terça-feira, 9 de junho de 2015

Pseudopsicologia #06

Bem, já faz um certo tempo que eu não posto aqui e como bem vocês já sabem, entreguei minha alma blogueira para as mãos do Senhor porque só ele para ressuscitar o escritor que há em mim. Confesso que sinto MUITA saudade disso, mal vocês sabem. Mas de fato, o pique não é mais o mesmo. Porém, hoje aconteceu uma coisa tão fora do normal que a vontade de escrever reacendeu em mim de tal forma que eu fui obrigado, pela minha consciência, a abrir o draft do Blogger e voltar aqui. Sintam comigo:



"Oi, Tiêgo!!

Gostei muito dos textos do seu blog e seu dilema é tão parecido com o meu!! Quando me abri para a minha mãe, parece que eu ia me sentir mais feliz mas acabei me sentindo ainda mais preso e querendo me libertar cada vez mais. Não fiz nem uma coisa nem outra. Estou com 25 anos e comecei a ler seu blog há poucos dias. Vi que você fazia uma ajuda com os seus leitores e talvez você pudesse me ajudar, porque é tão legal perceber que não é só você que passa por isso! Estou quase pra sair de casa porque reparei que meus pais odiaram quando eu trouxe um amigo gay para dormir aqui já que ele tinha perdido a chave da casa dele e não tinha como entrar. Já especularam um monte de coisas isso porque eu expliquei toda a situação! E pra variar estou quase começando a namorar um menino que disse que me ajuda se eu quiser sair de casa, já que ele vive só. Tenho medo de magoar a minha família mas ao mesmo tempo tenho medo de deixar tudo pra traz em nome de um amor!! Se você pudesse me dar algum conselho, eu agradeceria de coração!! 

Beijos,

De um leitor."

Aí é claro que eu não soube o que dizer. Estou com o coração na mão até agora. Como não quis ser leviano nem nada do tipo, tomei a liberdade de fazer mais algumas perguntas ao leitor, a saber:

"Oi, leitor!

Saiba que fico verdadeiramente honrado pelo fato de você ter pedido ajuda e tudo porque não é todo mundo que consegue se abrir dessa forma com um "estranho", né? Agora sobre o seu problema, olha, cara, eu preciso saber um pouquinho mais da sua situação porque é muito difícil dar um conselho quando a gente não tem uma visão geral sobre tudo. Primeiramente: como você se sente em relação a si próprio? Certo? Confuso ainda? Equilibrado? Enfim... No que diz respeito à sua sexualidade, como é que você está? Além disso, você trabalha? Estuda? Como é a sua vida nesse sentido? Quanto ao seu relacionamento com esse rapaz, quais as suas expectativas, anseios, medos? E pra terminar: como você definiria a sua relação com a sua família de uma maneira geral? Amigável, conturbada... Sei que ficou depois desse acontecimento com o seu amigo mas antes disso, como era?

Fico no aguardo das suas respostas pra saber a melhor forma de te ajudar.

Abraço forte e agradeço mais uma vez pela consideração!

Tiêgo."

Agora estou aguardando a resposta como nunca. Parece que o drama do leitor me afetou de uma forma completamente diferente! Como se isso tivesse acontecido comigo mesmo ou algo do tipo! Mal posso esperar para ver o que ele vai responder, caso responda. Assim que eu receber o feedback dele, torno a atualizar o post. 

[UPDATE EM 10.06.15: Recebi a resposta do leitor!]

"Oi, Tiêgo! Que felicidade por vccê ter me respondido.

Bem, sobre as suas questões, vou responder tudo de uma vez: eu tenho totalmente certeza de que sou gay. Eu nunca senti atração por meninas, só por meninos, desde que, eu me entendo enquanto pessoa. Fiquei confuso na adolescencia mas já passou. Sobre meu trabalho, sim, eu trabalho na área administrativa de uma empresa e recebo relativamente bem. Comecei a faculdade de engenharia (pra agradar meus pais) mas larguei porque não aguentei cálcular, comecei a faculdade de direito mas larguei por não gostar da área e agora tô fazendo faculdade de psicologia. Finalmente eu achei uma coisa boa pra estudar e que me faça querer terminar uma graduação. Meus pais odiaram a mudança e é claro que são contra, mas já estou no terceiro período e não vou mudar. Sobre o meu, é, namorado: ele é nove anos mais velho do que eu, é independente, mora só, é concursado e não é confuso em relação à sexualidade. Sobre a minha família, como eu te falei, eu contei pra minha mãe sobre a minha sexualidade não faz muito tempo e ela pareceu me apoiar, até que aconteceu isso com meu amigo. Meu pai odiou a 'ideia' e disse (pra ela) que desaprovava essas minhas atitudes e que não gostava dos meus amigos (tenho muitos amigos gays). Acho que ela se teleguiou pelo pensamento dele, minha mãe é muito baseada no que os outros falam. Mas de uma forma geral meu relacionamento com meu irmão mais velho é bom, com o mais novo mais ou menos, com meus pais também, se não fosse a sexualidade... Por isso que eu quero sair de casa. E o H., meu namorado (acho que já posso chamar assim), está me dando a maior força. Sei que se eu sair de casa, meus pais não vão me permitir voltar. Mas meu coração me diz pra tomar uma atitude urgente antes que eu cometa uma bobagem maior. Por isso que pedi ajuda pra você. Espero que a situação esteja mais clara agora!!! Fico esperando a resposta. Obrigado!!!

De um leitor."

Essa é a minha resposta em definitivo, depois de parar e analisar tudo o que me foi dito (e é claro, contar com a ajuda de arrobinhas amigas do Twitter c/c Isabella and Felipe):

"Leitor,

Levei em consideração diversos fatores antes de começar a responder de fato ao seu e-mail. Coloquei-me no seu lugar e não me via tomando outra atitude que não criar coragem e me desprender da casa dos meus pais. Percebo claramente que você tem essa vontade forte mas que ainda tem um vínculo também forte com a sua família. Mas para e pensa, querido: você trabalha, você estuda, você tem um cara que gosta de você, pelo menos pelo o que você diz. E a idade, querendo ou não, pesa nessas horas: você já tem vinte e cinco anos. Tempo o suficiente pra você parar, respirar e começar a caminhar com as suas próprias pernas. Você corre o risco de ficar sem falar com seus familiares? Corre, corre um risco muito grande. Eles podem se magoar. Mas eles precisam entender, de alguma forma ou de outra, que você é adulto, responsável por si próprio e que tem convicção do que é e do que sente. Por que não viver essa vida nova? Mesmo sem o seu namorado, essa é uma experiência pela qual todos nós deveríamos passar: a de criarmos autonomia em relação a tudo. Talvez seja esse o seu calcanhar de Aquiles: a dificuldade de aceitar que está na hora de (se é que já não passou) enfrentar o mundo em nome de si próprio. E infelizmente, pra isso, você vai ter que passar por coisas boas e ruins. Mas eu dou a maior força para que você siga seu coração nesse momento e que você seja forte para viver seus novos dias a partir do instante em que você se libertar das amarras que seus pais estão te colocando. Eu dou conselhos, mas vai de você decidir o que lhe é mais propício - já que é uma decisão que vai acarretar numa mudança considerável na sua vida caso opte por sair de casa. Caso contrário, reflita muito, muito mesmo antes de agir. Não permita que ninguém te prive de ser quem você é!

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Tem alguma coisa te inquietando? Tem algum problema forte tomando conta do seu ser e não quer desabafar com um amigo porque sabe que ele vai te julgar? Tá sofrendo de alguma forma? Mande um e-mail para tiegoramon@gmail.com que eu vou fazer o possível pra te ajudar. Dentro das minhas limitações de pseudopsicólogo, claro. Até já!