quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Library, 5


Na semana seguinte, precisei ir à biblioteca devolver meu exemplar de "Quem Tem Medo do Escuro?". Eu não retornava lá desde que quebrara o óculos do Dimas. Ele tinha marcado de me encontrar lá, depois que ele terminasse a prova de anatomia. Sim, ele era fascinado por livros, atuava em musicais e peças mas fazia medicina. Há controvérsias.
Nesse meio tempo, descobri que Dimas estava prestes a entrar em depressão e que faltava à aula há pelo menos uma semana.
Ele morava sozinho aqui na cidade.
Não tinha amigos próximos senão os colegas de musical.
Tinha se decepcionado com um cara bem antes de mim, pois o rapaz só queria usá-lo. E quando ele se deu conta disso, já era tarde demais e levou um bom tempo para esquecê-lo
Ele disse (ele disse, vejam bem) que assim que me viu entrar com aquela pilha de livros, percebeu que eu era diferente. E que iria atrás de mim mesmo que eu não tivesse derrubado tudo no chão - nunca fiquei tão feliz por ter deixado livros caírem no chão.
Ninguém sabia sobre a sua orientação sexual a não ser eu naquele momento. Eu o entendia perfeitamente, até porque eu já havia passado pela mesma fase e tinha doído exatamente da mesma forma. Ele se sente incompreendido. E eu me senti na obrigação de mostrar a ele que quem deve entendê-lo é ele próprio e mais ninguém. Ele carrega agora a autoaceitação como um mantra.
Descobri ainda que ele escrevia, e muito bem. Seus poemas de amor (declamados ficaram ainda mais belos) eram de uma franqueza e romantismo impressionantes.
E descobri que ele gostava de mim. E que ele acreditava nisso de "gostar" à primeira vista. É estranho pensar que alguém bateu os olhos em você e gostou assim, de cara, mas é um sentimento estranho no bom sentido. Estou nas nuvens, sem brincadeira alguma.
- Alguém está pensando demais - disse a bibliotecária enquanto eu procurava outros livros na estante. - Olhe este, chegou semana passada. Li assim que me foi entregue. "Amor", de um autor desconhecido. É fabuloso. Você deveria ler, é bastante interessante - completou ela, me entregando o volume pequeno do livro. Na capa, a palavra "amor" estava escrita em uma fonte minúscula e vermelha, num fundo branco. Os dizeres "autor desconhecido" abaixo do título me intrigaram. Decidi emprestá-lo.
- Obrigado pela dica. Estou curioso - disse a ela, grato. Como eu não tinha mais aula, decidi me acomodar num dos sofás por ali enquanto Dimas não chegava e comecei a ler "Amor". Era narrado do ponto de vista de um homem de 30 anos que falava que ainda não tinha encontrado o amor. O livro era pequeno, tinha pouco mais de cem páginas. Achei que logo terminaria, por isso iniciei a leitura.
A cada página, uma surpresa. Eu já havia visto aquilo em algum lugar. A inquietação pelo final me fez ler mais e mais e mais e nem reparei no tempo passando nem no entra e sai de gente naquele local. Concluí a leitura com facilidade e fiquei frustrado ao ver que acabou tão rápido. Ao final do livro, o autor dizia a seguinte frase: "eu ainda encontrarei o amor. Nem que seja numa biblioteca."
Dimas me olhava sentado na mesinha em frente, na mesma mesinha onde deixei os livros caírem quando nos encontramos. Sorrindo como sempre, ele fitou a capa do livro e disse, antes que eu pudesse falar algo:
- E eu encontrei o amor. Numa biblioteca.

***
PS¹: o conto saiu todo de um sonho que tive. Escrevi todo no domingo. Sonhei com esse menino de quinta pra sexta e no domingo vi na rua um rapaz que me lembrou na hora o cara com quem eu sonhei. Não é verídico nem nada do tipo! hahahaha
PS²: essa é a última parte, tá? haha
PS³: tenho escrito bastantes coisas nos últimos tempos. Não sei se pretendo publicar tudo, mas com certeza o desejo de blogar voltou com tudo. Tinha esquecido como era bom falar e falar e falar mesmo que esses devaneios malucões. Não tô apaixonado nem gostando de ninguém, mas vai que eu tope com um cara alto, dos cabelos e olhos negros na biblioteca da universidade? hahahaha Até mais!

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Green Mount, 4


- Que grata surpresa! - ele exclamou, ao me ver sentado no topo do morro.
Não havia ninguém ali por perto e um frio percorreu minha espinha. Ele poderia me matar facilmente com um golpe na cabeça, já que eu estava de costas para ele - hoje em dia temos que pensar no pior até nas circunstâncias mais legais. Mas ele me matou mesmo foi de susto.
- Caramba, Dimas, que susto! - disse, espantado. Ele estava mais lindo do que estava no musical, com os cabelos penteados como eu o tinha visto na biblioteca, mas com uma T-shirt quadriculada de preto e branco e uma calça jeans preta, combinando com os olhos e os cabelos. No rosto, para a minha surpresa, estavam óculos novinhos em folha. Ele riu ao ver minha expressão ao reparar no acessório.
- Eu tenho mais dois reservas. Vivo perdendo todos porque de vez em quando a miopia ataca nos ensaios do musical, aí eu preciso usar, infelizmente. Não é charminho nem nada do tipo não, viu? - ele disse, com um sorrisão no rosto.
- Eu percebi. Você quase caiu ontem ao descer as escadas da biblioteca, lembra? - recordei o fato que o fez explodir em gargalhadas.
- Não precisava lembrar! Minha visão é boa para o dia-a-dia, mas como eu disse, tem horas que sinto como se tudo embaçasse. Aí preciso dos olhos extras - completou, rindo.
- Eu acho legal. Acho bonito - não sei de onde saiu a coragem pra falar isso. Ele ficou vermelho.
- Você me chamou de bonito? - perguntou, sério.
- Se você entendeu desse jeito, sim. - estava decidido. Eu já não me importava mais com nada.
- Obrigado.
Silêncio.
- E obrigado de novo, por ter ido ao musical - disse, recuperando o tom natural do rosto. Comecei a metralhá-lo de perguntas.
- E por que você não me disse que ia atuar? Por que me chamou até aqui? Por que me intimou para o café? Por que não me...
Dimas não me deixou terminar. Um beijo tão profundo e sincero me calou a boca com voracidade.
Correspondi, lógico, porque eu esperava por aquilo desde o primeiro momento em que olhei para aquele rapaz. Só não esperava que um: seria correspondido e dois: que aconteceria tão rápido. Enquanto nossos lábios não tinham a menor pretensão de se soltarem, mil e um pensamentos se passavam pela minha cabeça. E tudo o que eu menos queria era ficar longe dele. Queria ouvi-lo cantar, falar sobre o musical, sobre os livros que gosta de ler, sobre o que mais faz da vida. Sobre o que pretende fazer, os filmes que gosta de ver, as angústias e as tensões que passam pela cabeça dele. Eu queria o Dimas como eu nunca quis cara nenhum.
E ele estava ali, bem na minha frente, beijando-me os lábios com o desejo que tomou conta de mim durante esse tempo todo (grande tempo, dois dias).
Ele abriu os olhos e eu permaneci com os meus fechados. Dimas sorriu e perguntou, bem baixinho:
- Por que não abre os olhos?
- Porque é um sonho. E eu estou com medo de acordar.
- Abra os olhos.
Abri.
- Fecha os olhos.
Fechei.
- Abra de novo, Tiêgo.
Abri.
- É real - Ele me beijou de novo, só que bem mais rápido dessa vez. - E acho que era de você que eu estava precisando.
- Você parece um sonho.
- Mas eu não sou. E parece mentira que alguém tenha se interessado por mim - disse ele, deixando-me surpreso. Eu definitivamente acho que ele faz bem o tipo da maioria das pessoas. Ele é bonito. Eu é que não me sentia "à altura" dele.
- Você é lindo. Para com isso - disse. - E eu acho que você deve responder às minhas perguntas, porque eu detesto ficar sem respostas.
- Precisa ser agora? - perguntou ele, ranzinza. Até daquele jeito ele ficava lindo.
- Depende. Por que da pergunta?
- Porque eu quero ocupar a minha boca com outras coisas agora.
- Agora?
Seus lábios encontraram os meus novamente. E de novo, e de novo...

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Musical, 3


Eu amava musicais, mas nunca tinha escutado falar de A Chorus Line. Pode parecer negligência, mas só depois fui olhar no Google sobre o espetáculo.
Às sete horas da noite, pontualmente, eu estava lá. O Teatro Municipal era lindo. Eu me culpava por só ter ido lá uma vez, mas já tinha me prometido que iria mais vezes, pois produções culturais legais aconteciam ali o tempo todo e eu não ia porque era um bocó.
Achei que seria grosseria de minha parte entrar sem esperar o Dimas. Sentei num dos banquinhos de mármore espalhados pela entrada e aguardei. Passaram dez minutos e o espetáculo estava prestes a começar e eu não sabia o que fazer. Decidi entrar, para não dizer que a noite tinha sido em vão. Já estava meio assim, mas entreguei o ticket à moça que ficava na recepção, ela me desejou um bom espetáculo e só o que eu queria era um bom Dimas do meu lado. Ou um Américo, não sei. Agradeci a ela e entrei.
Tinha gente até não querer mais. Ainda consegui sentar na sétima fileira, e havia uma cadeira vaga do meu lado esquerdo, ao  lado do corredor. Imediatamente após me acomodar na cadeira, as cortinas se abriram.
Assisti atento a cada passo dado pelos atores. No terceiro ato, eu já tinha até esquecido porque estava ali quando Dimas surge dançando sapateado e cantando, enquanto os demais cantavam. Senti todos os pelos dos meus braços se arrepiarem. Volta e meia eles desciam do palco e Dimas veio em minha direção, dançando em uma perfeita sincronia com os colegas atores. Eu não parava de sorrir. Ele deixou cair um papelzinho enrolado na cadeira vazia ao meu lado e piscou, enquanto retornava para o palco antes do número terminar. Apanhei-o, mas só o abri no final do espetáculo. Dimas retornou muitas vezes para o palco, atuando, dançando e me emocionando. A Chorus Line era um musical sobre a diversidade, pude bem notar isso. Todos bastante talentosos numa harmonia incrível. Eu era só sorrisos no último ato, que segundo uma mocinha do meu lado, se chamava "One". Todos cantaram juntos e era uma quantidade impressionante de gente naquele palco. Não cheguei a contar, mas acho que tinha mais de cinquenta pessoas. Dimas estava na fileira principal, com outros dez atores e atrizes. Ao encerrarem a canção, a plateia toda aplaudiu de pé, emocionada com o esforço e dedicação de cada um. Dimas sorriu para mim antes de ir para o backstage e só então abri o papel para ler o que estava escrito numa caligrafia impecável:
- "Obrigado por ter vindo. A lua está linda hoje. Se você for do time dos amantes dela, o musical termina às dez. Vou te esperar no Morro Verde, você sabe onde é. Se não, vai ser perfeitamente compreensível. Até! Dimas."
Eu fiquei sem reação. O Morro Verde era um ponto de encontro de casais.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Coffee, 2


- Cappuccino. É. Dois. - pedi ao garçom.
Eu adorava cappuccino. Ele também parecia gostar, pois aguardava ansioso, mais do que eu até. E era eu para estar, pois me sentia culpado demais por ter sido o culpado pela quebra dos óculos dele.
- Eu costumo tomar café aqui todos os dias nesse horário. Leio praticamente a tarde toda, se não fosse por isso - ele disse, escolhendo uma mesa bem distante de onde as demais pessoas estavam sentadas.
Caminhamos em silêncio da biblioteca até a cantina e parecia que eu continuava sem forças para falar. Sei lá que diabos tinha acontecido comigo; eu definitivamente não era daquele jeito. Mas o menino me deixava daquela forma. Só me restava continuar jogando o mesmo jogo que ele queria jogar, por mais que eu não fizesse ideia de como fazer isso.
- Eu trabalho à tarde - comecei, criando um pouquinho de coragem. - Trabalho numa creche, com crianças entre quatro e seis anos.
- Deve ser complicado, estou certo? - ele perguntou, rindo. Aquela risada me desconcertava, porque eu não sabia o que pensar.
- É. Você está certo. Eu realmente gostaria de trabalhar numa biblioteca,  ou em algo que envolva livros. Sou fascinado.
Ele ia começar a falar, mas o garçom interrompeu e disse, colocando as xícaras sobre a mesa:
- Dois cappuccinos. Mais alguma coisa?
- Não, obrigado - ele disse. Eu assenti e o senhor de meia-idade se retirou.
- Eu também gostaria. Aqui mesmo na universidade já seria legal - ele continuou a conversa. Eu achava que ele nem ia mais ligar para nada disso e eu não estava entendendo nada.
- Seria um bom começo. Acho que eu também gostaria.
Tomamos ao mesmo tempo um bom gole do café. E realmente estava delicioso.
- Incrível, como sempre - comentou. - Você não acha, Tiêgo?
Fiquei com cara de tacho. Todas as vezes em que ele chamou meu nome eu fiquei com cara de tacho, mas naquela vez foi pior.
- Américo. É isso que você quer saber, não é? Meu nome?
Senti um arrepio percorrer a minha espinha. Ele lia mentes ou coisa do tipo?
- Ainda bem que você sabe - disse, cheio de coragem. - Eu já estava apreensivo com você me chamando pelo nome e eu evitando construir frases que tivessem que inserir o seu nome.
- Você fala bonito. Eu acho que nunca falei na minha vida que ia "construir frases". - ele observou, rindo. Acho que da minha cara de tacho, mas enfim.
- Ah, já até me habituei a falar assim, Américo. - frisei o nome dele. E ele percebeu.
- Ó, de novo você falou difícil. Eu geralmente me acostumo a fazer algo. Você se habitua. É estranho de um modo legal. - Ele me fez parecer uma gramática daquelas bem grandes. - Ah, e não precisa frisar meu nome da próxima vez.
- Ok, paremos. Estou me sentindo um alienígena - ele começou a rir. Eu tomei mais um gole do café e ele me olhou fazer isso. Confesso que por um mínimo segundo eu me senti desejado, mas foi só por um segundo. Em seguida, ele recomeçou a falar, movimentando a colherzinha em círculos na xícara de cappuccino.
- Meus amigos me chamam de Dimas. Não tem nada a ver com Américo, antes que você me pergunte, mas é porque eu pareço muito com meu pai e o nome dele é Dimas. Prefiro que você me chame assim. - confessou.
- Certo, Américo - brinquei e sorri, já sentindo a tensão eliminada na mesma hora. A excitação ao olhar naqueles olhos pretos ainda persistia e eu ainda estava tentando entender como eu tinha ido parar ali. Só tinha certeza de que estava adorando aquilo tudo e que eu precisava me controlar para não afugentar o Dimas, porque algo me dizia que não acabaria ali.
- Se quiser me chamar assim, chame. Acho que não vou me importar.
Meu coração gelou de novo. Tomei mais um gole de café para ver se melhorava.
- Era brincadeira, Dimas. E antes que eu esqueça, preciso saber quanto custou o seu óculos. Não vou me perdoar se eu não te devolver outro - engatei a conversa, já com medo de me perder no nervosismo.
- De forma alguma. Você vai pagar o cappuccino. Já está de bom tamanho - decretou. - Aliás, tem uma coisa sim que você pode fazer por mim.
- O quê? - perguntei, tenso.
- Me fazendo companhia amanhã à noite. Você gosta de musicais?
Wow. Eu amava musicais, mas se ele me pedisse para eu ir num show de rock pauleira era bem capaz de eu aceitar na hora.
- Muito! Por que?
- Eu comprei dois ingressos para assistir A Chorus Line - O Remake - o inglês desse rapaz era perfeito. Senti vergonha. - A produção é local e eu acho que vai ser legal! É difícil ver algo do tipo por aqui, e não queria perder a oportunidade. Você topa ir comigo?
- Com certeza! Onde e que horas? - confirmei, nitidamente excitado (em todos os sentidos, confesso).
- Às sete, no Teatro Municipal - disse ele, puxando da carteira um ticket de entrada para o musical e me entregando. Ele tomou um último gole antes de acabar a xícara de cappuccino e prosseguir: - Acho que não vou me arrepender disso. E eu sei que você mal me conhece e tal, mas eu consigo ver em você algo que eu não vejo na maioria dos caras: sensibilidade.
Para quem mal tinha me visto uns vinte minutos, acho que ele já tinha feito uma análise completa sobre a minha vida.
- Nem sei o que dizer.
- Não diga. Amanhã, sete horas, Teatro Municipal. Até! - disse, apertando a minha mão e saindo apressado em direção a saída. Murmurei um "tchau, Dimas", mas acho que ele não ouviu. Mas não fazia mal. Eu teria uma noite toda para dizer um pouco mais do que "tchau, Dimas".
Tomei meu último gole de cappuccino, paguei a conta e, caminhando de volta para casa, me peguei afagando minha mão direita, apertada por aquele cara alto, dos cabelos negros e de um enigma indecifrável no olhar.

domingo, 20 de outubro de 2013

Glasses, 1

Engraçado enxergar a situação sobre outro ponto de vista.
Ele era alto, pouco mais do que eu. Tinha os cabelos negros (nem tão negros quanto a asa da graúna, mas era quase isso), lisos e brilhantes. Tinha os olhos igualmente negros e grandes que, assim que me fitaram, me fizeram gelar. O rosto era fino, marcado por traços fortes. Branco (do tipo tocou avermelhou, sabe?). E no final, para eu não esquecer mais, ele usava óculos de grau. Eu era fascinado por pessoas que usavam óculos de grau, e quando eu enxergava um cara daqueles, numa biblioteca, sozinho e parecendo atento à leitura que fazia, nem acreditava. Eu costumava ir ali com frequência e o teria notado com facilidade se o tivesse visto, mas ele era novo. Ah, se era.
Particularmente, eu achava uma palhaçada isso de olhar pra alguém e se excitar na mesma hora. Mas foi bem isso que aconteceu. Desastrado como sempre, fui patetar olhando para o rapaz, o olhar dele finalmente se encontrou com o meu e pá, deixo derrubar uma penca de livros que tinha emprestado na semana passada. Ele riu, mas não vacilou: ofereceu ajuda. Eu ri junto, lógico, não ia perder o rebolado, mas ninguém fazia ideia do frisson que acontecia dentro de mim. Aceitei e agradeci. Ele recolheu os livros que estavam mais perto dele e eu recolhi os que caíram sobre a mesa de madeira que ficava sempre próxima da entrada. Ao me entregar, ele tocou minhas mãos involuntariamente ao me devolver os livros e comentou:
- Também gosto bastante de Sidney Sheldon - e riu mais uma vez, apontando para os títulos que fez questão de deixar em cima da pilha.
- É meu escritor favorito - eu observei, tentando não tremer nem deixar os livros escorregarem. Eu fiz menção de me dirigir à bibliotecária, quando ele olhou para perto da mesa onde deixei cair alguns livros e viu mais um jogado no chão. Eu realmente estava balançado, porque para eu não ter percebido que esqueci um livro largado no chão... Ele me disse para esperar e foi justo quando olhei para baixo e vi o volume minúsculo de "O Conto dos Dez Negrinhos" espatifado próximo ao pé da mesa. Nós nos abaixamos ao mesmo tempo e nos demos de encontro com as cabeças. Os óculos voaram do rosto dele e se quebraram ao tocar o chão. Ele riu de novo (eu ainda tentava me recuperar da pancada na cabeça e já me preparava para ouvir um palavrão do rapaz) e me surpreendeu, dizendo:
- Esse durou três meses. Acho que temos um recorde. - e me devolveu o exemplar. Deixei os livros sobre a mesa, apanhei o óculos dele e avaliei o estrago, como se fosse o maior entendido do assunto.
- Acho que eu te devo um óculos novo. Não dá para salvar nada daqui, cara.
- Você me paga um café e estamos conversados, Tiêgo - ele intimou, lendo o meu nome no cartão de empréstimo do livro que tinha se soltado na queda dos volumes. Fiquei vermelho, nervoso que só vendo. Pedi a ele que esperasse até eu devolver os livros. Ele assentiu. Entreguei os livros para a bibliotecária, renovando somente o empréstimo de "Quem Tem Medo do Escuro?". O menino ria, parecia nem ter se abalado com a quebra dos óculos. Ao retornar ao lugar onde ele estava, o rapaz fechou o enorme livro que analisava criteriosamente, mas não consegui entender sobre o que era. Ele devolveu o exemplar à pasta que carregava e me disse:
- Às vezes é duro gostar de ler. Meus olhos que o digam - completou, me olhando. Os olhos estavam lacrimejantes, como se ele tivesse chorado bastante antes de vir falar comigo.
- Dá para perceber. Seus olhos estão vermelhos - observei.
- Sempre ficam assim. Ignora, Tiêgo.
- Certo, ignorados. Cantina, então? - eu ainda estava nervoso demais para perguntar o nome dele. E eu me sentia em desvantagem por ele saber o meu.
- Cantina. O café das cinco horas é o melhor de todos.
- Eu também acho.
E saímos da biblioteca. Como se nada tivesse acontecido.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Voltamos com nossa programação normal.


[Sim, estou vivo. Por incrível que pareça.]

Semana passada, dei adeus a mais um semestre na universidade. Estou a caminho do quinto e a expectativa só aumenta a cada disciplina finalizada. Expectativa de um mundo novo, de um futuro desconhecido, de um universo que se expande mais e mais. Eu adoro estudar, é um dos meus prazeres preferidos (coisa que muita gente acha esquisito, mas enfim), mas isso tem me feito abrir mão de alguns outros prazeres que antes eram prioridades, mas que hoje não são. Blogar é um deles.
Ontem passei horas pensando nisso, lendo meus posts antigos. Ri, chorei, lembrei de como era fácil deixar as palavras fluírem enquanto minha mente já fervilhava pensando em mais e mais textos. Essa vida corrida me fez deixar de lado a minha principal válvula de escape, para todos os  momentos. Não adianta, já tentei de todas as formas conciliar uma coisa com a outra mas só de pensar em escrever algo à noite, no finalzinho da bateria, sinto um sono infinito. É cansaço, é dor de cabeça... Escrever acaba se tornando uma realidade apenas nos meus sonhos. Quanto mais textos eu lia, mais eu constatava que mudei e que isso acabou se refletindo na minha total negligência com o blog.
Por conta disso, hoje acordei já com a decisão tomada: não importa quantos devaneios, viagens, bobagens e afins eu pense em escrever, venho depositar tudo aqui. Por mais controverso que pareça, aqui eu sou livre. Posso despejar meus sentimentos, minhas angústias, alegrias, desesperos. Aqui, concluí, eu sou feliz. Por mais que tudo esteja dando errado na "vida real", vir aqui, colocar meus pensamentos em palavras e clicar em "publicar" me deixa um pouquinho mais contente. Não posso mais deixar de lado algo que foi tão importante para mim em diversos momentos da minha vida. A vida já é dura demais para que esqueçamos o que nos faz bem.
Portanto, aguardem. Virei louco, virei insano, virei desconexo (às vezes com um pouco de nexo), mas virei. Chega de cansaço. Levantei, sacudi a poeira e vou dar a volta por cima. Wish me luck!

De um cara meio louco, meio insano e meio desconexo (às vezes com um pouco de nexo),

Tiêgo.