sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Arthur e Pedro

Era uma vez, um menino chamado Pedro.
No auge de seus dezessete anos, Pedro nunca havia tido experiências amorosas, mas sabia perfeitamente que a presença masculina lhe causava arrepios. Nem tanto as de seus colegas da escola, mas as de homens de verdade, aqueles que aparentavam ser mais velhos do que ele. A barba falha que lhe cobria a face mal disfarçava a jovialidade e isso o irritava profundamente, pois ele achava que, se continuasse a parecer um moleque, jamais perderia a inocência que tanto lhe tirava o sono.
Pedro vivia no reino mágico e inacreditável da internet. Nesse lugar, ele se sentia livre para ser quem ele bem entendesse - e, por coincidência, ele não sabia quem era. Na verdade, era o que ele mais queria no momento: descobrir o que era, em sua essência. Ele sabia de sua atração por homens, mas ainda assim nutria sentimentos de carinho por meninas e isso o confundia. Por conta disso, ele extravasava todas as suas emoções nas salas virtuais, lugares nos quais Pedro conhecia pessoas de todos os lugares do mundo sem sair da frente do computador. Todos os dias, o rapaz se transformava em vários: José, Mário, Luís, Alberto. A cada clique de entrada nas salas virtuais, Pedro era um. E eles eram Pedro, que não parecia em nada com nenhum deles. José era alto e esbelto; Mário era moreno e dono de um restaurante; Luís era funcionário público e tinha feições de meia-idade; Alberto era o mais parecido: estudante de psicologia, trabalhava numa sorveteria e era baixo, porém sarado. Pedro era médio, nem alto nem baixo, tinha os olhos escuros e os cabelos lisos, igualmente negros. Magricela, tinha uma resistência enorme para comer. Era um pesadelo para os pais nos horários das refeições. Porém, naquele lugar extremamente acolhedor, ele não era nada disso. Ele era quem ele queria ser.
Até conhecer Arthur.
Num belo dia, Pedro pausou seus olhos numa sala cujo título era "Para Estranhos". Movido pela curiosidade, o rapaz solicitou entrada com a identidade de Luís e viu que só existiam dois usuários ativos ali: o MegaMike e o Carousel35. Já ciente de que números eram uma válvula de escape para as idades, Pedro se interessou imediatamente por Carousel35. Disse um "oi" tímido para todos e Carousel35 respondeu reservadamente para ele um "Oi, Luís". A conversa seguiu:
"E então, Luís que não esconde o nome, o que você procura numa sala com o nome tão pouco sugestivo?"
"Curiosidade, eu acho. Por que você está só aqui?"
"Mega também aparece por aqui de vez em quando. Ele é legal, só é um pouco carente."
"Ah, como eu. Prazer."
"Mais carente do que eu você não é, Luís. Hehe..."
"Eu acho que ter 29 anos e não ter ninguém é meio triste, Carousel..."
"Eu acho que ter 35 anos e não ter ninguém é mais triste, Luís..."
Pausa.
"Acho que temos dilemas em comum, Carousel."
"Acho o mesmo."
Pedro não soube mais o que falar. Ele sabia que estava se arriscando, que não era Luís, que não tinha 29 anos, que não era funcionário público e que não tinha feições de meia-idade. Pensou por um momento em largar a sala, mas ele viu a última mensagem de Carousel35 e voltou atrás.
"Você é interessante. Pessoas interessantes me atraem enormemente."
Pedro se excitou.
"Eu só acredito que você existe se você ligar sua webcam e me mostrar o seu rosto."
"Você duvida?"
O aviso "Carousel35 conectou a webcam" surgiu no chat. Pedro gelou, pois nunca havia conversado por alguém dessa maneira.
Carousel35 surgiu na tela e, para a surpresa de Pedro, ele era bastante bonito. Cabelos grisalhos, pele clara, olhos negros como os do rapaz, barba por fazer, usava óculos de grau e estava sem camisa. Ele não tinha definições, mas não era gordo. Era exatamente o que Pedro procurava.
"E então, eu não existo?"
"E como existe!", digitou Pedro, com um sorriso no rosto.
"Antes que você continue a me chamar de Carousel, prazer. Arthur."
Carousel35, ou Arthur, preferiu não falar no microfone da webcam. Ele continuou digitando na tela do chat.
"Agora é a sua vez, Luís."
Pedro gelou mais uma vez, apavorado. Decidiu de supetão contar a verdade, antes que tudo virasse uma bola de neve. O máximo que poderia acontecer era o Arthur sumir dali, então que fosse feito:
"Bem, Arthur..."
"Eu acho que conheço esse discurso. Você não é quem você disse ser, certo?"
"Exato", admitiu Pedro, abismado com a perspicácia do homem.
"Bem, então me resta ver você para comparar o quão distante você está da realidade que criou. E não se preocupe, não estou chateado."
Pedro enxergou um pouco de esperança. Ligou a webcam, muito nervoso. Arrumou os cabelos em frente ao espelho, passou a mão no rosto e conectou a câmera ao chat. A espera até carregar a imagem foi mais dolorosa do que esperava. Quando a sua imagem surgiu na tela, Arthur sorriu.
"Você é lindo. Por que essa mentira toda?"
"Sério que você achou isso? Ah, eu menti porque eu tinha medo das reações dos outros caras sobre mim."
"Pensa em você mesmo antes de pensar na opinião dos outros, Luís."
"Pedro, desculpa. É Pedro."
"Tá vendo só? Tanto o nome quanto o dono dele são lindos!"
Pedro ficou vermelho.
"Obrigado."
"Olha, Pedro, eu me sentiria mais à vontade se a gente conversasse num outro local. Você topa?"
Pedro nem pestanejou:
"Claro, Arthur! Você sugere o quê?"
"Você tem celular? Posso te mandar um sms?"
"Com certeza!"
E assim os dois começaram a trocar mensagens, depois ligações e depois todos aqueles contatos cibernéticos e reais que a nós já conhecemos. Isso tudo culminou num relacionamento que já dura três anos e três meses, mas que agora não depende mais tanto dessas surrealidades da internet. Ainda bem.

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