Se já é difícil falar de um assunto delicado como homossexualidade separadamente, não me surpreende que eu esteja com um pé atrás na hora de explanar minhas considerações sobre o tema abordado nas telinhas. Mas muito maior do que a vontade de falar, existe a necessidade de comentar o contexto LGBT nas novelas brasileiras.
Tenhamos como foco, mais uma vez, Insensato Coração (novela das nove horas da Globo). Do início do folhetim até agora, pudemos acompanhar uma mudança significativa e interessante do desenrolar e formação do seu núcleo gay. De personagens caricatos e hilários, passando pelos bem resolvidos sexualmente e chegando aos confusos e indecisos, os autores inseriram homossexuais em todos os núcleos de sua história, com leves exceções. Levando em consideração que anteriormente víamos apenas os gays e lésbicas em tramas isoladas do resto do enredo, Insensato Coração deu um belo passo em relação à suas antecessoras de mesmo horário. Até mais ou menos três semanas atrás, a novela estava recebendo meu respeito grande neste aspecto. Mas então, eis que os chefões da emissora chegam e, sem mais nem menos, mandam os autores amenizarem a história de amor entre os personagens Hugo (Marcos Damigo) e Eduardo (Rodrigo Andrade), como se a novela fosse regredir em termos de audiência com o romance dos dois. Vou confessar que não entendo mesmo porque tanto medo, tanto receio de expor o amor entre duas mulheres ou dois homens numa novela, seja lá em qual for o horário. Caso ninguém tenha reparado, quanto mais for acontecendo as histórias gays envolvendo afeto, carinho, amor, mais a mente limitada de quem vê repulsa nestes atos estará se abrindo para aceitar as diferenças, porque diferentemente do que muita gente por aí pensa, não é só evitá-las que elas deixarão de existir. Elas são fatos reais. E merecem aceitação e respeito, principalmente respeito.
Se a direção de Insensato Coração pensa que vai fazer o público LGBT e simpatizantes esquecer do amor entre Hugo e Eduardo, com cortes bruscos nas cenas, está enganada, redondamente. Ainda mais “substituindo” as cenas do casal por cenas pesadas de homofobia e rejeição aos gays , uma das mudanças mais frustrantes e decepcionantes na trama. Sabemos que o ódio ao homossexual é realidade e que precisa ser mostrado como é; porém, daí excluir sequências de afeto entre dois homens para colocar em seu lugar cenas de violência desnecessárias já é algo para discordarmos. Ainda pretendo descobrir em que aspecto um abraço carinhoso, um carinho de mão no rosto, são mais agressivos aos olhos do que meia dúzia de homens covardes espancando gays sem motivo aparente. São fatos tão controversos, tão contraditórios que é impossível escrever algo que os descreva de verdade. É um mix de ridículo com pateticidade.
Que fique registrada minha decepção e total desapontamento com as estratégias tolas e baixas que a Rede Globo vem utilizando para manter a audiência – ótima, por sinal – de Insensato Coração. Uma história que vem fazendo os telespectadores perderem o fôlego não preciso mesmo chutar para escanteio uma história de amor tão bonita – e não menos bonita do que qualquer outra das restantes da novela.

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