É, qualquer coisa. Só porque eu não suporto mais olhar para cá e ver esse vazio enorme que faz crescer o meu bloqueio criativo. Tudo me afasta daqui, impressionante. Eu quero escrever, mas jogar no tablet é mais interessante. Eu quero escrever, mas tenho que estudar. Eu quero escrever, mas preciso planejar aulas. Ah, pois é, comecei a dar aulas. Agora sou meio professor de francês. Professor nem tanto porque sou só um monitor, mas já me considero professor. A experiência está sendo incrível. Definitivamente encontrei o meu caminho. Eu ainda tinha sérias dúvidas sobre o que ia seguir na vida profissional mas me encontrei. Foram três anos até eu passar por uma seleção composta de prova de títulos, entrevista e prova escrita para que eu finalmente decidisse o que queria fazer depois da graduação. Tá, eu quero fazer mestrado também, apesar de estar um pouco receoso de largar tudo aqui para viver num estado desconhecido só para estudar. Tudo pode dar errado, mas a vontade está aí. Não sai de mim. Fora o universo que se abriria para mim depois disso: novos lugares, novas pessoas, novos conhecimentos. Talvez eu até precise disso para dar uma guinada na vida - não que ela esteja precisando, diga-se de passagem. Ela está maravilhosa, como nunca esteve. Sei lá, às vezes eu sinto falta de alguma coisa. Não sei o que é, mas essa coisa vive me perturbando. E não é a vida amorosa porque eu realmente não estou fazendo a menor questão dela. Sei lá o que pode ser. Só sei que eu comecei a escrever isso aqui totalmente certo de que não ia passar da primeira linha. E eu não quero parar. Não posso. Necessito disso para me sentir vivo. Mesmo que de vez em quando, escrever me deixa diferente. É um prazer inenarrável (sim, eu quis usar essa palavra para parecer mais bonito e polido porque eu não sou obrigado a não usar palavras difíceis). Ah, e nesse exato momento, estou aliviado pois estou de cabeça raspada e barbeado. Nem tempo para isso estou tendo mais, então quando consigo fazê-lo é meio que um acontecimento. Meio não, é um acontecimento total. Merece até uma foto dessa cara linda:
E pois é, continuo sendo o mesmo de sempre. Muitos quilos maior, um pouquinho mais alto e um pouquinho mais consciente de que escrever é um prazer e não mais uma obrigação, como eu via. Vou demorar anos de novo para voltar ou não, mas é certo de que esse desejo incontrolável de escrever não vai sair de mim nunca. Espero que isso continue sempre assim, porque estou terminando este texto com uma sensação tão boa, mas tão boa que parece que é a primeira vez (o que não é de todo mentira, já que é minha primeira postagem com vinte anos. Pois é, cheguei na casa dos vinte.). E fim, porque eu preciso ir ali revisar um artigo.
sábado, 26 de julho de 2014
sexta-feira, 7 de março de 2014
Da viagem para a Espanha
| Em Toledo, a cidade mais incrível que conheci na Espanha depois de Salamanca. |
Fantástica. Incrível. Única. Acho que eu posso definir assim a minha viagem para a Espanha. Eu não imaginava que seria tão incrível. Dos três selecionados, eu fui o único que não tinha viajado para além do Pará. E de uma vez só, conheci São Paulo e a Espanha. Antes de irmos para o país, participamos de uma cerimônia de embarque, na qual deram um kit com mochila, cadernos e afins e muitas instruções. Lá, Luã, Ranielly (os dois outros selecionados da UNIFAP) e eu nos juntamos a outros 80 acadêmicos, professores e colaboradores do Santander em prol dos estudos em espanhol. Ali mesmo eu já havia sentido que seria uma experiência para eu não esquecer nunca mais.
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| Luã, Ranielly e eu - representantes da UNIFAP no Top España 2013.2 |
Passar onze horas dentro de um avião foi traumatizante. Eu rezei para o período na Espanha demorar muito para que eu não tivesse que sentir tudo de novo. Mas quando cheguei, tudo valeu a pena. O aeroporto de Madri é imenso. Quase um bairro de tão grande, tanto que tem metrô para se deslocar entre as plataformas de embarque e desembarque. É surreal. Fomos de ônibus para Salamanca, mas antes de chegar lá ainda fizemos uma parada para almoçar em Ávila, uma cidade pequena e histórica que conserva suas raízes medievais até hoje. É um lugar extremamente frio – arrisco dizer que foi o lugar mais frio que visitei na Espanha. Fazia algo por volta de 2°, 3° quando estávamos por lá, em plenas duas horas da tarde. E pensar que frio em Macapá não é menos de 25°...
Ao chegar a Salamanca, fui tomado por uma alegria sem igual. Já havia reparado na estrada Ávila-Salamanca, mas lá eu tive o verdadeiro choque de que estava na Espanha. Ruas limpas e pavimentadas, com motoristas prudentes e pedestres igualmente respeitosos; uma vegetação bem diferente da nossa, com árvores secas e algumas (poucas) árvores altas e um ar puro, sem poluição excessiva. Assim que desci do ônibus e vi o alojamento, fiquei extremamente aliviado ao perceber que as dependências do Colegio Mayor Hernan Cortés estavam num nível muito além do que eu imaginei. Os “colegios” são moradas universitárias que abrigam os acadêmicos que vem de fora de Salamanca. O nosso, segundo a maioria, era o melhor e mais bem estruturado de todos, porque além do “comedor” universitário, tinha salas para tudo: jogos, televisão, estudos, biblioteca, lavanderia... Era bem grande. Não cheguei a vê-lo todo, mas o que eu pude conhecer do lugar me deixou impressionado. Era inevitável a comparação com o Brasil, em especial com a Unifap, que nem de alojamento dispõe.
Fomos muito bem recebidos em Salamanca. Ainda no dia da nossa chegada, fomos à outra cerimônia de boas vindas pelo pessoal da coordenação dos Cursos Internacionales da Universidade de Salamanca, uma hora depois de nos alojarmos. Lá, recebemos o material do curso, a carteira estudantil da universidade e mais instruções. Ali, comecei a perceber que o espanhol não era um idioma difícil, mas que exigiria bastante de mim. Também comecei a observar os hábitos dos espanhóis e, se há algo do qual eu vou sentir bastante falta deles, esse algo é a pontualidade. Se marcam algo às 20h, às 20h começa. Às vezes, se já estão todos lá antes do horário, eles iniciam o compromisso também. É algo impressionante quando você já está acostumado com o atraso brasileiro. Assim, em meu bilhete das classes constava aula de língua espanhola das 9h às 11h e de conversação e redação das 11h às 12h. Estranhei o horário, mas achei bom logo de cara, uma vez que 9h para mim é um atraso absurdo nas aulas. Ah, e eu também caí em uma turma de nível avançado. Quis trocar, mas preferi assistir a primeira aula para tirar minhas conclusões sobre isso.
Com medo de chegar atrasado, levantei-me às 7h e assim segui para San Boal, o edifício da Universidade de Salamanca que abrigava os cursos internacionais. Rapidamente me arrumei e desci para tomar café. O frio marcava 5° e eu achei que não fosse suportar sair da rua para chegar até a faculdade, mas era mais próximo do que eu imaginava. A priori, tudo parece próximo em Salamanca. Dá para conhecer a cidade toda a pé. Vi pouquíssima necessidade de usar carro, moto ou ônibus (que por sinal são excelentes), mas uma bicicleta seria perfeita (vemos muitas pessoas andando de bicicleta pela cidade). Enfim, para não me demorar muito, saímos em grupo para San Boal e ainda levamos um bom tempo para encontrar (tínhamos estado lá à noite, mas de dia o caminho parecia diferente) o prédio, mas as pessoas, sempre muito solícitas, nos ajudaram a encontrá-lo. E uma vez na sala de aula, faltavam poucos minutos para as nove.
A professora era pontual. Begoña estava ali pontualmente às 9h, pronta para nos ensinar o melhor dela. Era engraçada, teatral e espontânea, além de atrair nossa atenção para assuntos que pareciam difíceis. E ela não era a única estrangeira na sala: além de outros brasileiros (Luã e Ranielly também caíram na mesma turma que eu), havia coreanas e americanas. Mundos extremamente opostos unidos em nome da língua e da cultura espanhola. Foi incrível passar a maior parte dos meus dias em Salamanca ali, com todos. As aulas de Begoña eram de gramática pura, mas também eram cultura: com ela, aprendemos várias coisas sobre os hábitos dos espanhóis. Além do “pluscuamperfecto” e dos “pronombres”, mergulhamos no universo espanhol ali, nas aulas dela. Aliás, não só nas aulas dela, como também nas de conversação e redação. María era um pouco mais séria do que Begoña, mas nos entendemos bem. Aprendemos bastantes coisas úteis acerca dos usos da língua, o que seria útil em diversas ocasiões que provavelmente nos encontraríamos... As aulas foram um show à parte. Estávamos ali por conta do curso e realmente, foi demais. Eu só tinha visto algo bem breve de espanhol no ensino médio, então para mim foi uma experiência sem igual. O contato direto com a língua, com os colegas de outras nacionalidades que me obrigavam a falar espanhol também...
Salamanca se mostrou uma cidade incrível. Conheci a Universidade Antígua, que era onde ocorriam as aulas da Universidade de Salamanca e aquele lugar é fantástico. Hoje, só funciona para visitação, mas percebemos o quão grandiosa é a universidade. Oitocentos anos tornam a universidade de Salamanca a mais antiga da Espanha e uma das mais antigas da Europa, sendo referência no ensino superior para o mundo. Senti-me lisonjeado por poder ter conhecido algo tão importante. Além disso, passei pela Catedral de Salamanca, esplendorosa e imponente com sua construção impecável e repleta de histórias; a Plaza Mayor, sem dúvida meu lugar favorito dali tanto pela beleza quanto pelo valor sentimental: foi o primeiro cartão postal da cidade que visitei. E eu me sentia tão bem ali que não sentia vontade de ir embora, tamanho o aconchego daquele lugar. Tanto de dia quanto à noite, era de uma beleza inigualável. É uma das lembranças mais fortes que tenho de Salamanca. Além disso, tem diversos outros lugares interessantes, como a Ponte Romana, o rio Tormes, o centro comercial que tem de tudo, os bares e restaurantes, a Casa das Conchas, a faculdade de Filologia... São muitos. Se fosse falar de todos, levaria anos para terminar este relato.
| Minúsculo perto da catedral de Salamanca |
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| I FUCKIN LOVE THIS PHOTO |
| À beira do rio Tormes, que atravessa Salamanca. CONGELANDO |
| Ponte Romana e um dos meus lugares favoritos em Salamanca por causa dessa visão ESPETACULAR |
Tinha muitas outras coisas pra falar, mas deixo as imagens falarem por si próprias. Não só Salamanca como Toledo e Madri me mostraram o lugar maravilhoso que é a Espanha. O pouco que conheci me fez ter uma impressão única e positiva do país. Acredito que nunca serei grato o suficiente ao Santander e à UNIFAP pela oportunidade de ter participado do Top España. Todas as experiências que eu vivi, as pessoas e lugares que conheci, as comidas que provei (e gostei, e detestei), os conhecimentos que adquiri serão levados para o resto da minha vida e, de alguma forma, contribuíram para que eu me tornasse um homem adulto, independente e com uma visão de mundo trezentas vezes ampliada. Foram três semanas que passaram voando, mas que duraram tempo o suficiente para que eu vivesse a melhor experiência da minha vida! Espero um dia poder retornar a Salamanca, especialmente Salamanca, o lugar que tão bem me acolheu e me mostrou que eu ainda posso chegar longe, muito longe, se eu acreditar nos meus sonhos. Como sempre acredito, como sempre acreditei, como sempre acreditarei.
Da viagem para a Espanha
| Em Toledo, a cidade mais incrível que conheci na Espanha depois de Salamanca. |
Fantástica. Incrível. Única. Acho que eu posso definir assim a minha viagem para a Espanha. Eu não imaginava que seria tão incrível. Dos três selecionados, eu fui o único que não tinha viajado para além do Pará. E de uma vez só, conheci São Paulo e a Espanha. Antes de irmos para o país, participamos de uma cerimônia de embarque, na qual deram um kit com mochila, cadernos e afins e muitas instruções. Lá, Luã, Ranielly (os dois outros selecionados da UNIFAP) e eu nos juntamos a outros 80 acadêmicos, professores e colaboradores do Santander em prol dos estudos em espanhol. Ali mesmo eu já havia sentido que seria uma experiência para eu não esquecer nunca mais.
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| Luã, Ranielly e eu - representantes da UNIFAP no Top España 2013.2 |
Passar onze horas dentro de um avião foi traumatizante. Eu rezei para o período na Espanha demorar muito para que eu não tivesse que sentir tudo de novo. Mas quando cheguei, tudo valeu a pena. O aeroporto de Madri é imenso. Quase um bairro de tão grande, tanto que tem metrô para se deslocar entre as plataformas de embarque e desembarque. É surreal. Fomos de ônibus para Salamanca, mas antes de chegar lá ainda fizemos uma parada para almoçar em Ávila, uma cidade pequena e histórica que conserva suas raízes medievais até hoje. É um lugar extremamente frio – arrisco dizer que foi o lugar mais frio que visitei na Espanha. Fazia algo por volta de 2°, 3° quando estávamos por lá, em plenas duas horas da tarde. E pensar que frio em Macapá não é menos de 25°...
Ao chegar a Salamanca, fui tomado por uma alegria sem igual. Já havia reparado na estrada Ávila-Salamanca, mas lá eu tive o verdadeiro choque de que estava na Espanha. Ruas limpas e pavimentadas, com motoristas prudentes e pedestres igualmente respeitosos; uma vegetação bem diferente da nossa, com árvores secas e algumas (poucas) árvores altas e um ar puro, sem poluição excessiva. Assim que desci do ônibus e vi o alojamento, fiquei extremamente aliviado ao perceber que as dependências do Colegio Mayor Hernan Cortés estavam num nível muito além do que eu imaginei. Os “colegios” são moradas universitárias que abrigam os acadêmicos que vem de fora de Salamanca. O nosso, segundo a maioria, era o melhor e mais bem estruturado de todos, porque além do “comedor” universitário, tinha salas para tudo: jogos, televisão, estudos, biblioteca, lavanderia... Era bem grande. Não cheguei a vê-lo todo, mas o que eu pude conhecer do lugar me deixou impressionado. Era inevitável a comparação com o Brasil, em especial com a Unifap, que nem de alojamento dispõe.
Fomos muito bem recebidos em Salamanca. Ainda no dia da nossa chegada, fomos à outra cerimônia de boas vindas pelo pessoal da coordenação dos Cursos Internacionales da Universidade de Salamanca, uma hora depois de nos alojarmos. Lá, recebemos o material do curso, a carteira estudantil da universidade e mais instruções. Ali, comecei a perceber que o espanhol não era um idioma difícil, mas que exigiria bastante de mim. Também comecei a observar os hábitos dos espanhóis e, se há algo do qual eu vou sentir bastante falta deles, esse algo é a pontualidade. Se marcam algo às 20h, às 20h começa. Às vezes, se já estão todos lá antes do horário, eles iniciam o compromisso também. É algo impressionante quando você já está acostumado com o atraso brasileiro. Assim, em meu bilhete das classes constava aula de língua espanhola das 9h às 11h e de conversação e redação das 11h às 12h. Estranhei o horário, mas achei bom logo de cara, uma vez que 9h para mim é um atraso absurdo nas aulas. Ah, e eu também caí em uma turma de nível avançado. Quis trocar, mas preferi assistir a primeira aula para tirar minhas conclusões sobre isso.
Com medo de chegar atrasado, levantei-me às 7h e assim segui para San Boal, o edifício da Universidade de Salamanca que abrigava os cursos internacionais. Rapidamente me arrumei e desci para tomar café. O frio marcava 5° e eu achei que não fosse suportar sair da rua para chegar até a faculdade, mas era mais próximo do que eu imaginava. A priori, tudo parece próximo em Salamanca. Dá para conhecer a cidade toda a pé. Vi pouquíssima necessidade de usar carro, moto ou ônibus (que por sinal são excelentes), mas uma bicicleta seria perfeita (vemos muitas pessoas andando de bicicleta pela cidade). Enfim, para não me demorar muito, saímos em grupo para San Boal e ainda levamos um bom tempo para encontrar (tínhamos estado lá à noite, mas de dia o caminho parecia diferente) o prédio, mas as pessoas, sempre muito solícitas, nos ajudaram a encontrá-lo. E uma vez na sala de aula, faltavam poucos minutos para as nove.
A professora era pontual. Begoña estava ali pontualmente às 9h, pronta para nos ensinar o melhor dela. Era engraçada, teatral e espontânea, além de atrair nossa atenção para assuntos que pareciam difíceis. E ela não era a única estrangeira na sala: além de outros brasileiros (Luã e Ranielly também caíram na mesma turma que eu), havia coreanas e americanas. Mundos extremamente opostos unidos em nome da língua e da cultura espanhola. Foi incrível passar a maior parte dos meus dias em Salamanca ali, com todos. As aulas de Begoña eram de gramática pura, mas também eram cultura: com ela, aprendemos várias coisas sobre os hábitos dos espanhóis. Além do “pluscuamperfecto” e dos “pronombres”, mergulhamos no universo espanhol ali, nas aulas dela. Aliás, não só nas aulas dela, como também nas de conversação e redação. María era um pouco mais séria do que Begoña, mas nos entendemos bem. Aprendemos bastantes coisas úteis acerca dos usos da língua, o que seria útil em diversas ocasiões que provavelmente nos encontraríamos... As aulas foram um show à parte. Estávamos ali por conta do curso e realmente, foi demais. Eu só tinha visto algo bem breve de espanhol no ensino médio, então para mim foi uma experiência sem igual. O contato direto com a língua, com os colegas de outras nacionalidades que me obrigavam a falar espanhol também...
Salamanca se mostrou uma cidade incrível. Conheci a Universidade Antígua, que era onde ocorriam as aulas da Universidade de Salamanca e aquele lugar é fantástico. Hoje, só funciona para visitação, mas percebemos o quão grandiosa é a universidade. Oitocentos anos tornam a universidade de Salamanca a mais antiga da Espanha e uma das mais antigas da Europa, sendo referência no ensino superior para o mundo. Senti-me lisonjeado por poder ter conhecido algo tão importante. Além disso, passei pela Catedral de Salamanca, esplendorosa e imponente com sua construção impecável e repleta de histórias; a Plaza Mayor, sem dúvida meu lugar favorito dali tanto pela beleza quanto pelo valor sentimental: foi o primeiro cartão postal da cidade que visitei. E eu me sentia tão bem ali que não sentia vontade de ir embora, tamanho o aconchego daquele lugar. Tanto de dia quanto à noite, era de uma beleza inigualável. É uma das lembranças mais fortes que tenho de Salamanca. Além disso, tem diversos outros lugares interessantes, como a Ponte Romana, o rio Tormes, o centro comercial que tem de tudo, os bares e restaurantes, a Casa das Conchas, a faculdade de Filologia... São muitos. Se fosse falar de todos, levaria anos para terminar este relato.
| Minúsculo perto da catedral de Salamanca |
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| I FUCKIN LOVE THIS PHOTO |
| À beira do rio Tormes, que atravessa Salamanca. CONGELANDO |
| Ponte Romana e um dos meus lugares favoritos em Salamanca por causa dessa visão ESPETACULAR |
Tinha muitas outras coisas pra falar, mas deixo as imagens falarem por si próprias. Não só Salamanca como Toledo e Madri me mostraram o lugar maravilhoso que é a Espanha. O pouco que conheci me fez ter uma impressão única e positiva do país. Acredito que nunca serei grato o suficiente ao Santander e à UNIFAP pela oportunidade de ter participado do Top España. Todas as experiências que eu vivi, as pessoas e lugares que conheci, as comidas que provei (e gostei, e detestei), os conhecimentos que adquiri serão levados para o resto da minha vida e, de alguma forma, contribuíram para que eu me tornasse um homem adulto, independente e com uma visão de mundo trezentas vezes ampliada. Foram três semanas que passaram voando, mas que duraram tempo o suficiente para que eu vivesse a melhor experiência da minha vida! Espero um dia poder retornar a Salamanca, especialmente Salamanca, o lugar que tão bem me acolheu e me mostrou que eu ainda posso chegar longe, muito longe, se eu acreditar nos meus sonhos. Como sempre acredito, como sempre acreditei, como sempre acreditarei.
domingo, 10 de novembro de 2013
TAG: Hábitos de Leitura
Voltei! E voltei com vídeo bem tal qual pra vocês falando dos meus hábitos de leitura! A TAG foi indicada pela minha amiga maravilhosa e sensual Tailany, do Despindo Estorias, nesse post. Espero que vocês gostem!! E desculpem essa resolução linda demais, eu continuo dependendo do meu celular pra gravar os vídeos. :( Saudades Galaxy Camera, saudades Nikon, saudades riqueza. rss No mais, enjoy it! Até mais!
terça-feira, 5 de novembro de 2013
E aí que eu vou pra Espanha!
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| Pra aumentar, é só clicar (rimou kk). Link do resultado aqui. |
POIS É.
Eu fui de enxerido, como quem não quer nada. Me inscrevi (não me corrijam, sei que o certo é inscrevi-me porque tá no início da frase but whatever) com a certeza de que eu precisava de muito mais do que um histórico bonitinho pra passar. Minhas notas sempre foram boas, isso é bem verdade, mas eu precisava provar que eu não só só acadêmico, mas que participo ativamente da vida universitária. E dá-lhe participação em congresso, seminários, curso de extensão e afins. Quando fui ver, comecei a sonhar. Ainda achava pouco, mas comecei a torcer. Passou um dia, dois dias, três dias. No quarto dia, saiu o resultado. FUI SELECIONADO PRA PARTICIPAR DO TOP ESPANHA!! Caramba, parece um sonho ainda!!! Sei lá, mirei nos lados e acertei no alvo. haha Foi muito inesperado. Ninguém esperava. Muito menos eu. Eu torcia, lógico, porque a gente não se inscreve em nada aleatoriamente. Mas putz, EU VOU PRA ESPANHA. Vocês tem noção disso? Passar quase um mês longe daqui conhecendo um idioma que eu vi vagamente em um semestre no colegial, vivendo direto a experiência com os habitantes de lá, com a cultura espanhola? Caramba, que experiência. Vai ser diferente de tudo que eu já fiz na vida. Só escrevi esse post porque eu acho digno compartilhar com vocês, leitores. Espero postar muito de lá da Espanha também, pro blog virar a ryqueza também porque né. hahaha
No mais, é isso! Putz, estou me tremendo TODO só me lembrar de quando vi o resultado ontem. Espanha, me aguarde bem tal qual porque logo logo estou aí!! Até logo, seus lindos!!
De um rapaz que não sabe NADA de español além desse N com o til em cima,
Tiêgo
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
Library, 5
Na semana seguinte, precisei ir à biblioteca devolver meu exemplar de "Quem Tem Medo do Escuro?". Eu não retornava lá desde que quebrara o óculos do Dimas. Ele tinha marcado de me encontrar lá, depois que ele terminasse a prova de anatomia. Sim, ele era fascinado por livros, atuava em musicais e peças mas fazia medicina. Há controvérsias.
Nesse meio tempo, descobri que Dimas estava prestes a entrar em depressão e que faltava à aula há pelo menos uma semana.
Ele morava sozinho aqui na cidade.
Não tinha amigos próximos senão os colegas de musical.
Tinha se decepcionado com um cara bem antes de mim, pois o rapaz só queria usá-lo. E quando ele se deu conta disso, já era tarde demais e levou um bom tempo para esquecê-lo
Ele disse (ele disse, vejam bem) que assim que me viu entrar com aquela pilha de livros, percebeu que eu era diferente. E que iria atrás de mim mesmo que eu não tivesse derrubado tudo no chão - nunca fiquei tão feliz por ter deixado livros caírem no chão.
Ninguém sabia sobre a sua orientação sexual a não ser eu naquele momento. Eu o entendia perfeitamente, até porque eu já havia passado pela mesma fase e tinha doído exatamente da mesma forma. Ele se sente incompreendido. E eu me senti na obrigação de mostrar a ele que quem deve entendê-lo é ele próprio e mais ninguém. Ele carrega agora a autoaceitação como um mantra.
Descobri ainda que ele escrevia, e muito bem. Seus poemas de amor (declamados ficaram ainda mais belos) eram de uma franqueza e romantismo impressionantes.
E descobri que ele gostava de mim. E que ele acreditava nisso de "gostar" à primeira vista. É estranho pensar que alguém bateu os olhos em você e gostou assim, de cara, mas é um sentimento estranho no bom sentido. Estou nas nuvens, sem brincadeira alguma.
- Alguém está pensando demais - disse a bibliotecária enquanto eu procurava outros livros na estante. - Olhe este, chegou semana passada. Li assim que me foi entregue. "Amor", de um autor desconhecido. É fabuloso. Você deveria ler, é bastante interessante - completou ela, me entregando o volume pequeno do livro. Na capa, a palavra "amor" estava escrita em uma fonte minúscula e vermelha, num fundo branco. Os dizeres "autor desconhecido" abaixo do título me intrigaram. Decidi emprestá-lo.
- Obrigado pela dica. Estou curioso - disse a ela, grato. Como eu não tinha mais aula, decidi me acomodar num dos sofás por ali enquanto Dimas não chegava e comecei a ler "Amor". Era narrado do ponto de vista de um homem de 30 anos que falava que ainda não tinha encontrado o amor. O livro era pequeno, tinha pouco mais de cem páginas. Achei que logo terminaria, por isso iniciei a leitura.
A cada página, uma surpresa. Eu já havia visto aquilo em algum lugar. A inquietação pelo final me fez ler mais e mais e mais e nem reparei no tempo passando nem no entra e sai de gente naquele local. Concluí a leitura com facilidade e fiquei frustrado ao ver que acabou tão rápido. Ao final do livro, o autor dizia a seguinte frase: "eu ainda encontrarei o amor. Nem que seja numa biblioteca."
Dimas me olhava sentado na mesinha em frente, na mesma mesinha onde deixei os livros caírem quando nos encontramos. Sorrindo como sempre, ele fitou a capa do livro e disse, antes que eu pudesse falar algo:
- E eu encontrei o amor. Numa biblioteca.
***
PS¹: o conto saiu todo de um sonho que tive. Escrevi todo no domingo. Sonhei com esse menino de quinta pra sexta e no domingo vi na rua um rapaz que me lembrou na hora o cara com quem eu sonhei. Não é verídico nem nada do tipo! hahahaha
PS²: essa é a última parte, tá? haha
PS³: tenho escrito bastantes coisas nos últimos tempos. Não sei se pretendo publicar tudo, mas com certeza o desejo de blogar voltou com tudo. Tinha esquecido como era bom falar e falar e falar mesmo que esses devaneios malucões. Não tô apaixonado nem gostando de ninguém, mas vai que eu tope com um cara alto, dos cabelos e olhos negros na biblioteca da universidade? hahahaha Até mais!
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
Green Mount, 4
Não havia ninguém ali por perto e um frio percorreu minha espinha. Ele poderia me matar facilmente com um golpe na cabeça, já que eu estava de costas para ele - hoje em dia temos que pensar no pior até nas circunstâncias mais legais. Mas ele me matou mesmo foi de susto.
- Caramba, Dimas, que susto! - disse, espantado. Ele estava mais lindo do que estava no musical, com os cabelos penteados como eu o tinha visto na biblioteca, mas com uma T-shirt quadriculada de preto e branco e uma calça jeans preta, combinando com os olhos e os cabelos. No rosto, para a minha surpresa, estavam óculos novinhos em folha. Ele riu ao ver minha expressão ao reparar no acessório.
- Eu tenho mais dois reservas. Vivo perdendo todos porque de vez em quando a miopia ataca nos ensaios do musical, aí eu preciso usar, infelizmente. Não é charminho nem nada do tipo não, viu? - ele disse, com um sorrisão no rosto.
- Eu percebi. Você quase caiu ontem ao descer as escadas da biblioteca, lembra? - recordei o fato que o fez explodir em gargalhadas.
- Não precisava lembrar! Minha visão é boa para o dia-a-dia, mas como eu disse, tem horas que sinto como se tudo embaçasse. Aí preciso dos olhos extras - completou, rindo.
- Eu acho legal. Acho bonito - não sei de onde saiu a coragem pra falar isso. Ele ficou vermelho.
- Você me chamou de bonito? - perguntou, sério.
- Se você entendeu desse jeito, sim. - estava decidido. Eu já não me importava mais com nada.
- Obrigado.
Silêncio.
- E obrigado de novo, por ter ido ao musical - disse, recuperando o tom natural do rosto. Comecei a metralhá-lo de perguntas.
- E por que você não me disse que ia atuar? Por que me chamou até aqui? Por que me intimou para o café? Por que não me...
Dimas não me deixou terminar. Um beijo tão profundo e sincero me calou a boca com voracidade.
Correspondi, lógico, porque eu esperava por aquilo desde o primeiro momento em que olhei para aquele rapaz. Só não esperava que um: seria correspondido e dois: que aconteceria tão rápido. Enquanto nossos lábios não tinham a menor pretensão de se soltarem, mil e um pensamentos se passavam pela minha cabeça. E tudo o que eu menos queria era ficar longe dele. Queria ouvi-lo cantar, falar sobre o musical, sobre os livros que gosta de ler, sobre o que mais faz da vida. Sobre o que pretende fazer, os filmes que gosta de ver, as angústias e as tensões que passam pela cabeça dele. Eu queria o Dimas como eu nunca quis cara nenhum.
E ele estava ali, bem na minha frente, beijando-me os lábios com o desejo que tomou conta de mim durante esse tempo todo (grande tempo, dois dias).
Ele abriu os olhos e eu permaneci com os meus fechados. Dimas sorriu e perguntou, bem baixinho:
- Por que não abre os olhos?
- Porque é um sonho. E eu estou com medo de acordar.
- Abra os olhos.
Abri.
- Fecha os olhos.
Fechei.
- Abra de novo, Tiêgo.
Abri.
- É real - Ele me beijou de novo, só que bem mais rápido dessa vez. - E acho que era de você que eu estava precisando.
- Você parece um sonho.
- Mas eu não sou. E parece mentira que alguém tenha se interessado por mim - disse ele, deixando-me surpreso. Eu definitivamente acho que ele faz bem o tipo da maioria das pessoas. Ele é bonito. Eu é que não me sentia "à altura" dele.
- Você é lindo. Para com isso - disse. - E eu acho que você deve responder às minhas perguntas, porque eu detesto ficar sem respostas.
- Precisa ser agora? - perguntou ele, ranzinza. Até daquele jeito ele ficava lindo.
- Depende. Por que da pergunta?
- Porque eu quero ocupar a minha boca com outras coisas agora.
- Agora?
Seus lábios encontraram os meus novamente. E de novo, e de novo...
terça-feira, 22 de outubro de 2013
Musical, 3
Eu amava musicais, mas nunca tinha escutado falar de A Chorus Line. Pode parecer negligência, mas só depois fui olhar no Google sobre o espetáculo.
Às sete horas da noite, pontualmente, eu estava lá. O Teatro Municipal era lindo. Eu me culpava por só ter ido lá uma vez, mas já tinha me prometido que iria mais vezes, pois produções culturais legais aconteciam ali o tempo todo e eu não ia porque era um bocó.
Achei que seria grosseria de minha parte entrar sem esperar o Dimas. Sentei num dos banquinhos de mármore espalhados pela entrada e aguardei. Passaram dez minutos e o espetáculo estava prestes a começar e eu não sabia o que fazer. Decidi entrar, para não dizer que a noite tinha sido em vão. Já estava meio assim, mas entreguei o ticket à moça que ficava na recepção, ela me desejou um bom espetáculo e só o que eu queria era um bom Dimas do meu lado. Ou um Américo, não sei. Agradeci a ela e entrei.
Tinha gente até não querer mais. Ainda consegui sentar na sétima fileira, e havia uma cadeira vaga do meu lado esquerdo, ao lado do corredor. Imediatamente após me acomodar na cadeira, as cortinas se abriram.
Assisti atento a cada passo dado pelos atores. No terceiro ato, eu já tinha até esquecido porque estava ali quando Dimas surge dançando sapateado e cantando, enquanto os demais cantavam. Senti todos os pelos dos meus braços se arrepiarem. Volta e meia eles desciam do palco e Dimas veio em minha direção, dançando em uma perfeita sincronia com os colegas atores. Eu não parava de sorrir. Ele deixou cair um papelzinho enrolado na cadeira vazia ao meu lado e piscou, enquanto retornava para o palco antes do número terminar. Apanhei-o, mas só o abri no final do espetáculo. Dimas retornou muitas vezes para o palco, atuando, dançando e me emocionando. A Chorus Line era um musical sobre a diversidade, pude bem notar isso. Todos bastante talentosos numa harmonia incrível. Eu era só sorrisos no último ato, que segundo uma mocinha do meu lado, se chamava "One". Todos cantaram juntos e era uma quantidade impressionante de gente naquele palco. Não cheguei a contar, mas acho que tinha mais de cinquenta pessoas. Dimas estava na fileira principal, com outros dez atores e atrizes. Ao encerrarem a canção, a plateia toda aplaudiu de pé, emocionada com o esforço e dedicação de cada um. Dimas sorriu para mim antes de ir para o backstage e só então abri o papel para ler o que estava escrito numa caligrafia impecável:
- "Obrigado por ter vindo. A lua está linda hoje. Se você for do time dos amantes dela, o musical termina às dez. Vou te esperar no Morro Verde, você sabe onde é. Se não, vai ser perfeitamente compreensível. Até! Dimas."
Eu fiquei sem reação. O Morro Verde era um ponto de encontro de casais.
segunda-feira, 21 de outubro de 2013
Coffee, 2
- Cappuccino. É. Dois. - pedi ao garçom.
Eu adorava cappuccino. Ele também parecia gostar, pois aguardava ansioso, mais do que eu até. E era eu para estar, pois me sentia culpado demais por ter sido o culpado pela quebra dos óculos dele.
- Eu costumo tomar café aqui todos os dias nesse horário. Leio praticamente a tarde toda, se não fosse por isso - ele disse, escolhendo uma mesa bem distante de onde as demais pessoas estavam sentadas.
Caminhamos em silêncio da biblioteca até a cantina e parecia que eu continuava sem forças para falar. Sei lá que diabos tinha acontecido comigo; eu definitivamente não era daquele jeito. Mas o menino me deixava daquela forma. Só me restava continuar jogando o mesmo jogo que ele queria jogar, por mais que eu não fizesse ideia de como fazer isso.
- Eu trabalho à tarde - comecei, criando um pouquinho de coragem. - Trabalho numa creche, com crianças entre quatro e seis anos.
- Deve ser complicado, estou certo? - ele perguntou, rindo. Aquela risada me desconcertava, porque eu não sabia o que pensar.
- É. Você está certo. Eu realmente gostaria de trabalhar numa biblioteca, ou em algo que envolva livros. Sou fascinado.
Ele ia começar a falar, mas o garçom interrompeu e disse, colocando as xícaras sobre a mesa:
- Dois cappuccinos. Mais alguma coisa?
- Não, obrigado - ele disse. Eu assenti e o senhor de meia-idade se retirou.
- Eu também gostaria. Aqui mesmo na universidade já seria legal - ele continuou a conversa. Eu achava que ele nem ia mais ligar para nada disso e eu não estava entendendo nada.
- Seria um bom começo. Acho que eu também gostaria.
Tomamos ao mesmo tempo um bom gole do café. E realmente estava delicioso.
- Incrível, como sempre - comentou. - Você não acha, Tiêgo?
Fiquei com cara de tacho. Todas as vezes em que ele chamou meu nome eu fiquei com cara de tacho, mas naquela vez foi pior.
- Américo. É isso que você quer saber, não é? Meu nome?
Senti um arrepio percorrer a minha espinha. Ele lia mentes ou coisa do tipo?
- Ainda bem que você sabe - disse, cheio de coragem. - Eu já estava apreensivo com você me chamando pelo nome e eu evitando construir frases que tivessem que inserir o seu nome.
- Você fala bonito. Eu acho que nunca falei na minha vida que ia "construir frases". - ele observou, rindo. Acho que da minha cara de tacho, mas enfim.
- Ah, já até me habituei a falar assim, Américo. - frisei o nome dele. E ele percebeu.
- Ó, de novo você falou difícil. Eu geralmente me acostumo a fazer algo. Você se habitua. É estranho de um modo legal. - Ele me fez parecer uma gramática daquelas bem grandes. - Ah, e não precisa frisar meu nome da próxima vez.
- Ok, paremos. Estou me sentindo um alienígena - ele começou a rir. Eu tomei mais um gole do café e ele me olhou fazer isso. Confesso que por um mínimo segundo eu me senti desejado, mas foi só por um segundo. Em seguida, ele recomeçou a falar, movimentando a colherzinha em círculos na xícara de cappuccino.
- Meus amigos me chamam de Dimas. Não tem nada a ver com Américo, antes que você me pergunte, mas é porque eu pareço muito com meu pai e o nome dele é Dimas. Prefiro que você me chame assim. - confessou.
- Certo, Américo - brinquei e sorri, já sentindo a tensão eliminada na mesma hora. A excitação ao olhar naqueles olhos pretos ainda persistia e eu ainda estava tentando entender como eu tinha ido parar ali. Só tinha certeza de que estava adorando aquilo tudo e que eu precisava me controlar para não afugentar o Dimas, porque algo me dizia que não acabaria ali.
- Se quiser me chamar assim, chame. Acho que não vou me importar.
Meu coração gelou de novo. Tomei mais um gole de café para ver se melhorava.
- Era brincadeira, Dimas. E antes que eu esqueça, preciso saber quanto custou o seu óculos. Não vou me perdoar se eu não te devolver outro - engatei a conversa, já com medo de me perder no nervosismo.
- De forma alguma. Você vai pagar o cappuccino. Já está de bom tamanho - decretou. - Aliás, tem uma coisa sim que você pode fazer por mim.
- O quê? - perguntei, tenso.
- Me fazendo companhia amanhã à noite. Você gosta de musicais?
Wow. Eu amava musicais, mas se ele me pedisse para eu ir num show de rock pauleira era bem capaz de eu aceitar na hora.
- Muito! Por que?
- Eu comprei dois ingressos para assistir A Chorus Line - O Remake - o inglês desse rapaz era perfeito. Senti vergonha. - A produção é local e eu acho que vai ser legal! É difícil ver algo do tipo por aqui, e não queria perder a oportunidade. Você topa ir comigo?
- Com certeza! Onde e que horas? - confirmei, nitidamente excitado (em todos os sentidos, confesso).
- Às sete, no Teatro Municipal - disse ele, puxando da carteira um ticket de entrada para o musical e me entregando. Ele tomou um último gole antes de acabar a xícara de cappuccino e prosseguir: - Acho que não vou me arrepender disso. E eu sei que você mal me conhece e tal, mas eu consigo ver em você algo que eu não vejo na maioria dos caras: sensibilidade.
Para quem mal tinha me visto uns vinte minutos, acho que ele já tinha feito uma análise completa sobre a minha vida.
- Nem sei o que dizer.
- Não diga. Amanhã, sete horas, Teatro Municipal. Até! - disse, apertando a minha mão e saindo apressado em direção a saída. Murmurei um "tchau, Dimas", mas acho que ele não ouviu. Mas não fazia mal. Eu teria uma noite toda para dizer um pouco mais do que "tchau, Dimas".
Tomei meu último gole de cappuccino, paguei a conta e, caminhando de volta para casa, me peguei afagando minha mão direita, apertada por aquele cara alto, dos cabelos negros e de um enigma indecifrável no olhar.
domingo, 20 de outubro de 2013
Glasses, 1
Engraçado enxergar a situação sobre outro ponto de vista.
Ele era alto, pouco mais do que eu. Tinha os cabelos negros (nem tão negros quanto a asa da graúna, mas era quase isso), lisos e brilhantes. Tinha os olhos igualmente negros e grandes que, assim que me fitaram, me fizeram gelar. O rosto era fino, marcado por traços fortes. Branco (do tipo tocou avermelhou, sabe?). E no final, para eu não esquecer mais, ele usava óculos de grau. Eu era fascinado por pessoas que usavam óculos de grau, e quando eu enxergava um cara daqueles, numa biblioteca, sozinho e parecendo atento à leitura que fazia, nem acreditava. Eu costumava ir ali com frequência e o teria notado com facilidade se o tivesse visto, mas ele era novo. Ah, se era.
Particularmente, eu achava uma palhaçada isso de olhar pra alguém e se excitar na mesma hora. Mas foi bem isso que aconteceu. Desastrado como sempre, fui patetar olhando para o rapaz, o olhar dele finalmente se encontrou com o meu e pá, deixo derrubar uma penca de livros que tinha emprestado na semana passada. Ele riu, mas não vacilou: ofereceu ajuda. Eu ri junto, lógico, não ia perder o rebolado, mas ninguém fazia ideia do frisson que acontecia dentro de mim. Aceitei e agradeci. Ele recolheu os livros que estavam mais perto dele e eu recolhi os que caíram sobre a mesa de madeira que ficava sempre próxima da entrada. Ao me entregar, ele tocou minhas mãos involuntariamente ao me devolver os livros e comentou:
- Também gosto bastante de Sidney Sheldon - e riu mais uma vez, apontando para os títulos que fez questão de deixar em cima da pilha.
- É meu escritor favorito - eu observei, tentando não tremer nem deixar os livros escorregarem. Eu fiz menção de me dirigir à bibliotecária, quando ele olhou para perto da mesa onde deixei cair alguns livros e viu mais um jogado no chão. Eu realmente estava balançado, porque para eu não ter percebido que esqueci um livro largado no chão... Ele me disse para esperar e foi justo quando olhei para baixo e vi o volume minúsculo de "O Conto dos Dez Negrinhos" espatifado próximo ao pé da mesa. Nós nos abaixamos ao mesmo tempo e nos demos de encontro com as cabeças. Os óculos voaram do rosto dele e se quebraram ao tocar o chão. Ele riu de novo (eu ainda tentava me recuperar da pancada na cabeça e já me preparava para ouvir um palavrão do rapaz) e me surpreendeu, dizendo:
- Esse durou três meses. Acho que temos um recorde. - e me devolveu o exemplar. Deixei os livros sobre a mesa, apanhei o óculos dele e avaliei o estrago, como se fosse o maior entendido do assunto.
- Acho que eu te devo um óculos novo. Não dá para salvar nada daqui, cara.
- Você me paga um café e estamos conversados, Tiêgo - ele intimou, lendo o meu nome no cartão de empréstimo do livro que tinha se soltado na queda dos volumes. Fiquei vermelho, nervoso que só vendo. Pedi a ele que esperasse até eu devolver os livros. Ele assentiu. Entreguei os livros para a bibliotecária, renovando somente o empréstimo de "Quem Tem Medo do Escuro?". O menino ria, parecia nem ter se abalado com a quebra dos óculos. Ao retornar ao lugar onde ele estava, o rapaz fechou o enorme livro que analisava criteriosamente, mas não consegui entender sobre o que era. Ele devolveu o exemplar à pasta que carregava e me disse:
- Às vezes é duro gostar de ler. Meus olhos que o digam - completou, me olhando. Os olhos estavam lacrimejantes, como se ele tivesse chorado bastante antes de vir falar comigo.
- Dá para perceber. Seus olhos estão vermelhos - observei.
- Sempre ficam assim. Ignora, Tiêgo.
- Certo, ignorados. Cantina, então? - eu ainda estava nervoso demais para perguntar o nome dele. E eu me sentia em desvantagem por ele saber o meu.
- Cantina. O café das cinco horas é o melhor de todos.
- Eu também acho.
E saímos da biblioteca. Como se nada tivesse acontecido.
Ele era alto, pouco mais do que eu. Tinha os cabelos negros (nem tão negros quanto a asa da graúna, mas era quase isso), lisos e brilhantes. Tinha os olhos igualmente negros e grandes que, assim que me fitaram, me fizeram gelar. O rosto era fino, marcado por traços fortes. Branco (do tipo tocou avermelhou, sabe?). E no final, para eu não esquecer mais, ele usava óculos de grau. Eu era fascinado por pessoas que usavam óculos de grau, e quando eu enxergava um cara daqueles, numa biblioteca, sozinho e parecendo atento à leitura que fazia, nem acreditava. Eu costumava ir ali com frequência e o teria notado com facilidade se o tivesse visto, mas ele era novo. Ah, se era.
Particularmente, eu achava uma palhaçada isso de olhar pra alguém e se excitar na mesma hora. Mas foi bem isso que aconteceu. Desastrado como sempre, fui patetar olhando para o rapaz, o olhar dele finalmente se encontrou com o meu e pá, deixo derrubar uma penca de livros que tinha emprestado na semana passada. Ele riu, mas não vacilou: ofereceu ajuda. Eu ri junto, lógico, não ia perder o rebolado, mas ninguém fazia ideia do frisson que acontecia dentro de mim. Aceitei e agradeci. Ele recolheu os livros que estavam mais perto dele e eu recolhi os que caíram sobre a mesa de madeira que ficava sempre próxima da entrada. Ao me entregar, ele tocou minhas mãos involuntariamente ao me devolver os livros e comentou:
- Também gosto bastante de Sidney Sheldon - e riu mais uma vez, apontando para os títulos que fez questão de deixar em cima da pilha.
- É meu escritor favorito - eu observei, tentando não tremer nem deixar os livros escorregarem. Eu fiz menção de me dirigir à bibliotecária, quando ele olhou para perto da mesa onde deixei cair alguns livros e viu mais um jogado no chão. Eu realmente estava balançado, porque para eu não ter percebido que esqueci um livro largado no chão... Ele me disse para esperar e foi justo quando olhei para baixo e vi o volume minúsculo de "O Conto dos Dez Negrinhos" espatifado próximo ao pé da mesa. Nós nos abaixamos ao mesmo tempo e nos demos de encontro com as cabeças. Os óculos voaram do rosto dele e se quebraram ao tocar o chão. Ele riu de novo (eu ainda tentava me recuperar da pancada na cabeça e já me preparava para ouvir um palavrão do rapaz) e me surpreendeu, dizendo:
- Esse durou três meses. Acho que temos um recorde. - e me devolveu o exemplar. Deixei os livros sobre a mesa, apanhei o óculos dele e avaliei o estrago, como se fosse o maior entendido do assunto.
- Acho que eu te devo um óculos novo. Não dá para salvar nada daqui, cara.
- Você me paga um café e estamos conversados, Tiêgo - ele intimou, lendo o meu nome no cartão de empréstimo do livro que tinha se soltado na queda dos volumes. Fiquei vermelho, nervoso que só vendo. Pedi a ele que esperasse até eu devolver os livros. Ele assentiu. Entreguei os livros para a bibliotecária, renovando somente o empréstimo de "Quem Tem Medo do Escuro?". O menino ria, parecia nem ter se abalado com a quebra dos óculos. Ao retornar ao lugar onde ele estava, o rapaz fechou o enorme livro que analisava criteriosamente, mas não consegui entender sobre o que era. Ele devolveu o exemplar à pasta que carregava e me disse:
- Às vezes é duro gostar de ler. Meus olhos que o digam - completou, me olhando. Os olhos estavam lacrimejantes, como se ele tivesse chorado bastante antes de vir falar comigo.
- Dá para perceber. Seus olhos estão vermelhos - observei.
- Sempre ficam assim. Ignora, Tiêgo.
- Certo, ignorados. Cantina, então? - eu ainda estava nervoso demais para perguntar o nome dele. E eu me sentia em desvantagem por ele saber o meu.
- Cantina. O café das cinco horas é o melhor de todos.
- Eu também acho.
E saímos da biblioteca. Como se nada tivesse acontecido.
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