sexta-feira, 28 de maio de 2010

Companhias, companhias, julgamentos à parte.

Não serei hipócrita em não afirmar que já julguei o outro pelas companhias dele porque eu já fiz isso sim, algumas vezes, irracionalmente. Só que esse meu senso crítico me fez parar pra pensar quando olhei para mim próprio.O Tiêgo é a pessoa mais social que você possa imaginar: faço companhia a todo tipo de pessoa, do nerd ao punk, passando pelas patricinhas e pelos revoltados. Eu julgava as pessoas pelas companhias delas e não me dava conta de que eu poderia ser o alvo dos comentários alheios por aconselhar a patricinha, trocar ideia com o nerd ou falar abobrinhas com os revoltados. Nunca parei pra avaliar a minha posição para os demais. E foi quando aconteceu aquela discussão que me fez conhecer a diretoria e a fúria dos meus pais, na tarde do dia 23 de agosto de 2006 - sim, eu lembro até hoje.


O professor de ciências havia acabado de chegar na escola e como todo professor novo - e bonito -, causou a histeria das meninas. O grupo com o qual havia me unido naquela época começara a desfiar críticas a respeito daquelas meninas tão alvoroçadas. Eu, além de ouvir, falava junto e colocava ainda mais lenha na fogueira. Até então, seria só mais um de nossos momentos gossip. Se não fosse a Júlia, a maior fofoqueira do colégio, ter escutado justamente a parte em que as meninas falavam da Ângela, a garota "evangélica e santa" da nossa classe, que era a que mais arrastava asa pro professor.A língua venenosa e ardente de ódio por mim da Júlia desatou a contar detalhe por detalhe do que eu, exclusivamente eu, tinha dito. Pronto, a guerra tinha começado. Ameaças, brincadeiras de mau gosto e agressões morais infernizaram-me durante todo o resto do dia. A Ângela e as amigas dela resolveram executar o grand finale com a tradicional vergonha alheia do ano: a queda. E eu não tinha ideia do porquê daquelas alfinetadas delas só para o meu lado. No fim da aula, elas me pregaram uma peça nada legal: com o chão liso propositalmente, acabei deslizando e batendo o braço com força no chão e os joelhos no último degrau da escada. Isso tudo na frente de toda a escola! Todos riam descontroladamente e eu só me recordo da Sâmia, minha melhor amiga, ter me levantado rápido e dizer:


- "Pois quem procura, acha."


E ela voou na Ângela, que chamou suas "amigas" para ajudá-la. Elas, num ato covarde e medíocre, riram amarelo e saíram dali. Com o braço ainda todo dolorido e os joelhos ralados, dei um jeito de fazer a Sâmia parar, mas a Ângela já estava machucada o suficiente pra Sâmia ganhar uma suspensão. Os demais alunos assistiam, incrédulos, a cena. O carinha mais bem comportado do colégio e as garotas mais tranquilas de toda a turma 825 ali, passando por aquele constrangimento. Mas o fato de eu andar com as garotas não fez com que o meu caráter e a minha dignidade fossem alterados. Além do que eu era perto deles e delas, existia um "eu" livre de qualquer crítica e com uma personalidade única. Mas, naquela momento, eu era o fofoqueiro.Por andar com aquelas garotas, virei fofoqueiro pros demais. E isso me abalou, profundamente.


No fim da história, o inspetor de disciplina levou os três para a diretoria e ganhamos um belo sermão da diretora. A Ângela pegou três dias de suspensão e a Sâmia, só um. Eu levei uma advertência pra casa e uma lição que jamais esquecerei: sempre tomar muito cuidado com quem você anda ou fala. Você não percebe, mas os olhos das outras pessoas são carregados de malícia e de um senso crítico, exatamente como eram os meus olhos naquele tempo.


Hoje, posso afirmar que não vejo mais as pessoas pelas suas companhias. Tanto que, se eu fosse selecionar meus amigos, eu estaria desolado! "Diga-me com quem andas que eu te direi quem és" é só mais um clichê, daqueles que passam de boca em boca e que já perdeu o significado.


Ah, quer saber o que aconteceu com a principal causadora da confusão, a Júlia? Alguém a entregou, dizendo que ela tinha sido a autora de toda a confusão. E como não era a primeira nem a segunda vez que ela se metia em encrencas, ela foi  expulsa da escola. Foi a consequência que ela teve que arcar por ver maldade onde não existia e, pior,por construir uma imagem totalmente errada de mim pelas minhas companhias. Afinal, quem faz o que quer, ganha o que não quer e isso é fato.






Pauta para o Blorkutando - 86ª Semana : Posso te dizer quem és?

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