quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A horror love story

- Olá, querida Anne.

E mais uma vez eu me encontrava sozinha com Conrad naquele salão.

Ele era um verdadeiro gentleman: abria a porta para que eu pudesse atravessar, se ajoelhava e beijava minhas mãos quando me encontrava e fazia de tudo para que eu me sentisse confortável em sua presença. Quando ele me envolvia em seus braços, eu sentia a melhor sensação de segurança do mundo. A sua presença era mágica e me confortava de tal forma que eu não sabia mais como me manter longe dele por muito tempo sem sentir sua imensurável falta.

Já vínhamos nos relacionando há praticamente um ano. Lembro perfeitamente quando ele apareceu em minha vida no dia primeiro de novembro de 2011. Usava um terno branco e sapatos sociais pretos, além de um chapéu no maior estilo anos 20. Parecia um pouco triste quando o vi, mas creio que tenha sido só impressão, pois logo depois de encará-lo, ele se transformou em outra pessoa. Não sei bem o que meu olhar possui de tão chamativo, mas ele faz questão de elogiá-lo todas as vezes em que nos encontramos. Ah, e um detalhe: Conrad nunca me via na frente de pessoas. E eu também só o via quando estávamos sozinhos. Certa vez, comentei este fato com ele e eu praticamente vi o sangue fugir de seu rosto. Ele ficou estranho, porém apenas se justificou dizendo que preferia lembrar de nossos momentos juntos à sós. Desde então, não pensei mais nisso.

Até aquela noite chegar.

Estávamos prestes a completar um ano de namoro e eu me mostrava radiante por isso. Todos notavam a minha felicidade de longe e sempre perguntavam o motivo. Brincando, respondia que o meu motivo não era visível aos olhos dos demais - chamavam-me de maluca por isso, mas o que eu poderia fazer se era verdade? Ignorava, pois sabia que ao ficar sozinha, Conrad apareceria e me faria feliz como em todas as outras vezes que nos víamos. E aquela noite de Halloween seria mais uma noite para me deixar suspirante ao ser envolvida pelos braços de Conrad e beijada por aqueles lábios vermelhos e macios.

O salão de festas do colégio foi tomado pelos estudantes e seus convidados. Geralmente não há tantas pessoas assim e eu até preferia antes, sem tanto tumulto. E justo naquela noite, a noite na qual Conrad e eu comemoraríamos um ano juntos, havia mais pessoas do que o normal. Engraçado, parecia proposital. Obra do destino, como minha mãe costuma falar. Apesar de ter limite de horário, a festa de Halloween parecia encher cada vez mais e mais e eu me desesperava na mesma medida, pois Conrad fizera uma estranha exigência dois dias atrás, quando nos vimos na saída do colégio: disse que queria me ver vestida de noiva, com uma flor vermelha presa num coque nos cabelos e no centro do salão de festas, uma hora da manhã. Meia noite e meia a festa terminaria. Acreditava que ele queria me ver de noiva por conta do desejo incontrolável dele de casar comigo, mesmo sabendo que eu não aceito bem a ideia e que eu só tenho dezessete anos. Mas decidi jogar seu jogo, para ver até onde ele iria com essa sucessão de desejos estranhos.

Vesti-me com o vestido de noiva de minha irmã mais velha, arrumei-me toda e, às onze horas, fui para a festa acompanhada de uma amiga. Ela notou que eu aparentava estar nervosa, mas logo dei um jeito de reverter a situação a meu favor. Ninguém sabia do meu namoro com o Conrad e eu não pretendia contar antes de completarmos um ano - o que estava prestes a acontecer. Ele também não pretendia ser apresentado à minha família antes de termos firmado um bom tempo de compromisso, então juntamos as ideias e entramos num acordo: com um ano de namoro, assumiríamos publicamente nossa relação. E assim, foram se passando os meses até chegarmos em outubro. Final de outubro, véspera de nosso primeiro ano de namoro.

Demorou um bom tempo até eu me encontrar sozinha no salão de eventos do colégio. Faltavam quinze minutos para uma hora da madrugada e eu começava a ficar com medo, ainda mais depois de ter visto tantas fantasias bizarras naquela festa. Achei um cadeira próxima ao banheiro, carreguei-a até o centro do salão e esperei Conrad aparecer. A brisa gelada da noite envolvia meu corpo de tal forma que por várias vezes me peguei arrepiada. O tempo se arrastava. Eu ficava cada vez mais apreensiva. Quatorze minutos. Doze minutos. Dez minutos. Sete minutos.

Faltando um minuto para uma da manhã, levantei-me da cadeira e comecei a olhar em volta. Não via nada e só sentia um silêncio mortificante, capaz de assustar qualquer um. Conrad levaria uma bronca quando ele aparecesse.

Fiquei de costas para a cadeira por dois segundos para olhar para fora do salão de eventos quando fui surpreendida por aquela voz extremamente rouca e nada familiar vinda de trás de mim:

- Olá, querida Anne.

Cada osso do meu corpo paralisou.

- Não reconhece a minha voz, minha amada?

Eu me recusava a olhar. Sabia que eu não deveria. O Conrad que eu esperava tinha a voz macia e envolvente e não aquele mau agouro carregado em cada palavra proferida.

- Veio exatamente como eu lhe pedi para vir. Vestida de noiva, com a flor presa num coque no cabelo. Ainda se recusa a acreditar que sou eu, doce Anne?

Era Conrad. Mas não era Conrad. Senti um ar gelado próximo à minha nuca e aquela sensação foi o ápice para que minhas pernas criassem forças para se moverem dali. Dei passos largos em direção à saída e, quando constatei, já estava correndo como uma verdadeira maratonista. A voz agourante daquilo soltou uma grande gargalhada e completou, confiante:

- Experimente destrancar o portão principal. Você terá uma bela surpresa.

Desesperada e me recusando completamente a olhar para Conrad, alcancei o portão principal e, ao puxar as travas de ferro, senti como se tivesse levado um soco carregado de mil volts no estômago. Voei com o impacto da pancada e, ainda consciente, tentava entender o que havia acontecido. E em atorreflexo, tentei me levantar e não olhei para a frente.

Conrad estava bem na minha frente. Olhando-me desejoso, como se eu fosse a coisa mais valiosa desse mundo. Ele não era o Conrad, meu namorado. Era uma figura medonha, com o rosto distorcido e com asas negras, quebradas e manchadas de algo branco. A boca era imensa e com presas ainda maiores. Nas maçãs do rosto, cicatrizes grandes marcavam aquela face tenebrosa.  E o que mais me assustava, no lugar dos olhos haviam fendas profundas e negras. Não havia nada naqueles buracos, mas eles me fitavam diretamente, como se existisse um globo ocular ali. Eu estava prestes a demaiar quando Conrad se agachou à minha frente, murmurou algumas palavras e se levantou em silêncio. Ele não desgrudava as fendas dos olhos de mim. Eu, sem reação, olhava para ele e tentava descobrir o que havia acontecido com o meu namorado. E apelando para isso, comecei a falar:

- Nada do que passamos juntos significou para você? Eu te amava e você era o homem da minha vida!

- Silêncio. É só o que eu lhe peço, Annelise.

Pela primeira vez, ele me chamava pelo nome completo. Aquilo me deixou ainda mais nervosa. Ele sussurrou mais algumas palavras e, ao proferir a última, ele sorriu. Congelei com o ato. E congelei ainda mais ao perceber que um triângulo aparecera no chão e nós estávamos em duas pontas. Ele continuava me olhando, sem dizer absolutamente nada e assim ele permaneceu por vários minutos, até que comecei a notar meu corpo aquecendo. Eu ardia e meu corpo todo estava dolorido, mais do que já estava. Gritei alto de dor e Conrad parecia se divertir com o que acontecia.

A dor me fizera perder os sentidos aos poucos. Pelo pouco que pude perceber, na outra extremidade do triângulo surgia uma outra garota, idêntica a mim. Com os mesmos trajes, com o mesmo penteado, mesmos olhos, tudo. Era uma cópia minha. A menina brotava do chão como se fosse uma árvore e emitia uma luz muito forte e eu já não aguentava mais de dor quando Conrad, que já não era mais aquela criatura bestial e sim o Conrad com quem vivi uma história de amor por um ano, sai da sua ponta do triângulo, beija a minha testa e puxa a flor presa no coque em meu cabelo, dizendo:

- Bons sonhos, Anne.

E, instantaneamente, fui abraçada pela inconsciência. Para sempre.

3 pseudocomentaram:

Jota disse...

Não sei se suspiro, se choro - não entendo minha emoção após ler isso, sério. Só tenho uma certeza: você em fez refletir.

Gabriela disse...

Preciso dizer o quanto você escreve bem? OMG! Amei <3

fashiongirlmania.blogspot.com

Emilie S. disse...

Isso me lembrou vagamente de uma webfic publicada no blog homônimo, "Meu Namorado Imaginário". Infelizmente,o blog não existe mais =T

Enfim,essa coisa de só eles poderem se ver...
~b l o g~ • • • FanpageTwitterGoogle+