quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Tchau, 2014! Vem, 2015!

Viagem para outro país: confere.
Viagem para outro estado: confere.
Apresentação de trabalhos em congressos: confere.
Aceitação de trabalhos em congressos internacionais: confere.
Amizades fortalecidas: confere.
Amizades estremecidas: confere muito.
Paixões platônicas: não confere.
Paixões meio platônicas: confere muito.
Paixões realizadas: hmmmm, confere.
Amores vividos: não confere.
Amores parcialmente vividos: errrrr... confere.
Férias: confere, pela primeira vez em muito tempo.
Dedicação à escrita: confere, pouco, mas confere (passei a me dedicar ao extrarrede).
Ouvir música: confere MUITO. Minha melhor amiga.
Assistir a filmes: confere bastante. Mais do que em todos os anos da minha vida juntos.
Estar perto da família: confere pouco, mas confere.
Abrir mão de certas coisas em função de outras: CONFERE MUITO.
Desapego: confere.
Adeus a fantasmas do passado: confere.
Saídas: confere.
Começo da docência em francês: confere.
Francês: confere muito, extremamente, bastante. Amo. Minha vida inteira resumida num idioma.
Novas pessoas: confere.
Novas experiências: confere.
Um novo Tiêgo: confere. Muito.
Mudei, cresci, amadureci e acho que nunca me senti tão adulto antes. Meu ano foi tão incrível que tudo que eu escrevesse seria pouco perto da gratidão que sinto a 2014 por ter me brindado com as glórias vividas. Desejo a todos os vocês um 2015 cheio de coisas boas, experiências novas, pessoas novas, amores novos ou velhos, já que amor é amor, amizades novas, viagens e muita, muita emoção para chegar no dia 31 de dezembro de 2015, daqui a exatamente um ano, e poder dizer: eu vivi. De verdade. Exatamente como estou fazendo agora: eu vivi 2014. Não sobrevivi a ele. E estou muito, MUITO feliz por poder dizer isso de peito aberto e do fundo do meu coração. Amei 2014, mas tenho tudo para amar ainda mais 2015: o ano da minha formatura, o ano em que vou ter que aprender a me virar sozinho, o ano em que vou defender trabalhos acadêmicos fora do meu estado, enfim! Sinto pelo ano maravilhoso que está indo, mas já estou ansioso e na expectativa para um 2015 cheio de coisas boas novamente!

Com tudo isso, me resta desejar um feliz ano novo para vocês todos e que suas vidas sejam regadas a um monte de coisas boas! Até breve!

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Os melhores álbuns de 2014

Esse ano acho que a música nunca foi tão minha amiga. Por isso eu ouvi TANTA coisa e que me ajudou em tantos momentos que achei digno listar aqui para que meus fiéis (1) leitores vejam e que Deus o livre (como diz meu professor de literatura portuguesa) ouçam. Enjoy it!

Melhores álbuns do ano:


  1. Tove Lo – Queen of the Clouds (por ter um conceito TÃO lindo e por ter me suportado nas mais diversas horas. Já é dona do meu coração! Melhor álbum de 2014 DISPARADO, nada se compara a essa obra prima dos céus! A cada interlúdio com aquelas frases de efeito, a cada mudança de fase do álbum, a cada batida, a cada nota meus batimentos cardíacos aceleram. Não tem mais o que dizer, é a musa de 2014. Já tá no ladinho da Ellie nos meus prediletos. - Destaco: Habits (Stay High), Timebomb, Not on Drugs)
  2. Sia – 1000 Forms of Fear (por ter nos concedido um álbum inteiros de hinos e que nos tocam de alguma forma. E por ter me feito querer uma peruca loira. - Destaco: Chandelier, Fire Meet Gasoline, Free The Animal.)
  3. Sam Smith – In The Lonely Hour (por ter letras TÃO intensas e fantásticas que me lembraram enormemente o 21 da Adele. MARAVILHOSO. - Destaco: Latch, Restart, I'm Not The Only One.)
  4. Taylor Swift – 1989 (por ter humilhado as inimigas que tanto falaram mal dela. Amo a Taylor desde que ela era jeca e agora o amor tá ainda maior porque nunca vou superar "Out of the Woods". A melhor coisa que me aconteceu nesse fim de ano, acho. - Destaco: Out of the Woods, I Know Places, Blank Space)
  5. Ariana Grande – My Everything (por ser rainha, destruição, musa dos agudos. Love me Harder fez parte de um momento muito especial na minha vida em 2014 que eu entro em detalhes na minha retrospectiva. Arianinha só falta mudar o cabelo pro amor reinar. - Destaco: Love me Harder, My Everything, Just a Little Bit of Your Heart, Bang Bang.)
  6. Lykke Li – I Never Learn (por ter me tocado a alma com cada alma desse cd que finaliza a trilogia que começou com o Youth Novels. Amo/sou COMPLETAMENTE esse cd. - Destaco: No Rest for The Wicked, Gunshot, Sleeping Alone)
  7. Jessie J – Sweet Talker (por mostrar um amadurecimento espetacular da Jessie J do anterior pra cá. Esse CD em especial me fez pensar sobre muitas coisas e se tem uma coisa que eu admiro na música é esse poder de persuasão incontestável que certas produções comportam. É o caso de Sweet Talker. - Destaco: Loud, Masterpiece, Said Too Much)
  8. Nick Jonas – Nick Jonas (por ter me mostrado que quebrar a cara de vez em quando faz bem. Eu confesso que só ouvi o disco por causa do boom em torno de alguns atributos que o rapaz andou demonstrando em 2014 mas no final das contas achei MUITO bom. Composições muito boas e uma melodia que fica na cabeça o tempo todo. - Destaco: Jealous, Chains, I Want You, Avalanche)
  9. Young The Giant – Mind Over Matter (por ter sido um dos meus suportes para a saudade enquanto estive na Espanha. Que CD incrível. Não é à toa que é uma das minhas bandas favoritas. - Destaco: Crystallized, Mind Over Matter, Camera.)
  10. Nicki Minaj – The Pinkprint (por ter sido a surpresa do ano! Até agora eu não consigo acreditar que a Nicki tenha nos dado a graça desse álbum no finalzinho de 2014. Estou abismado porque com um single de abertura de trabalhos como 'Anaconda', juro que esperava bem menos. Quebrei a cara mais uma vez, positivamente. - Destaco: The Crying Game, Get on Your Knees, Grand Piano)
  11. Lea Michele – Louder (sem comentários para a Lea porque apesar das críticas, tudo nesse CD me impactou com uma força enorme. Rainha é rainha e ponto final.)
  12. Mø – No Mythologies to Follow (descobri sem querer por conta de um amigo e ADOREI.)
  13. Jessie Ware – Tough Love (Tough Love não sai mais da minha cabeça. E a Jessie empresta os vocais para The Crying Game da Nicki, então mil corações pra essa linda!)
  14. Foxes – Glorious (esse aqui é digno de um pedestal. Holding Onto Heaven é meio que PERFEITA. A Foxes é maravilhosa e não é só por causa daquela outra farofa maravilhosa, Clarity - do feat. com o Zedd)
  15. Cher Lloyd – Sorry, I’m late (outra surpresa! Gostei MUITO de Sirens, ouvi por acaso no rádio - SIM, EU OUÇO RÁDIO ANTES DE DORMIR OK - e o amor ficou. Amo.)
  16. Lana del Rey – Ultraviolence (Essa entrou pelas cotas de arrependimento. Eu criticava MUITO a Lana, mas no fundo sempre amei - cof. cof. - essa rainha. Que delícia Brooklyn Baby e Shades of Cool.)
  17. Ed Sheeran – X (Leia-se "multiply". Esse entrou pelas cotas de amor por ruivos. Mentira, que é porque a voz do Ed me reconforta MUITO, vocês não tem noção. É só eu colocar Thinking Out Loud pra tocar que meu coração fica mais leve. Sou apaixonado por esse cara. Ele é demais.)
  18. Maroon 5 – V (Todo mundo achou mais do mesmo mas eu achei melhor do que Overexposed. Fora que: Feelings >>>>>>>>>>>>>)
  19. Tony Bennett & Lady Gaga – Cheek to Cheek (o baque do ano. JURO. Eu amo a Gaga, não é mistério pra ninguém, mas achei que seria DEVERAS arriscada essa saída dela à francesa - rs - pro Jazz. Ledo engano. Arriscou tão bem que foi indicada ao Grammy. EXCELENTE trabalho dessa dupla. Tony casou perfeitamente com a Gaga nesse álbum que me fez perceber que eu gosto de verdade de Jazz, ainda mais com Anything Goes que eu já amava de outros carnavais. Merece muito o sucesso que fez!)
  20. One Direction – Four (SHUT THE FUCK UP QUEM ME CRITICAR, mas os meninos são bons. Não, na verdade o One Direction é MUITO bom. Eles se reiventam a cada álbum e em Four deu pra perceber um pouquinho mais de maturidade, praticamente o mesmo que percebi em Sweet Talker. Night Changes é INCRÍVEL!)

Menções Honrosas (sem comentários porque senão eu me empolgo):


  1. Ella Henderson – Chapter One
  2. Mary Lambert – Heart on my Sleeve
  3. Kiesza – Sound of a Woman
  4. Azealia Banks – Broke With Expensive Taste
  5. Alex & Sierra – It’s About Us
  6. Olly Murs – Never Been Better
  7. Katy B – Little Red
  8. Iggy Azalea – The New Classic/Reclassified
  9. Charli XCX – Sucker
  10. Christina Perri – Head or Heart

Exceções porque são EPs mas nem por isso deixam de ser maravilhosos (com comentários porque sim) :


  1. Troye Sivan - TRXYE (Troye, meu coração é seu! Que EP maravilhoso! Por que você faz isso comigo e não lança um álbum de uma vez? Não adianta, TODOS OS DIAS eu preciso ouvir Happy Little Pill pra poder me sentir bem. A voz dele me reconforta como ninguém. Tem horas em que eu não preciso ouvir mais nada senão uma boa dose de Gasoline e de Touch pra sonhar - não é por acaso que classificam o Troye também em dream pop. A melhor descoberta masculina de 2014!! Se fosse um álbum certeza que estaria no lugar de Queen Of The Clouds. Muito bom MESMO!)
  2. Melanie Martinez – Dollhouse (Conheci ocasionamente num teaser de American Horror Story e estou A-PAI-XO-NA-DO pela Mel /íntimo. Eu não sei explicar, tem uma magia nas canções dela que me deixam louco! Dollhouse e Carousel dominaram a minha cabeça por semanas! Estou esperando ansioso o début da pequena grande Melanie!)
  3. Meghan Trainor - Title (a música que grudou mais rápido na minha cabeça tem nome e dona: All About That Bass, da Meghan. Os vocais impecáveis com uma letra destruidora me fizeram correr atrás do que ela já tinha feito e fiquei desapontado quando vi que ela só tem um EP lançado. E ao contrário do que muitos imaginavam, ela não tem nem cara de one hit wonder. Vai hitar e muito num futuro bem breve, assim como o Troye e a Melanie. Vida longa a esses lindos que só estão começando!)
E é isso! Quem quiser sugerir, criticar, odiar, amar, coisar, enfim, fique à vontade porque minha casa também é a casa de vocês. Saudades de blogar, vou repetir isso infinitamente! :( Até logo!

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Arthur e Pedro

Era uma vez, um menino chamado Pedro.
No auge de seus dezessete anos, Pedro nunca havia tido experiências amorosas, mas sabia perfeitamente que a presença masculina lhe causava arrepios. Nem tanto as de seus colegas da escola, mas as de homens de verdade, aqueles que aparentavam ser mais velhos do que ele. A barba falha que lhe cobria a face mal disfarçava a jovialidade e isso o irritava profundamente, pois ele achava que, se continuasse a parecer um moleque, jamais perderia a inocência que tanto lhe tirava o sono.
Pedro vivia no reino mágico e inacreditável da internet. Nesse lugar, ele se sentia livre para ser quem ele bem entendesse - e, por coincidência, ele não sabia quem era. Na verdade, era o que ele mais queria no momento: descobrir o que era, em sua essência. Ele sabia de sua atração por homens, mas ainda assim nutria sentimentos de carinho por meninas e isso o confundia. Por conta disso, ele extravasava todas as suas emoções nas salas virtuais, lugares nos quais Pedro conhecia pessoas de todos os lugares do mundo sem sair da frente do computador. Todos os dias, o rapaz se transformava em vários: José, Mário, Luís, Alberto. A cada clique de entrada nas salas virtuais, Pedro era um. E eles eram Pedro, que não parecia em nada com nenhum deles. José era alto e esbelto; Mário era moreno e dono de um restaurante; Luís era funcionário público e tinha feições de meia-idade; Alberto era o mais parecido: estudante de psicologia, trabalhava numa sorveteria e era baixo, porém sarado. Pedro era médio, nem alto nem baixo, tinha os olhos escuros e os cabelos lisos, igualmente negros. Magricela, tinha uma resistência enorme para comer. Era um pesadelo para os pais nos horários das refeições. Porém, naquele lugar extremamente acolhedor, ele não era nada disso. Ele era quem ele queria ser.
Até conhecer Arthur.
Num belo dia, Pedro pausou seus olhos numa sala cujo título era "Para Estranhos". Movido pela curiosidade, o rapaz solicitou entrada com a identidade de Luís e viu que só existiam dois usuários ativos ali: o MegaMike e o Carousel35. Já ciente de que números eram uma válvula de escape para as idades, Pedro se interessou imediatamente por Carousel35. Disse um "oi" tímido para todos e Carousel35 respondeu reservadamente para ele um "Oi, Luís". A conversa seguiu:
"E então, Luís que não esconde o nome, o que você procura numa sala com o nome tão pouco sugestivo?"
"Curiosidade, eu acho. Por que você está só aqui?"
"Mega também aparece por aqui de vez em quando. Ele é legal, só é um pouco carente."
"Ah, como eu. Prazer."
"Mais carente do que eu você não é, Luís. Hehe..."
"Eu acho que ter 29 anos e não ter ninguém é meio triste, Carousel..."
"Eu acho que ter 35 anos e não ter ninguém é mais triste, Luís..."
Pausa.
"Acho que temos dilemas em comum, Carousel."
"Acho o mesmo."
Pedro não soube mais o que falar. Ele sabia que estava se arriscando, que não era Luís, que não tinha 29 anos, que não era funcionário público e que não tinha feições de meia-idade. Pensou por um momento em largar a sala, mas ele viu a última mensagem de Carousel35 e voltou atrás.
"Você é interessante. Pessoas interessantes me atraem enormemente."
Pedro se excitou.
"Eu só acredito que você existe se você ligar sua webcam e me mostrar o seu rosto."
"Você duvida?"
O aviso "Carousel35 conectou a webcam" surgiu no chat. Pedro gelou, pois nunca havia conversado por alguém dessa maneira.
Carousel35 surgiu na tela e, para a surpresa de Pedro, ele era bastante bonito. Cabelos grisalhos, pele clara, olhos negros como os do rapaz, barba por fazer, usava óculos de grau e estava sem camisa. Ele não tinha definições, mas não era gordo. Era exatamente o que Pedro procurava.
"E então, eu não existo?"
"E como existe!", digitou Pedro, com um sorriso no rosto.
"Antes que você continue a me chamar de Carousel, prazer. Arthur."
Carousel35, ou Arthur, preferiu não falar no microfone da webcam. Ele continuou digitando na tela do chat.
"Agora é a sua vez, Luís."
Pedro gelou mais uma vez, apavorado. Decidiu de supetão contar a verdade, antes que tudo virasse uma bola de neve. O máximo que poderia acontecer era o Arthur sumir dali, então que fosse feito:
"Bem, Arthur..."
"Eu acho que conheço esse discurso. Você não é quem você disse ser, certo?"
"Exato", admitiu Pedro, abismado com a perspicácia do homem.
"Bem, então me resta ver você para comparar o quão distante você está da realidade que criou. E não se preocupe, não estou chateado."
Pedro enxergou um pouco de esperança. Ligou a webcam, muito nervoso. Arrumou os cabelos em frente ao espelho, passou a mão no rosto e conectou a câmera ao chat. A espera até carregar a imagem foi mais dolorosa do que esperava. Quando a sua imagem surgiu na tela, Arthur sorriu.
"Você é lindo. Por que essa mentira toda?"
"Sério que você achou isso? Ah, eu menti porque eu tinha medo das reações dos outros caras sobre mim."
"Pensa em você mesmo antes de pensar na opinião dos outros, Luís."
"Pedro, desculpa. É Pedro."
"Tá vendo só? Tanto o nome quanto o dono dele são lindos!"
Pedro ficou vermelho.
"Obrigado."
"Olha, Pedro, eu me sentiria mais à vontade se a gente conversasse num outro local. Você topa?"
Pedro nem pestanejou:
"Claro, Arthur! Você sugere o quê?"
"Você tem celular? Posso te mandar um sms?"
"Com certeza!"
E assim os dois começaram a trocar mensagens, depois ligações e depois todos aqueles contatos cibernéticos e reais que a nós já conhecemos. Isso tudo culminou num relacionamento que já dura três anos e três meses, mas que agora não depende mais tanto dessas surrealidades da internet. Ainda bem.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

O evangélico que transformava e a menina destruidora

Ônibus lotado, meio-dia, volta da universidade.
- Posso sentar do seu lado? - perguntou o homem engravatado.
- Claro, fica à vontade - respondi, levantando e deixando que ele passasse.
- Obrigado.
Silêncio. Coloquei meus fones de ouvido pois algo me dizia que ele ia me importunar. E isso levou exatos vinte minutos para acontecer.
- Desculpa, posso te fazer uma pergunta?
- Depende da pergunta - respondi, cético.
- Você é evangélico? - indagou o homem, sorrindo.
Eu sou católico. Mas resolvi testar a paciência do cara (e a minha própria, confesso):
- Não. Eu sou ateu.
- Misericórdia, Senhor! - exclamou ele, mudando completamente a sua face.
- O senhor tem algum problema com ateus? - aticei.
- Fico me perguntando o que leva alguém a não crer na glória do Senhor.
- Moço, existem pessoas que acreditam em Deus e que não acreditam. Uma série de fatores me fizeram não acreditar que ele existe.
- E que fatores foram esses?
- Primeiro de tudo: eu sou gay. Segundo de tudo: a bíblia condena os gays. Terceiro de tudo: eu não suporto intolerância.
- Filho, você sabe que para Deus nada é impossível?
- Acho que sim, para quem acredita.
- Ele vai te tirar dessa vida. Acredite - disse o homem, fechando os olhos e segurando a minha mão. Afastei-o imediatamente. - Acredite, pois Ele vai fazer a mudança que você precisa na sua vida.
- Obrigado pelas palavras, moço, mas eu acho que não preciso de uma mudança na minha vida.
- Você precisa e não se deu conta disso, ainda.
- Vem cá, moço, quem o senhor pensa que o senhor é para apontar o dedo na minha cara e dizer que eu preciso de alguma coisa? A única coisa que eu preciso agora é chegar em casa, almoçar e ir para o meu trabalho.
- Jovem, eu sou um enviado para a transformação. Confie em mim.
A menina que estava atrás de nós dois riu. Olhei para ela e sorri junto.
- Confiar num cara que quer me mudar e acabou de me conhecer. Aham. Acho que é assim que as coisas funcionam.
- Olha, senhor - chamou a menina -, abra a sua mente. Gay também é gente.
Quis abraçar aquela menina. Nunca a tinha visto na vida, mas senti um desejo enorme de abraçá-la.
- Preciso descer - anunciou ele, levantando-se. Repeti o ato, involuntariamente. - A Igreja Universal do Reino de Deus está de portas abertas para receber você.
- Não, obrigado, talvez eu não tenha roupa para entrar no Templo de Salomão.
O homem apertou o botão de parada, baixou a cabeça e saiu do ônibus. A menina colocou os fones de volta no ouvido e sorri para ela, que retribuiu o gesto. E eu voltei minha atenção para o livro de Molière que eu tinha nas mãos, porque, além de tudo, eu ainda precisava ler um livro inteiro em francês para uma futura discussão. Afinal, aquilo sim mudaria a minha vida.

sábado, 26 de julho de 2014

Qualquer coisa

É, qualquer coisa. Só porque eu não suporto mais olhar para cá e ver esse vazio enorme que faz crescer o meu bloqueio criativo. Tudo me afasta daqui, impressionante. Eu quero escrever, mas jogar no tablet é mais interessante. Eu quero escrever, mas tenho que estudar. Eu quero escrever, mas preciso planejar aulas. Ah, pois é, comecei a dar aulas. Agora sou meio professor de francês. Professor nem tanto porque sou só um monitor, mas já me considero professor. A experiência está sendo incrível. Definitivamente encontrei o meu caminho. Eu ainda tinha sérias dúvidas sobre o que ia seguir na vida profissional mas me encontrei. Foram três anos até eu passar por uma seleção composta de prova de títulos, entrevista e prova escrita para que eu finalmente decidisse o que queria fazer depois da graduação. Tá, eu quero fazer mestrado também, apesar de estar um pouco receoso de largar tudo aqui para viver num estado desconhecido só para estudar. Tudo pode dar errado, mas a vontade está aí. Não sai de mim. Fora o universo que se abriria para mim depois disso: novos lugares, novas pessoas, novos conhecimentos. Talvez eu até precise disso para dar uma guinada na vida - não que ela esteja precisando, diga-se de passagem. Ela está maravilhosa, como nunca esteve. Sei lá, às vezes eu sinto falta de alguma coisa. Não sei o que é, mas essa coisa vive me perturbando. E não é a vida amorosa porque eu realmente não estou fazendo a menor questão dela. Sei lá o que pode ser. Só sei que eu comecei a escrever isso aqui totalmente certo de que não ia passar da primeira linha. E eu não quero parar. Não posso. Necessito disso para me sentir vivo. Mesmo que de vez em quando, escrever me deixa diferente. É um prazer inenarrável (sim, eu quis usar essa palavra para parecer mais bonito e polido porque eu não sou obrigado a não usar palavras difíceis). Ah, e nesse exato momento, estou aliviado pois estou de cabeça raspada e barbeado. Nem tempo para isso estou tendo mais, então quando consigo fazê-lo é meio que um acontecimento. Meio não, é um acontecimento total. Merece até uma foto dessa cara linda:


E pois é, continuo sendo o mesmo de sempre. Muitos quilos maior, um pouquinho mais alto e um pouquinho mais consciente de que escrever é um prazer e não mais uma obrigação, como eu via. Vou demorar anos de novo para voltar ou não, mas é certo de que esse desejo incontrolável de escrever não vai sair de mim nunca. Espero que isso continue sempre assim, porque estou terminando este texto com uma sensação tão boa, mas tão boa que parece que é a primeira vez (o que não é de todo mentira, já que é minha primeira postagem com vinte anos. Pois é, cheguei na casa dos vinte.). E fim, porque eu preciso ir ali revisar um artigo.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Da viagem para a Espanha

Em Toledo, a cidade mais incrível que conheci na Espanha depois de Salamanca.

Fantástica. Incrível. Única. Acho que eu posso definir assim a minha viagem para a Espanha. Eu não imaginava que seria tão incrível. Dos três selecionados, eu fui o único que não tinha viajado para além do Pará. E de uma vez só, conheci São Paulo e a Espanha. Antes de irmos para o país, participamos de uma cerimônia de embarque, na qual deram um kit com mochila, cadernos e afins e muitas instruções. Lá, Luã, Ranielly (os dois outros selecionados da UNIFAP) e eu nos juntamos a outros 80 acadêmicos, professores e colaboradores do Santander em prol dos estudos em espanhol. Ali mesmo eu já havia sentido que seria uma experiência para eu não esquecer nunca mais.
Luã, Ranielly e eu - representantes da UNIFAP no Top España 2013.2
Passar onze horas dentro de um avião foi traumatizante. Eu rezei para o período na Espanha demorar muito para que eu não tivesse que sentir tudo de novo. Mas quando cheguei, tudo valeu a pena. O aeroporto de Madri é imenso. Quase um bairro de tão grande, tanto que tem metrô para se deslocar entre as plataformas de embarque e desembarque. É surreal. Fomos de ônibus para Salamanca, mas antes de chegar lá ainda fizemos uma parada para almoçar em Ávila, uma cidade pequena e histórica que conserva suas raízes medievais até hoje. É um lugar extremamente frio – arrisco dizer que foi o lugar mais frio que visitei na Espanha. Fazia algo por volta de 2°, 3° quando estávamos por lá, em plenas duas horas da tarde. E pensar que frio em Macapá não é menos de 25°...




Ao chegar a Salamanca, fui tomado por uma alegria sem igual. Já havia reparado na estrada Ávila-Salamanca, mas lá eu tive o verdadeiro choque de que estava na Espanha. Ruas limpas e pavimentadas, com motoristas prudentes e pedestres igualmente respeitosos; uma vegetação bem diferente da nossa, com árvores secas e algumas (poucas) árvores altas e um ar puro, sem poluição excessiva. Assim que desci do ônibus e vi o alojamento, fiquei extremamente aliviado ao perceber que as dependências do Colegio Mayor Hernan Cortés estavam num nível muito além do que eu imaginei. Os “colegios” são moradas universitárias que abrigam os acadêmicos que vem de fora de Salamanca. O nosso, segundo a maioria, era o melhor e mais bem estruturado de todos, porque além do “comedor” universitário, tinha salas para tudo: jogos, televisão, estudos, biblioteca, lavanderia... Era bem grande. Não cheguei a vê-lo todo, mas o que eu pude conhecer do lugar me deixou impressionado. Era inevitável a comparação com o Brasil, em especial com a Unifap, que nem de alojamento dispõe.





Fomos muito bem recebidos em Salamanca. Ainda no dia da nossa chegada, fomos à outra cerimônia de boas vindas pelo pessoal da coordenação dos Cursos Internacionales da Universidade de Salamanca, uma hora depois de nos alojarmos. Lá, recebemos o material do curso, a carteira estudantil da universidade e mais instruções. Ali, comecei a perceber que o espanhol não era um idioma difícil, mas que exigiria bastante de mim. Também comecei a observar os hábitos dos espanhóis e, se há algo do qual eu vou sentir bastante falta deles, esse algo é a pontualidade. Se marcam algo às 20h, às 20h começa. Às vezes, se já estão todos lá antes do horário, eles iniciam o compromisso também. É algo impressionante quando você já está acostumado com o atraso brasileiro. Assim, em meu bilhete das classes constava aula de língua espanhola das 9h às 11h e de conversação e redação das 11h às 12h. Estranhei o horário, mas achei bom logo de cara, uma vez que 9h para mim é um atraso absurdo nas aulas. Ah, e eu também caí em uma turma de nível avançado. Quis trocar, mas preferi assistir a primeira aula para tirar minhas conclusões sobre isso.
Com medo de chegar atrasado, levantei-me às 7h e assim segui para San Boal, o edifício da Universidade de Salamanca que abrigava os cursos internacionais. Rapidamente me arrumei e desci para tomar café. O frio marcava 5° e eu achei que não fosse suportar sair da rua para chegar até a faculdade, mas era mais próximo do que eu imaginava. A priori, tudo parece próximo em Salamanca. Dá para conhecer a cidade toda a pé. Vi pouquíssima necessidade de usar carro, moto ou ônibus (que por sinal são excelentes), mas uma bicicleta seria perfeita (vemos muitas pessoas andando de bicicleta pela cidade). Enfim, para não me demorar muito, saímos em grupo para San Boal e ainda levamos um bom tempo para encontrar (tínhamos estado lá à noite, mas de dia o caminho parecia diferente) o prédio, mas as pessoas, sempre muito solícitas, nos ajudaram a encontrá-lo. E uma vez na sala de aula, faltavam poucos minutos para as nove.
A professora era pontual. Begoña estava ali pontualmente às 9h, pronta para nos ensinar o melhor dela. Era engraçada, teatral e espontânea, além de atrair nossa atenção para assuntos que pareciam difíceis. E ela não era a única estrangeira na sala: além de outros brasileiros (Luã e Ranielly também caíram na mesma turma que eu), havia coreanas e americanas. Mundos extremamente opostos unidos em nome da língua e da cultura espanhola. Foi incrível passar a maior parte dos meus dias em Salamanca ali, com todos. As aulas de Begoña eram de gramática pura, mas também eram cultura: com ela, aprendemos várias coisas sobre os hábitos dos espanhóis. Além do “pluscuamperfecto” e dos “pronombres”, mergulhamos no universo espanhol ali, nas aulas dela. Aliás, não só nas aulas dela, como também nas de conversação e redação. María era um pouco mais séria do que Begoña, mas nos entendemos bem. Aprendemos bastantes coisas úteis acerca dos usos da língua, o que seria útil em diversas ocasiões que provavelmente nos encontraríamos... As aulas foram um show à parte. Estávamos ali por conta do curso e realmente, foi demais. Eu só tinha visto algo bem breve de espanhol no ensino médio, então para mim foi uma experiência sem igual. O contato direto com a língua, com os colegas de outras nacionalidades que me obrigavam a falar espanhol também...

 



Salamanca se mostrou uma cidade incrível. Conheci a Universidade Antígua, que era onde ocorriam as aulas da Universidade de Salamanca e aquele lugar é fantástico. Hoje, só funciona para visitação, mas percebemos o quão grandiosa é a universidade. Oitocentos anos tornam a universidade de Salamanca a mais antiga da Espanha e uma das mais antigas da Europa, sendo referência no ensino superior para o mundo. Senti-me lisonjeado por poder ter conhecido algo tão importante. Além disso, passei pela Catedral de Salamanca, esplendorosa e imponente com sua construção impecável e repleta de histórias; a Plaza Mayor, sem dúvida meu lugar favorito dali tanto pela beleza quanto pelo valor sentimental: foi o primeiro cartão postal da cidade que visitei. E eu me sentia tão bem ali que não sentia vontade de ir embora, tamanho o aconchego daquele lugar. Tanto de dia quanto à noite, era de uma beleza inigualável. É uma das lembranças mais fortes que tenho de Salamanca. Além disso, tem diversos outros lugares interessantes, como a Ponte Romana, o rio Tormes, o centro comercial que tem de tudo, os bares e restaurantes, a Casa das Conchas, a faculdade de Filologia... São muitos. Se fosse falar de todos, levaria anos para terminar este relato.
Minúsculo perto da catedral de Salamanca


I FUCKIN LOVE THIS PHOTO




À beira do rio Tormes, que atravessa Salamanca. CONGELANDO
Ponte Romana e um dos meus lugares favoritos em Salamanca por causa dessa visão ESPETACULAR
Tinha muitas outras coisas pra falar, mas deixo as imagens falarem por si próprias. Não só Salamanca como Toledo e Madri me mostraram o lugar maravilhoso que é a Espanha. O pouco que conheci me fez ter uma impressão única e positiva do país. Acredito que nunca serei grato o suficiente ao Santander e à UNIFAP pela oportunidade de ter participado do Top España. Todas as experiências que eu vivi, as pessoas e lugares que conheci, as comidas que provei (e gostei, e detestei), os conhecimentos que adquiri serão levados para o resto da minha vida e, de alguma forma, contribuíram para que eu me tornasse um homem adulto, independente e com uma visão de mundo trezentas vezes ampliada. Foram três semanas que passaram voando, mas que duraram tempo o suficiente para que eu vivesse a melhor experiência da minha vida! Espero um dia poder retornar a Salamanca, especialmente Salamanca, o lugar que tão bem me acolheu e me mostrou que eu ainda posso chegar longe, muito longe, se eu acreditar nos meus sonhos. Como sempre acredito, como sempre acreditei, como sempre acreditarei.