terça-feira, 16 de setembro de 2014

O evangélico que transformava e a menina destruidora

Ônibus lotado, meio-dia, volta da universidade.
- Posso sentar do seu lado? - perguntou o homem engravatado.
- Claro, fica à vontade - respondi, levantando e deixando que ele passasse.
- Obrigado.
Silêncio. Coloquei meus fones de ouvido pois algo me dizia que ele ia me importunar. E isso levou exatos vinte minutos para acontecer.
- Desculpa, posso te fazer uma pergunta?
- Depende da pergunta - respondi, cético.
- Você é evangélico? - indagou o homem, sorrindo.
Eu sou católico. Mas resolvi testar a paciência do cara (e a minha própria, confesso):
- Não. Eu sou ateu.
- Misericórdia, Senhor! - exclamou ele, mudando completamente a sua face.
- O senhor tem algum problema com ateus? - aticei.
- Fico me perguntando o que leva alguém a não crer na glória do Senhor.
- Moço, existem pessoas que acreditam em Deus e que não acreditam. Uma série de fatores me fizeram não acreditar que ele existe.
- E que fatores foram esses?
- Primeiro de tudo: eu sou gay. Segundo de tudo: a bíblia condena os gays. Terceiro de tudo: eu não suporto intolerância.
- Filho, você sabe que para Deus nada é impossível?
- Acho que sim, para quem acredita.
- Ele vai te tirar dessa vida. Acredite - disse o homem, fechando os olhos e segurando a minha mão. Afastei-o imediatamente. - Acredite, pois Ele vai fazer a mudança que você precisa na sua vida.
- Obrigado pelas palavras, moço, mas eu acho que não preciso de uma mudança na minha vida.
- Você precisa e não se deu conta disso, ainda.
- Vem cá, moço, quem o senhor pensa que o senhor é para apontar o dedo na minha cara e dizer que eu preciso de alguma coisa? A única coisa que eu preciso agora é chegar em casa, almoçar e ir para o meu trabalho.
- Jovem, eu sou um enviado para a transformação. Confie em mim.
A menina que estava atrás de nós dois riu. Olhei para ela e sorri junto.
- Confiar num cara que quer me mudar e acabou de me conhecer. Aham. Acho que é assim que as coisas funcionam.
- Olha, senhor - chamou a menina -, abra a sua mente. Gay também é gente.
Quis abraçar aquela menina. Nunca a tinha visto na vida, mas senti um desejo enorme de abraçá-la.
- Preciso descer - anunciou ele, levantando-se. Repeti o ato, involuntariamente. - A Igreja Universal do Reino de Deus está de portas abertas para receber você.
- Não, obrigado, talvez eu não tenha roupa para entrar no Templo de Salomão.
O homem apertou o botão de parada, baixou a cabeça e saiu do ônibus. A menina colocou os fones de volta no ouvido e sorri para ela, que retribuiu o gesto. E eu voltei minha atenção para o livro de Molière que eu tinha nas mãos, porque, além de tudo, eu ainda precisava ler um livro inteiro em francês para uma futura discussão. Afinal, aquilo sim mudaria a minha vida.