- Olá, querida Anne.
E mais uma vez eu me encontrava sozinha com Conrad naquele salão.
Ele era um verdadeiro gentleman: abria a porta para que eu pudesse atravessar, se ajoelhava e beijava minhas mãos quando me encontrava e fazia de tudo para que eu me sentisse confortável em sua presença. Quando ele me envolvia em seus braços, eu sentia a melhor sensação de segurança do mundo. A sua presença era mágica e me confortava de tal forma que eu não sabia mais como me manter longe dele por muito tempo sem sentir sua imensurável falta.
Já vínhamos nos relacionando há praticamente um ano. Lembro perfeitamente quando ele apareceu em minha vida no dia primeiro de novembro de 2011. Usava um terno branco e sapatos sociais pretos, além de um chapéu no maior estilo anos 20. Parecia um pouco triste quando o vi, mas creio que tenha sido só impressão, pois logo depois de encará-lo, ele se transformou em outra pessoa. Não sei bem o que meu olhar possui de tão chamativo, mas ele faz questão de elogiá-lo todas as vezes em que nos encontramos. Ah, e um detalhe: Conrad nunca me via na frente de pessoas. E eu também só o via quando estávamos sozinhos. Certa vez, comentei este fato com ele e eu praticamente vi o sangue fugir de seu rosto. Ele ficou estranho, porém apenas se justificou dizendo que preferia lembrar de nossos momentos juntos à sós. Desde então, não pensei mais nisso.
Até aquela noite chegar.
Estávamos prestes a completar um ano de namoro e eu me mostrava radiante por isso. Todos notavam a minha felicidade de longe e sempre perguntavam o motivo. Brincando, respondia que o meu motivo não era visível aos olhos dos demais - chamavam-me de maluca por isso, mas o que eu poderia fazer se era verdade? Ignorava, pois sabia que ao ficar sozinha, Conrad apareceria e me faria feliz como em todas as outras vezes que nos víamos. E aquela noite de Halloween seria mais uma noite para me deixar suspirante ao ser envolvida pelos braços de Conrad e beijada por aqueles lábios vermelhos e macios.
O salão de festas do colégio foi tomado pelos estudantes e seus convidados. Geralmente não há tantas pessoas assim e eu até preferia antes, sem tanto tumulto. E justo naquela noite, a noite na qual Conrad e eu comemoraríamos um ano juntos, havia mais pessoas do que o normal. Engraçado, parecia proposital. Obra do destino, como minha mãe costuma falar. Apesar de ter limite de horário, a festa de Halloween parecia encher cada vez mais e mais e eu me desesperava na mesma medida, pois Conrad fizera uma estranha exigência dois dias atrás, quando nos vimos na saída do colégio: disse que queria me ver vestida de noiva, com uma flor vermelha presa num coque nos cabelos e no centro do salão de festas, uma hora da manhã. Meia noite e meia a festa terminaria. Acreditava que ele queria me ver de noiva por conta do desejo incontrolável dele de casar comigo, mesmo sabendo que eu não aceito bem a ideia e que eu só tenho dezessete anos. Mas decidi jogar seu jogo, para ver até onde ele iria com essa sucessão de desejos estranhos.
Vesti-me com o vestido de noiva de minha irmã mais velha, arrumei-me toda e, às onze horas, fui para a festa acompanhada de uma amiga. Ela notou que eu aparentava estar nervosa, mas logo dei um jeito de reverter a situação a meu favor. Ninguém sabia do meu namoro com o Conrad e eu não pretendia contar antes de completarmos um ano - o que estava prestes a acontecer. Ele também não pretendia ser apresentado à minha família antes de termos firmado um bom tempo de compromisso, então juntamos as ideias e entramos num acordo: com um ano de namoro, assumiríamos publicamente nossa relação. E assim, foram se passando os meses até chegarmos em outubro. Final de outubro, véspera de nosso primeiro ano de namoro.
Demorou um bom tempo até eu me encontrar sozinha no salão de eventos do colégio. Faltavam quinze minutos para uma hora da madrugada e eu começava a ficar com medo, ainda mais depois de ter visto tantas fantasias bizarras naquela festa. Achei um cadeira próxima ao banheiro, carreguei-a até o centro do salão e esperei Conrad aparecer. A brisa gelada da noite envolvia meu corpo de tal forma que por várias vezes me peguei arrepiada. O tempo se arrastava. Eu ficava cada vez mais apreensiva. Quatorze minutos. Doze minutos. Dez minutos. Sete minutos.
Faltando um minuto para uma da manhã, levantei-me da cadeira e comecei a olhar em volta. Não via nada e só sentia um silêncio mortificante, capaz de assustar qualquer um. Conrad levaria uma bronca quando ele aparecesse.
Fiquei de costas para a cadeira por dois segundos para olhar para fora do salão de eventos quando fui surpreendida por aquela voz extremamente rouca e nada familiar vinda de trás de mim:
- Olá, querida Anne.
Cada osso do meu corpo paralisou.
- Não reconhece a minha voz, minha amada?
Eu me recusava a olhar. Sabia que eu não deveria. O Conrad que eu esperava tinha a voz macia e envolvente e não aquele mau agouro carregado em cada palavra proferida.
- Veio exatamente como eu lhe pedi para vir. Vestida de noiva, com a flor presa num coque no cabelo. Ainda se recusa a acreditar que sou eu, doce Anne?
Era Conrad. Mas não era Conrad. Senti um ar gelado próximo à minha nuca e aquela sensação foi o ápice para que minhas pernas criassem forças para se moverem dali. Dei passos largos em direção à saída e, quando constatei, já estava correndo como uma verdadeira maratonista. A voz agourante daquilo soltou uma grande gargalhada e completou, confiante:
- Experimente destrancar o portão principal. Você terá uma bela surpresa.
Desesperada e me recusando completamente a olhar para Conrad, alcancei o portão principal e, ao puxar as travas de ferro, senti como se tivesse levado um soco carregado de mil volts no estômago. Voei com o impacto da pancada e, ainda consciente, tentava entender o que havia acontecido. E em atorreflexo, tentei me levantar e não olhei para a frente.
Conrad estava bem na minha frente. Olhando-me desejoso, como se eu fosse a coisa mais valiosa desse mundo. Ele não era o Conrad, meu namorado. Era uma figura medonha, com o rosto distorcido e com asas negras, quebradas e manchadas de algo branco. A boca era imensa e com presas ainda maiores. Nas maçãs do rosto, cicatrizes grandes marcavam aquela face tenebrosa. E o que mais me assustava, no lugar dos olhos haviam fendas profundas e negras. Não havia nada naqueles buracos, mas eles me fitavam diretamente, como se existisse um globo ocular ali. Eu estava prestes a demaiar quando Conrad se agachou à minha frente, murmurou algumas palavras e se levantou em silêncio. Ele não desgrudava as fendas dos olhos de mim. Eu, sem reação, olhava para ele e tentava descobrir o que havia acontecido com o meu namorado. E apelando para isso, comecei a falar:
- Nada do que passamos juntos significou para você? Eu te amava e você era o homem da minha vida!
- Silêncio. É só o que eu lhe peço, Annelise.
Pela primeira vez, ele me chamava pelo nome completo. Aquilo me deixou ainda mais nervosa. Ele sussurrou mais algumas palavras e, ao proferir a última, ele sorriu. Congelei com o ato. E congelei ainda mais ao perceber que um triângulo aparecera no chão e nós estávamos em duas pontas. Ele continuava me olhando, sem dizer absolutamente nada e assim ele permaneceu por vários minutos, até que comecei a notar meu corpo aquecendo. Eu ardia e meu corpo todo estava dolorido, mais do que já estava. Gritei alto de dor e Conrad parecia se divertir com o que acontecia.
A dor me fizera perder os sentidos aos poucos. Pelo pouco que pude perceber, na outra extremidade do triângulo surgia uma outra garota, idêntica a mim. Com os mesmos trajes, com o mesmo penteado, mesmos olhos, tudo. Era uma cópia minha. A menina brotava do chão como se fosse uma árvore e emitia uma luz muito forte e eu já não aguentava mais de dor quando Conrad, que já não era mais aquela criatura bestial e sim o Conrad com quem vivi uma história de amor por um ano, sai da sua ponta do triângulo, beija a minha testa e puxa a flor presa no coque em meu cabelo, dizendo:
- Bons sonhos, Anne.
E, instantaneamente, fui abraçada pela inconsciência. Para sempre.
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
domingo, 28 de outubro de 2012
In. Love.
No último post, eu ainda não estava totalmente in nessa paixão. Mas parece que após um estalo, acordei para a vida e vi que não posso mais deixar oportunidades de ser feliz escorrerem assim, fácil, pelos meus dedos. Deixei medo, receios, angústias de lado e resolvi me jogar em um romance que não cansa de me surpreender. Eu não poderia ter encontrado uma pessoa mais incrível, linda e sensacional, capaz de me completar de uma forma que eu não consigo explicar.
Assim como coloquei ali na legenda da foto do post, sinto-me exatamente como o David. Não me lembro de já ter pensado em casar um dia, ter filhos, um lugar pra morar só com meu amor ou essas coisas de comercial de margarina. Mas agora eu me pego pagando por tudo o que falei. Já não me vejo mais seguindo meu caminho sozinho no futuro. Não sei se com vocês já aconteceu de pensar num destino sem estar acompanhado. Isso vivia passando pela minha cabeça, inclusive até algumas semanas atrás eu só queria ganhar meu próprio dinheiro, pagar minhas próprias coisas, ter minha própria casa e viver num lugar onde eu pudesse ser feliz de verdade. E do nada, como se eu tivesse sei lá, tomado alguma coisa, vem essa paixão entorpecedora e me faz engolir todos esses pensamentos egoístas. Nesse momento, me vejo compartilhando uma casa com meu companheiro em qualquer lugar, onde seríamos felizes e nos amaríamos cada dia mais e mais. Eu me vejo não casando com uma aliança no dedo e festa de virar a noite, mas vivendo junto com ele, tendo filhos lindos e acreditando que a felicidade existe, mesmo com tanta controvérsia no mundo me fazendo achar que não.
Entenderam o que eu digo sobre gostar de alguém e mudar certas coisas? É bem isso. E não é só imaginar coisas que eu nunca imaginei antes. Vai muito além disso! Por conta desse amor, eu não consigo mais pensar só em mim. Sinto-me mais solidário comigo mesmo. Estou me permitindo viver, como nunca me permiti antes. Estou flutuando com os pés no chão. É diferente, é algo que eu nunca vivi antes. É tão forte, tão intenso que eu me pego pensando nele vinte e quatro horas por dia. E eu não sou de me apegar desse jeito, nunca fui. E eis que me pego no flagra, mudando meus conceitos e o melhor de tudo, aceitando essa mudança de braços abertos. O amor faz a gente enxergar tudo diferente! Só ele é capaz disso. Só ele.
Já não sou mais o mesmo. Minhas mãos estão suadas e trêmulas, só de ouvir a voz do amor da minha vida. Eu sorrio só de ouvir a risada mais gostosa desse mundo. A satisfação é plena quando encaro aqueles olhos que me fazem sonhar. Só o toque das mãos dele nas minhas faz todas as minhas terminações nervosas ficarem ainda mais nervosas. Tudo ficou mais simples. E mais lindo. E eu queria expressar minha plena felicidade por ter conseguido tecer poucos, porém sinceros comentários sobre esse sentimento que está me transformando e me mostrando que a vida é muito mais do que só estudos, só trabalho ou só lazer.
Eu me sinto vivo, como não me sentia há tempos. Obrigado, amor, por me proporcionar essa sensação indescritível. Sou o cara mais feliz do mundo!
sábado, 13 de outubro de 2012
Coração, ah, coração!
Há alguns meses atrás, eu quebrei a cara bem feio no amor. Achei que estava no caminho certo, que não estava me enganando ao seguir o que meu coração dizia. Mas me enganei, quebrei a cara como já disse e no final das contas, fiquei de coração partido por um bom tempo, jurando que se houvesse uma próxima vez eu não seria tão bocó quanto fui da última. E que não cederia tão fácil ao que meu coração estivesse indicando.
Pois bem, passou-se o tempo e com ele, fui esquecendo da dor. Voltaram as aulas, minha rotina louca de segunda à sexta e záz. Em meio a tanta correria, resolvi deixar meus sentimentos amorosos de lado e me dedicar mais aos estudos, trabalho e tudo o mais, justamente para não correr o risco de me magoar novamente e afetar todas as outras áreas da minha vida.
Quem disse que deu resultado?
Não adianta. Não adianta se sobrecarregar achando que você vai se livrar de se apaixonar, de amar. Pois afirmo com todas as letras, os sentimentos se sobressaem a tudo. A. TUDO.
Neste exato momento, eu deveria estar resolvendo um trabalho de Didática da Língua Materna I (sobre aqueles PCN's lindos, só que ao contrário) ou fazendo os deveres do inglês e de francês, mas meu coração não deixa. Ele está inquieto, não para de me importunar dizendo que eu devo ouvi-lo. E ele me diz que eu já me encontro, mais uma vez, apaixonado.
Engraçado (de novo), agora quero deixar todos os deveres de lado e partir para o abraço, me jogar nessa paixão para ver se dá certo. Quero me permitir. Quero viver. Quero esquecer que não preciso de um mundo de obrigações para me ver livre de uma sensação que me faz sentir ainda mais vivo. Quero ser feliz! Nem que para isso eu precise reaprender a amar. Sinto a minha liberdade ali, ao alcance de um passo, pronta para mim e eu só preciso abraçá-la, sem medo. E eu quero, como nunca quis tanto uma coisa na vida.
Estou apaixonado, de novo, mais uma vez, novamente. E por incrível que pareça, estou me sentindo a pessoa mais feliz do mundo. Que exista a contradição, se for para acontecer. Mas neste momento, a sensação de querer e ser querido, amar e ser amado não consegue superar nada, absolutamente nada, em minha simples existência.
***
Não sei se isso é uma característica da vida adulta, mas agora só consigo escrever quando os pensamentos vem um atrás do outro. Não consigo mais organizar o pensamento. As palavras vem, e eu escrevo. Podem reparar nesse texto, que pode parecer desconexo no começo, mas depois vocês entendem.
Não prometo voltar logo, mas prometo voltar assim que possível. Até mais!
domingo, 30 de setembro de 2012
GREVE DOS SERVIDORES BLOGOSFÉRICOS POR TEMPO INDETERMINADO
Mentira minha, gente, o título foi só pra chamar vocês pra lerem o post, rs. É que vocês me conhecem e sabem a vida que eu levo. Agora que voltaram as aulas na minha universidade, aquela loucura diária voltou junto e estou sem o menor tempo pra nada. A greve nas federais começou quase no finalzinho do primeiro semestre e por isso estamos correndo MESMO contra o tempo e verificando um monte de coisa que ficou pendente. Aquela mágoa do artigo científico voltou, a pesquisa nas escolas, resenhas, resumos, fichamentos, atividades do inglês e do francês... Voltou TUDO junto. Estou tentando me readaptar a tudo isso e reaprendendo a conciliar tudo. Acho que vou voltar àquela rotina de posts só no final de semana quando eu estiver desocupado, porque durante a semana só penso em estudar, trabalhar e dormir. Espero que vocês me entendam MAIS UMA VEZ.
De um atarefado,
Tiêgo
P.S: tô mais ligado no meu e-mail do que nas demais redes sociais, então qualquer coisa se alguém quiser falar comigo, pode gritar no tiegoramon@gmail.com que eu respondo logo, prometo!
P.S²: recebi uma proposta INCRÍVEL. Conto mais detalhes no próximo post, se eu puder e não esquecer. hahaha Até a próxima!
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
Da série "o que foi que eu fiz?"
Vamos lá: não sei se é assim com vocês, mas eu nunca fui de ser barraqueiro nem nada do tipo, mas eu sempre gostei de deixar tudo às claras. Nunca fui de esconder nada de ninguém - quer dizer, a não ser que fosse me prejudicar, mas aí é outra história. Vivi cercado por pessoas sinceras e dificilmente topava com aquelas mais falsas do que Luís Vuitão da esquina da sua casa; mas pra tudo tem uma primeira vez. Na universidade, isso não mudou: continuei convivendo com pessoas sinceras e legais que felizmente fazem o mínimo pra me aturar todos os dias de manhã. Eu também faço o possível pra me aguentar porque sei que manhã meets eu é uma coisa complicada, mas tento esquecer isso sorrindo, o que faço de melhor.
Mas aí tem gente que não liga nem um pouco pra isso. E começa a te tratar mal, desnecessária e ridiculamente, mesmo com você usando de tudo o que pode para parecer legal. Isso sim me deixa bastante irritado.
Indiferença SEM MOTIVO.
Deixa eu contar pra vocês: uma amiga (agora ex, com certeza) minha de anos (anos mesmo, tipo cinco, seis anos) passou no vestibular junto comigo pra Letras na Unifap. Aí tá, tudo bem. Eu achando que íamos nos dar superbem como nos demos esses anos todos, quebro bonito a minha cara justo no primeiro dia de aula: me viro pra falar com a menina e ela simplesmente acena com a mão e se levanta, saindo da sala. Tá, ignorei, né, primeiro dia de aula e tudo o mais, conhecendo tudo acabei nem ligando. Porém, isso foi se agravando dia após dia e, no dia da eleição pra representante de turma semestre retrasado, percebi a tensão: éramos dois candidatos, um outro colega e eu. Ela disse que votaria no outro colega, na maior. Foi então que meu alerta mágoa deep começou a me avisar de que tinha algo de errado. Passou-se o tempo, a indiferença foi crescendo, crescendo e chegou ao ponto da menina passar por mim no corredor, esbarrar em mim e nem sequer pedir desculpas ou sei lá, dizer um "foi mal". Fiz a primeira tentativa de aproximação pra saber o que era que tava acontecendo e a menina me inventa algo pra fazer justo naquele momento, se esquivando igualmente na segunda tentativa. Parei com as investidas. Agora, depois que a greve voltou, as aulas retornaram e eu com saudades de todos (inclusive da menina que me esnobava), falei com todo mundo. Chegou na vez dela, ela simplesmente vira as costas e sai da sala, como se eu fosse contagioso ou coisa parecida. Fora que ela me excluiu do Facebook e do MSN sem pensar duas vezes. Tentei mais uma vez conversar com ela, que sumiu nas escadas do prédio onde estudo. Aí foi a gota d'água. Todo mundo percebeu que ela parece me ODIAR. E o mais engraçado é que todo mundo gosta de mim na turma. E ela se recusa a fazer parte do meio, sendo o pior de tudo o fato de eu não fazer a menor ideia do porquê dessa menina estar agindo assim. Várias pessoas já me disseram "esquece, é frescura", "ignora que isso é uma fase, essa menina é de lua" e até mesmo "com tanta gente gostando de você, você realmente se importa com o que ela pensa?", dito por uma amiga minha ontem no ônibus.
Fiquei com isso na cabeça. Eu realmente me questionei se eu fui atrás dela por gostar da menina, por consideração à nossa amizade (já morta) ou simples e puramente por obrigação. É, de tirar esse peso chato das costas de se sentir ignorado sem motivos. E cheguei à conclusão de que eu só queria saber o que aconteceu para que eu fosse tão odiado assim sem uma razão consistente. Já tentei usar esse argumento com ela, mas não adianta. Mandar a real também não vai adiantar, porque cabeças vão rolar. A única saída viável que enxergo neste momento é ignorá-la exatamente como ela faz comigo, pois não dá certo se importar com alguém que não liga a mínima para o que a gente pensa. E se é esse o jogo que ela escolheu jogar, ótimo. Problema o dela. Só sei que estou decidido e este post é testemunha: NUNCA MAIS VOU ME DIRIGIR VOLUNTARIAMENTE À ESSA MENINA. E que ela leia esse post, porque conhece meu blog e vai que ela me ame secretamente e esteja com medo de assumir, né. Tá aqui esse texto lindo pra ela quebrar a cara e nunca, nunca mais pensar em vir com hipocrisia e indiferença desnecessária pro meu lado. Tolero até onde posso (e olha que posso MUITO). Depois disso, sinto muito. Você perdeu por livre, espontânea e patética vontade um confidente, um companheiro e um amigo que poderia levar para o resto da vida.
E a propósito, eu não planejei esse post. Desculpem qualquer coisa, só precisava desabafar. Até logo, gente!
sábado, 15 de setembro de 2012
Adaptability
A quem perguntar, sim, tirei o nome do título do episódio cinco da segunda temporada de The Glee Project.
Dia desses, encontrei na parada de ônibus uma colega de ensino médio que não via há tempos e aproveitamos para colocar o papo em dia. Essa colega tinha um problema sério com namorados na vida dela: o coração da coitada só disparava por mau-caráter. Lembrando disso, eu perguntei a ela se o inconveniente persistia e a menina, rindo, disse que não. Que agora namorava um cara honesto, legal e trabalhador. O papo já ia morrer quando ela acrescentou, como quem não quer nada: "mas ele, no começo, era um mau-caráter. Com o tempo, ele se acostumou comigo e com meu novo modo de ver a vida e ele cedeu. Para melhor, né?". Sorri, realmente satisfeito com o desfecho da história. O ônibus dela passou, nos despedimos e a colega me deixou com aquilo na cabeça: pessoas conseguem de verdade se adaptar como deveriam às mais diversas situações na vida?
Tenho meus motivos para duvidar disso. Aquela lei de um fulano da biologia que diz que o ser humano se adapta a tudo nessa vida deve ser questionada. Já cansei de conviver por anos com pessoas patéticas e fúteis e nunca me acostumar com nenhuma delas, por exemplo. Passei três anos e meio no curso de francês e o cheiro de mofo das salas nunca permitiu que eu me adaptasse como deveria. E o que dizer de surpresas? São os momentos nos quais eu mais me sinto vulnerável na vida! E nunca consigo me acostumar com elas, impressionante. Tenho um monte de motivos para contestar esse papo de que o homem foi programado para se adaptar, mas quero sintetizá-los todos em um só: a vida é complexa demais para que consigamos nos manter estáveis em todas as situações dela.
Com tudo isso, ainda creio que acima de qualquer situação, desenvolver a arte da adaptabilidade sobre pessoas é o nosso maior desafio durante nossas existências. As situações são as mesmas, apenas mudam de pessoa para pessoa - como no caso do meu curso de francês e o cheiro de mofo das salas. Agora com gente... Elas mudam o tempo todo. Minha melhor amiga pode ser minha melhor amiga comigo, mas com outra pessoa ela pode ser a Carminha da vida real. Meus irmãos são uns pentelhos comigo, mas com outras pessoas são um doce de pessoa. E por aí vai; é uma gama de exemplos que eu posso citar que exemplifica isso. É muito complicado se adaptar ao ser humano. Tanto que costumamos nos apaixonar por pessoas totalmente diferentes de nós, não é verdade? "Os opostos se atraem" ou coisa assim. Pode ser fácil numa hora, mas na outra nem tanto. Adaptar-se é mais controverso do que podemos imaginar. É bom ir aprendendo a se camuflar. Vai que numa dessas a tentativa de se adaptar dá errado? Nada como a sensação de estar seguro. Para todos os efeitos, desperte o camaleão que existe em você e boa sorte na adaptabilidade!
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| Em Jogos Vorazes, Katniss Everdeen e Peeta Mellark lutam pela sobrevivência se adaptando inclusive à eles mesmos |
Tenho meus motivos para duvidar disso. Aquela lei de um fulano da biologia que diz que o ser humano se adapta a tudo nessa vida deve ser questionada. Já cansei de conviver por anos com pessoas patéticas e fúteis e nunca me acostumar com nenhuma delas, por exemplo. Passei três anos e meio no curso de francês e o cheiro de mofo das salas nunca permitiu que eu me adaptasse como deveria. E o que dizer de surpresas? São os momentos nos quais eu mais me sinto vulnerável na vida! E nunca consigo me acostumar com elas, impressionante. Tenho um monte de motivos para contestar esse papo de que o homem foi programado para se adaptar, mas quero sintetizá-los todos em um só: a vida é complexa demais para que consigamos nos manter estáveis em todas as situações dela.
Com tudo isso, ainda creio que acima de qualquer situação, desenvolver a arte da adaptabilidade sobre pessoas é o nosso maior desafio durante nossas existências. As situações são as mesmas, apenas mudam de pessoa para pessoa - como no caso do meu curso de francês e o cheiro de mofo das salas. Agora com gente... Elas mudam o tempo todo. Minha melhor amiga pode ser minha melhor amiga comigo, mas com outra pessoa ela pode ser a Carminha da vida real. Meus irmãos são uns pentelhos comigo, mas com outras pessoas são um doce de pessoa. E por aí vai; é uma gama de exemplos que eu posso citar que exemplifica isso. É muito complicado se adaptar ao ser humano. Tanto que costumamos nos apaixonar por pessoas totalmente diferentes de nós, não é verdade? "Os opostos se atraem" ou coisa assim. Pode ser fácil numa hora, mas na outra nem tanto. Adaptar-se é mais controverso do que podemos imaginar. É bom ir aprendendo a se camuflar. Vai que numa dessas a tentativa de se adaptar dá errado? Nada como a sensação de estar seguro. Para todos os efeitos, desperte o camaleão que existe em você e boa sorte na adaptabilidade!
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
A libertação: relato de uma saída (sem volta) do armário
Talvez este seja o texto mais pessoal que eu já tenha escrito em toda a história (nem tão longa assim) do blog.
Sabe, existem momentos em que você não aguenta, mesmo. Tipo quando você está num sonho tão lindo que ter que acordar às seis para ir ao colégio/trabalhar/whatever acaba sendo o pior dos castigos e você se vê sufocado por uma sensação que você poderia evitar continuando a dormir (e consequentemente, a sonhar), mas que por uma questão obrigatória, força-se a despertar. Ou até mesmo quando você está numa piscina, querendo aguentar mais tempo embaixo d'água, mas seus pulmões não aguentam nem dez segundos e você trata de submergir o mais rápido possível.
Até sábado, eu me sentia desse jeito. Preso num sonho do qual eu não queria acordar, sob a água de uma piscina querendo ficar o máximo possível lá. Porém, a vida prega peças na gente de uma forma surpreendente. Tenho que tirar o chapéu para quem escreveu o script da minha, pois estou satisfeito demais com o desenrolar do filme.
Enfim, era sábado, oito de setembro. Eu acabara de chegar de um encontro com algumas amigas da universidade, por volta de dez horas da noite. Não sei ao certo o que me ocorreu, mas algo me dizia desde o instante em que eu levantara da cama de manhã que aquele dia não seria apenas mais um dia. E assim aconteceu. Na caminhada de volta para casa, vim pensando em mim - coisa que eu não fazia há décadas. Depois de tanto refletir, constatei que eu estava me sentindo frustrado. Como bem vocês sabem, sou gay. Mas minha família não sabe disso, ou pelo menos eu acho que não. Meus amigos sabiam mas eu não conseguia contar para ninguém da minha família, o que seria o suposto 'correto'. Pois bem, cheguei em casa ainda pensando nisso, mas me desviando um pouco mais dos pensamentos por conta dos meus pais e da minha irmã que riam vendo um filme na TV. Assisti um pouco com eles, até que mamãe foi até a cozinha e eu a segui, involuntariamente. Ela iniciou um papo de que eu não ia há um tempão à missa e que queria que eu fosse na de domingo de manhã, pois era festividade de São Benedito.
Foi quando me deu um estalo. Lembrei de toda a confusão que foi tentar frustradamente mesclar igreja e sexualidade. Aquele era o momento. Hora de acordar do sonho lindo, hora de sair de baixo d'água. Hora de exterminar aquela sensação de sufoco que eu não aguentava mais sentir. Eu chamei sua atenção e comecei:
"- Mãe, eu amo você. E espero que a senhora continue me amando do mesmo jeito que sempre me amou durante dezoito anos de vida depois do que eu lhe falar."
Ela ficou gelada. Sorriu, mas logo ficou séria de novo pois percebeu que eu não brincava como sempre faço.
"- Fala, filho. Fala o que você tiver para falar."
E então, saltei rumo à felicidade, ao alívio:
"- Mãe, eu gosto de homens do jeito que deveria gostar de mulheres."
Não sei bem ao certo o que eu senti. Foi um misto de alívio com felicidade e satisfação. Agora ela parecia chocada. Nervosa, chocada, tensa. Eu a confortei, disse que eu era a mesma pessoa que era há cinco minutos atrás e ela me olhou, com os olhos cheios de lágrimas, dizendo as palavras que eu mais queria ouvir na vida:
"- Eu vou te amar e te apoiar do jeito que você é até o fim."
Aquele foi o momento mais feliz da minha vida. Nem tanto pra minha mãe, que depois ficou me perguntando se eu era gay desde sempre e outras coisas mais que todo mundo pergunta quando eu digo. E também confortei-a, falando que não era pra ela se preocupar porque eu não sairia na rua com um top e uma sainha coloridos e um megahair porque eu nunca me vi daquele jeito (desculpa travas lindas do meu coração, amo vocês). Na verdade, disse à ela, eu me sinto bem do jeitinho que eu sou. Com o corte de cabelo militar, com as calças largas, as camisas gola polo, o amor por livros, por jogos de luta, odiando alho e querendo ser escritor. Ela se emocionou com meu discurso e não parava de dizer que me amava, e que aquele era mais um orgulho para ela ter de mim.
E era apenas do que eu precisava. De uma fortaleza na qual eu pudesse me refugiar sem me sentir preso, incauto. E uma vez dispondo dela, não temo absolutamente mais nada. Dei adeus a uma fase minha que eu espero que não volte nunca mais. E agora é hora de continuar sonhando. Só que com os olhos bem abertos e com os pulmões cheios de ar, para que a sensação de alívio possa me invadir e me fazer esquecer que um dia fui um cara frustrado que disfarçava a dor mascarando-a sempre que podia. É hora de sonhar a realidade. A minha mais nova liberta realidade.
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
Cinquenta Tons de Vício
| Meu exemplar de Cinquenta Tons de Cinza <3 br="br">3> |
Ousado. Diferente, com uma sensação de "eu já vi isso antes". Sensual. Intenso. Forte. Viciante.
Em poucas palavras, é assim que defino Cinquenta Tons de Cinza, o mais novo best seller do momento que traz uma temática um pouco diversificada da qual estamos acostumados a conviver: dominação sexual. Porém, para quem acha que vai abrir o livro e se deparar com várias descrições de cenas de sexo, engana-se, e feio. Confesso que eu fui um quem imaginou que abriria o livro e logo no primeiro capítulo me depararia com mulheres amarradas em gravatas fazendo sexo com o cara que domina. E eis que eu quebro bonito a minha cara.
Cinquenta Tons de Cinza reune tudo o que um best seller tem que ter: uma história envolvente e personagens marcantes. A principal, Anastasia Steele, é uma versão madura da Isabella Swan, a mocinha de Crepúsculo, que até apresenta algumas características dela: é atrapalhada, não se acha bonita e ainda assim, consegue laçar o cara que parece perfeito, mas não é. Christian Grey. Christian-Dominador-Grey. O bam-bam-bam. Aquele que fez o coração nunca antes conquistado de Anastasia bater mais forte. No começo, o enredo parece bem simples, bem bobo, até. Só que isso para no começo. No decorrer das quatrocentas páginas do livro, somos apresentados a um universo que foge de todos os padrões. Anastasia - com a ajuda de sua "deusa interior" se mostra cada vez mais diferente depois de conhecer Christian de uma maneira que nunca imaginou conhecê-lo. E é a sequência de surpresas do livro que o faz tão sensacional. O sexo faz parte da história, tem que fazer. Porém, chegamos em determinado momento do livro em que até esquecemos dele. Acredito que não tenha sido esse o propósito de E. L. James ao escrever Cinquenta Tons de Cinza, mas que ela visou polêmicas, ah, se visou. E as alcançou sem a menor sombra de dúvidas: o que já vi de feministas condenando o livro por conta da dominação, evangélicos dizendo que o livro propaga o pecado e outras represálias ao best seller não é brincadeira. É compreensivel até certo ponto, pois a temática do livro não é exatamente a romântica de A Última Música de Sparks ou a mitológica Percy Jackson de Riordan. É algo novo, impactantemente novo. James acertou em cheio no tipo de narrativa: não chega a ser formal, nem chega a ser descolado demais. É de um equilíbrio anormal para uma época onde as narrativas e enredos costumam se assemelhar de tal maneira que chega a enjoar.
Cinquenta Tons de Cinza é um livro para se ler despreocupado. Sem estresses. Sem ser levado a sério. Em tempos de vampiros românticos e lobisomens apaixonados, um sadomasoquista e uma garota inocente levada a conviver com ele acabam se tornando intrusos, mas de uma maneira positiva. No geral, os dois tem sucesso em carregar uma trama cheia de mistérios, romance (sim, ele está presente) e sensualidade. A ousadia de E. L. James decididamente não poderia ter resultado em nada melhor. Depois de terminar a leitura, tem quem esteja atrás de um Cinquenta Tons exatamente como Christian Grey para ser, bem... amado. De um jeito nada convencional.
E eu, não mais secretamente, incluo-me neste grupo. Sem malícia.
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
Uma estória sobre bullying, parte final
Em tempo: aqui está a parte um. E espero que vocês curtam o desfecho do conto!
- Antes de mais nada, Otávio, meu nome é Cássio. E se eu quisesse, poderia te arrebentar agora dentro desse banheiro, porque sei que esses três patetas não pularão para te defender. Mas como eu não sou de bater em ninguém, espero que você crie vergonha nessa sua cara cínica e nunca mais diga nada do tipo para mim. Homem de verdade não se esconde atrás da caricatura de um moleque que fica intimidando os demais com palavras ofensivas. A "bichinha" aqui se amedrontou no começo, mas viu que você não passa de um pirralho que ainda não acordou para a vida e está fazendo outras pessoas agirem do mesmo jeito e fechando ainda mais os olhos. - Ele esboçou uma reação e eu, em ato reflexo, pressionei-o ainda mais contra a parede. - E experimente me dedurar ou coisa assim para você ver se eu vou ter coragem de te alisar de novo - finalizei, mal acreditando no que tinha acabado de fazer.
Soltei-o e parecia que o sangue tinha fugido da cara dele. Os outros três me olharam com ar de incredulidade antes de saírem do banheiro e irem embora em um silêncio absurdo para quem tanto me xingou em quase um ano. Otávio me olhou com a pior cara de arrependimento que se possa imaginar e disse algo que jamais imaginei que fosse sair da boca dele:
Foi a minha vez de ficar perplexo. Com a surpresa estampada no rosto, encarei Otávio e sorri. Como todo bom vencedor. E ele, como um bom perdedor, admitiu a derrota. Confesso que saboreei devagarinho a sensação de poder e vitória que me era desconhecida até então.
- Bom saber que você se arrependeu, Otávio. E eu não sou de guardar rancor de ninguém, mas não pense que vou esquecer tudo de uma hora para outra. Por mim, vamos começar do zero. E que você escreva do jeito certo dessa vez - terminei, já indo emora quando ela desatou a falar de si. Disse que os pais eram viciados em drogas e que ele sofreu com isso a vida toda na escola, pois todos sabiam daquilo e o apelidavam de coisas horríveis. A única forma que encontrou de se sair das agressões psicológicas foi agindo da mesma forma com tudo e todos. Mas que agora tinha descoberto a lição e percebido o quão ruim era praticar o bullying, tanto quanto era sofrê-lo.
Acho que eu não poderia ter ficado mais surpreso. Por um momento pensei que ele fosse chorar, mas felizmente, Otávio levantou a cabeça, pareceu ser outra pessoa depois daquilo e seguiu seu caminho. Eu já esquecera do soco que ele tinha me dado, mas me lembraria daquele instante para sempre. O momento em que descobri que cada um de nós é provido de fragilidade. E que basta acessá-la para nos tornarmos um pouco mais humanos; exatamente como o Otávio fez comigo e exatamente como fiz com ele há alguns minutos atrás.
* * *
Todos os outros ficaram paralisados, sem reação. Já eu, uma vez no controle da situação, falei tudo o que deveria ter falado desde o início desta brincadeira sem a menor graça.
- Antes de mais nada, Otávio, meu nome é Cássio. E se eu quisesse, poderia te arrebentar agora dentro desse banheiro, porque sei que esses três patetas não pularão para te defender. Mas como eu não sou de bater em ninguém, espero que você crie vergonha nessa sua cara cínica e nunca mais diga nada do tipo para mim. Homem de verdade não se esconde atrás da caricatura de um moleque que fica intimidando os demais com palavras ofensivas. A "bichinha" aqui se amedrontou no começo, mas viu que você não passa de um pirralho que ainda não acordou para a vida e está fazendo outras pessoas agirem do mesmo jeito e fechando ainda mais os olhos. - Ele esboçou uma reação e eu, em ato reflexo, pressionei-o ainda mais contra a parede. - E experimente me dedurar ou coisa assim para você ver se eu vou ter coragem de te alisar de novo - finalizei, mal acreditando no que tinha acabado de fazer.
Soltei-o e parecia que o sangue tinha fugido da cara dele. Os outros três me olharam com ar de incredulidade antes de saírem do banheiro e irem embora em um silêncio absurdo para quem tanto me xingou em quase um ano. Otávio me olhou com a pior cara de arrependimento que se possa imaginar e disse algo que jamais imaginei que fosse sair da boca dele:
- Desculpa. Por tudo.
Foi a minha vez de ficar perplexo. Com a surpresa estampada no rosto, encarei Otávio e sorri. Como todo bom vencedor. E ele, como um bom perdedor, admitiu a derrota. Confesso que saboreei devagarinho a sensação de poder e vitória que me era desconhecida até então.
- Bom saber que você se arrependeu, Otávio. E eu não sou de guardar rancor de ninguém, mas não pense que vou esquecer tudo de uma hora para outra. Por mim, vamos começar do zero. E que você escreva do jeito certo dessa vez - terminei, já indo emora quando ela desatou a falar de si. Disse que os pais eram viciados em drogas e que ele sofreu com isso a vida toda na escola, pois todos sabiam daquilo e o apelidavam de coisas horríveis. A única forma que encontrou de se sair das agressões psicológicas foi agindo da mesma forma com tudo e todos. Mas que agora tinha descoberto a lição e percebido o quão ruim era praticar o bullying, tanto quanto era sofrê-lo.
Acho que eu não poderia ter ficado mais surpreso. Por um momento pensei que ele fosse chorar, mas felizmente, Otávio levantou a cabeça, pareceu ser outra pessoa depois daquilo e seguiu seu caminho. Eu já esquecera do soco que ele tinha me dado, mas me lembraria daquele instante para sempre. O momento em que descobri que cada um de nós é provido de fragilidade. E que basta acessá-la para nos tornarmos um pouco mais humanos; exatamente como o Otávio fez comigo e exatamente como fiz com ele há alguns minutos atrás.
* * *
O bullying é um transtorno comportamental que pode ser revertido a partir da conscientização acerca de suas práticas e das consequências delas. Muitas vezes, o agressor se sente intimidado por algo/alguém e, para se equiparar, intimida também. A melhor solução é o diálogo, por mais clichê que isso possa parecer. Se não conseguir falar sozinho com o agressor, que fale com alguém mais velho sobre isso e que cheguem todos a um consenso, seja no setor pedagógico do colégio, seja num encontro entre responsáves para que estes possam mediar a conversa entre ambas as partes afim de que não hajam brigas nem discussões pesadas. Praticar bullying não é legal, limita uma pessoa e traz consequências graves para o psicológico do agredido. Por isso, combata-o! DIGA NÃO AO BULLYING!
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
Uma estória sobre bullying, parte um
Em tempo: esta estória foi baseada em fatos reais e, por eu ter me empolgado demais escrevendo-a, vi a necessidade de dividi-la em duas partes, para que não fique cansativo nem para você, leitor, nem para mim. Amanhã vocês saberão o desfecho da história!
***
" - Mulherzinha!
- Mariquinha!
- Vai virar homem, veadinho!"
Era mais ou menos assim que eu era recebido pelos colegas "carinhosos" todos os dias quando pisava em sala de aula. As agressões verbais eram tão constantes que eu até já havia me acostumado com elas - não significando que eu gostasse delas. Muito pelo contrário! Eu queria muito reunir forças para dizer "parem com isso!", mas o máximo que eu conseguia era correr para longe deles, me trancar no banheiro e chorar, numa tentativa frustrada de minimizar o sofrimento que eles me causavam. E o pior é que eu não sabia como acabar com aquilo. Era como se existisse uma espécie de bloqueio em mim sob a influência da qual eu não conseguia, de maneira alguma, reagir.
Até que um dia aconteceu.
Engraçado, eu era maior do que eles. Tanto na altura como na inteligência. E não tinha sucesso em acessar estes atributos. Com treze anos, eu já tinha praticamente um metro e oitenta, enquanto a maioria dos colegas mal chegava a um e sessenta. Eu me sentia mal por ser tão diferente deles, mas não fazia gosto de que eles soubessem disso. Aliás, eu tentava parecer legal - mas meus colegas não eram nem um pouco legais comigo.
Essa falta de cordialidade deles estava com os dias contados, mal sabiam eles. E eu.
Era sábado letivo e chovia demais, o que era de uma anormalidade ímpar, já que em setembro nunca se veem nuvens negras no céu, principalmente no fim de semana. Cheguei no colégio encharcado e morrendo de vergonha de entrar na sala de aula. Por isso, fui ao banheiro tentar me secar. Ao abrir a porta de acesso ao primeiro dos dois banheiros masculinos, eis que me deparo com quatro meninos parados à minha frente, como se adivinhassem que eu entraria ali de presente para a zoação diária deles.
- A bicha veio molhada para escola hoje! Deveriam proibir isso. Aliás, o que é isso, a nova moda em Paris? - disse Otávio, o mais panaca de todos, apontando para o moleton que eu tirava da mochila.
- A bicha veio molhada para escola hoje! Deveriam proibir isso. Aliás, o que é isso, a nova moda em Paris? - disse Otávio, o mais panaca de todos, apontando para o moleton que eu tirava da mochila.
- Ou será que é um capuzinho para brincar de chapeuzinho vermelho no intervalo com as amiguinhas dele? - ironizou Matias, o cachorrinho mais fiel do Otávio. João e Márcio, os outros dois seguidores se espocaram em gargalhadas mais forçadas do que vômito de bulímicos.
- Não enche - disse eu, tentando me esquivar deles. Obviamente, sem êxito.
- O que foi que você falou? A mariquinha se manifestou, ui! - bagunçou Otávio, com os olhos brilhando como sempre na hora de me azucrinar. - Pois vai aprender a respeitar seu superior. É por isso que eu odeio bichas. Raça de gente que não merece viver - completou, desferindo um soco na minha cara.
Naquele momento, alguma coisa dentro de mim despertou. E com uma fúria de titã. Nem me lembro ao certo como foi, mas larguei a mochila no chão, segurei o Otávio pelo uniforme e pressionei-o contra a parede, ato este que o fez arregalar os olhos.
Naquele momento, alguma coisa dentro de mim despertou. E com uma fúria de titã. Nem me lembro ao certo como foi, mas larguei a mochila no chão, segurei o Otávio pelo uniforme e pressionei-o contra a parede, ato este que o fez arregalar os olhos.
De medo.
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