social, tampouco amigos e ainda menos amigos de verdade. Por conta de toda esta  ‘reclusão social’, tive muitos problemas no colégio, especialmente no ensino fundamental. Não problemas de comportamento ou coisa do tipo, muito pelo contrário: eu era bastante elogiado pelos professores por conta das médias sempre altas. Meus problemas estavam nos colegas.
Para eles, eu não era exatamente o tipo ideal de pessoa. Respondia às questões dos professores, tirava dez, não tinha muitas amizades, não sorria, não era ninguém mesmo sendo alguém. Era assim que eles me viam. Só que eu não tinha o hábito de ligar para o que quaisquer pessoas dissessem sobre mim. Mas os colegas ligavam (demasiadamente) para essa indiferença notável que me era característica – e utilizavam a raiva que sentiam despejando vários e vários xingamentos. Eu era o “viadinho”, o “filhinho de papai”, a “bichinha” e daí em diante vocês já podem ter uma noção. Era um verdadeiro inferno. Ainda mais que na época em que eu estava no ensino fundamental, pouco se falava sobre bullying. O bullying naquela época não era uma doença, não era nada – pelo menos para quem via e para quem praticava. Para quem sofria, como eu, era de uma dor inenarrável. Era mais um motivo para que eu não quisesse estabelecer nenhum tipo de contato com alguém. A desconfiança era maior do que tudo.
O Vinícius** era o galã. Alto, cabelos negros e lisos no estilo Elvis Presley, tinha a hora em que ele bem entendesse todas as meninas do colégio. Usava a sua beleza como um escudo que o protegia de tudo e de todos e que o tornava indestrutível. Apelidaram-no de Capitão América por conta disso, lembro-me bem. E ele acatou o apelido com orgulho, como se fosse mesmo um super-herói. Só que ele não era. O que ele tinha de bonito tinha de ignorante, prepotente, baixo. Agia sem dó nem piedade de quem quer que fosse, inclusive dos próprios professores que, para ele, só estavam ali de enfeite, já que ele não aprendia nada. Eu não fazia ideia de quem ele era até o destino armar a brincadeira de nos colocarmos na mesma classe. Sétima série, eu com 11 quase 12 anos (sempre fui adiantado um ano), ele com 15. Terceira vez que repetia a sétima série – fator esse ignorado pelos seus “fãs”. Por não fazer questão de notar a presença de ninguém na escola, nunca tinha parado para prestar atenção naquele cara. E no mesmo instante em que pisei na sala no primeiro dia de aula, senti aquela presença imponente. Já existia um grupo de outros cinco garotos que sentavam próximos a ele e que riam alto e viviam atrapalhando os professores enquanto eles se esforçavam para lecionar. Eu tentava evitar, mas não conseguia. Eles eram extremamente inconsequentes. E eu não podia contestar nada, porque eu tinha forças para responder aos professores – jamais teria forças para bater boca com um cara que facilmente me daria uma surra antes que eu pudesse pensar em revidar.
Com isso, Vinícius e sua trupe começaram a me azucrinar. Repararam em meu jeito calmo e sempre preparado para as questões dos professores e veio a chuva de apelidos que eu já citei acima. Era na entrada, no intervalo, na saída, entre os horários de um professor e outro, o tempo todo. Nunca conseguia revidar, nunca. Eu era muito fraco, admito. Sentia medo. Não falava disso com mais ninguém – e nem precisava, uma vez que todo mundo via o que eu passava dia após dia.
O tempo passou, eu passei de ano, Vinícius passou também e seus súditos todos ficaram na sétima série. Neste ano, vivi uma das piores sensações de toda a minha vida: tive paralisia facial. Todo o meu lado direito do rosto não se mexia e eu não sentia absolutamente nada nesse lado. Vinícius não perdoou e continuou com o bullying, sem nem pensar duas vezes.  Eu sofrendo, sempre. Mas naquele ano, eu amadureci. Foi um baque atrás do outro e eu já estava com 13 anos, não me sentia mais um moleque. Foi então que decidi acabar com isso de uma vez por todas. Como? Indo direto ao ponto.
Sempre tive curiosidade acerca da vida do Vinícius, com quem ele morava, se tinha família ou coisa do tipo. Não admitia que um menino bonito daqueles pudesse agir de um jeito tão infantil e irresponsável quando tudo conspirava a favor dele. Foi então que parti em uma missão em busca de informações sobre ele. Descobri que ele tinha uma vida incrível – morava numa casa linda, num bairro nobre aqui da minha cidade. Vivia com os pais e mais dois irmãos. Tudo parecia normal, quando cheguei numa informação crucial: Vinícius era adotado. E não aceitava isso, de nenhuma maneira. Só que ele não deixava isso transparecer e era o filho modelo quando chegava em casa: carinhoso, atencioso, amigo. Os pais relevavam as notas e as reprovações por este jeito meigo dele de ser junto deles. Foi aí que eu decidi colocar meu plano em ação.
Fui à secretaria, disse que eu estava fazendo um trabalho em grupo e que o Vinícius fazia parte desse grupo, mas que ele não tinha ido à aula e eu precisava muito falar com ele. A secretária rapidamente me passou a ficha com o número da casa dele, anotei rápido e tentei ligar na frente dela, para que ela visse que eu não estava mentindo. Ninguém atendeu. Na segunda tentativa, já fora da sala, rezei para que fosse qualquer outra pessoa, menos ele. E assim aconteceu: a mãe atendeu. Disse a ela que eu era colega do Vinícius e que ele não era nada daquilo do que ela imaginava que ele fosse. E que ela precisava muito ir até a escola verificar que o filho tão amado dela não passava de um delinquente que machucava a todos sem medo de ser feliz. Ela ficou horrorizada quando falei isso, mas eu, com medo do que ela pudesse fazer, desliguei o telefone e dei meu jeito de voltar para a sala agindo naturalmente, como se nada tivesse acontecido. Minhas mãos suavam em bicas, de tanto nervosismo. Vinícius estava sentado no fundo da classe, como sempre fazia e àquela altura já tinha “convertido” outros colegas a agirem da mesma forma que ele. Decidi focar na aula, mesmo tremendo de nervosismo. O professor começou a perguntar sobre Hitler e eu lembro bem que havia estudado bastante sobre a Primeira e Segunda Guerras Mundiais  na noite anterior. Não me recordo qual foi a questão que ele colocou, mas eu respondi e, na mesma hora em que me posicionei para responder, fui atingido na cabeça por uma bolinha de papel cheia de corretivo lançada por Vinícius. Na frente do professor e de todos os outros colegas, que começaram a rir. O professor (que já havia se acostumado com as palhaçadas de Vinícius) se dirigia até Vinícius para levá-lo à direção quando a mãe dele apareceu, chocada, na porta. Ela não fazia ideia do comportamento do filho e nunca tinha ido à escola, em cinco anos, saber como ele agia. E desvendou tudo assim, rápido e fácil. Minhas mãos gelaram e meu corpo só teve forças para ir até o banheiro e me trancar lá dentro, onde limpei meu cabelo e tentei me acalmar, com medo de que sobrasse para mim. Aquela foi uma das atitudes mais corajosas (por mais covarde que possa ter parecido) que já tomei na vida.
Ao sair do banheiro, só ouvi os burburinhos. Todo mundo queria saber quem tinha ligado para a mãe do todo-poderoso e que agora tinha passado vergonha na frente da escola toda. Revoltada, ela brigara com Vinícius desde a nossa sala até a direção, onde ele levou uma bronca ainda maior. A mãe esquecera por completo que haviam ligado para ela falando do comportamento do filho e agora só queria saber de entender o que havia de errado com o filho dela, que numa hora era o amor em pessoa e na outra era o diabo em carne e osso.
Nunca soube ao certo o que aconteceu com o Vinícius depois de toda essa confusão. Só sei que ele foi transferido, a pedido da mãe, que deixou um pedido de desculpas a todos a quem ele ofendeu  (Vinícius se recusou a pedir desculpas publicamente) e um agradecimento a quem o havia “denunciado”.  Eu continuei sendo quem sempre fui, só que pelo menos por um restinho de ano, sem ofensas, sem xingamentos e sem Vinícius para me atormentar a vida.
Contei tudo isso porque agora há pouco, olhando o Facebook como de praxe, apareceu uma solicitação de amizade. Quando cliquei no ícone, qual não foi a minha surpresa? Vinícius me encontrou. E mandou convite. Preciso dizer mais alguma coisa ou a atitude por si só já não diz muito? Eu até aceitaria, se tivesse certeza que ele mudou. Mas como sei que não terei essa certeza tão cedo, cliquei em “agora não” e vim escrever este texto, antes que a inspiração me fugisse. Talvez ele jamais leia isso, mas obrigado, Vinícius, por ter me mostrado que eu ainda sei escrever. Espero que você tenha mudado para melhor. De um cara que mudou muito do ensino fundamental pra cá,
Tiêgo.

*A estória é real.
**Vinícius é um nome fictício. Decidi preservar a identidade dele, por motivos que só eu entendo.