terça-feira, 23 de novembro de 2010

Um encontro no metrô. (Parte2)




- Esses papéis são seus? - repetiu o rapaz, parecendo preocupado com minha expressão. Eu realmente o conhecia de algum lugar, só precisava lembrar de onde.

- São sim, muito obrigado, salvou um mês de trabalho - brinquei, rindo. - Steve Leans, prazer.

- É, eu percebi que era esse o seu nome. Victor Fautair, francês que brinca de ser americano e que tem mania de conversar com o maquinista enquanto certos caras exaustos deixam as salvações dos seus dias escapulirem durante o sono. - Ele parecia sério. Quando abri a boca pra falar, ele começara a rir.

- Não, eu sabia que você não era um louco de pedra. Mas falando sério, como conseguiu meus papéis? - perguntei, intrigado.

- Você não entenderia se eu falasse, então prefiro me abster de seus comentários - ele disse, sério de verdade.

- Victor, não seja tolo. Acho que consigo confiar numa pessoa que poderia ter me ferrado jogando fora a salvação de um dia de trabalho exaustivo, mas que preferiu me entregar tudo, de maneira honesta - comecei a argumentar. E eu preciso admitir que sou bom com a persuasão. - Então porque você não me diz como encontrou e o porquê de ter devolvido-os a mim?

- Repito: não acredito que você vá entender. É estranho, é diferente do que você crê - ele disse, todo cheio de si.

- E do que eu creio, você entende? - coloquei-o contra a parede.

- É, bem... Tá, chega. Vamos parar com esse suspense estúpido.

Eu ainda não havia formulado nenhuma hipótese para o que ele iria me dizer. E nem preciso dizer que levei um susto daqueles quando ele simplesmente tocou meu rosto com a mão esquerda e foi como se um choque de 1000 volts tivesse atravessado meu corpo. Uma avalanche de lembranças atravessou a minha mente, como se eu tivesse conectado a um computador que revelasse coisas que eu já teria esquecido. Minha pele esquentou e parecia que a pasta que eu segurava era brasa pura, o que me fez largá-la na mesma hora. Victor tinha o rosto normal, como se estivesse fazendo carinho em um gato. Ele riu por um momento até perceber que a coisa estava mesmo ficando séria e que as minhas pernas começavam a bambear. Ele largou meu rosto e percebeu que eu não estava nada bem.

- Você tá legal? - ele perguntou, meio receoso.

- Tô zonzo, foi como se tivessem misturado tudo o que eu guardava na mente. E eu tive um déjà vu com você. Agora, nesse instante.

- Eu já sabia que isso iria acontecer - ele disse, com a maior naturalidade.

- Como assim? - perguntei, abismado. O rapaz parecia bem descontraído e era o que mais me intrigava nele. A tontura havia passado e eu pude reparar melhor em Victor. Seus olhos tinham um tom de azul escuro e suas feições montavam um rosto perfeito, como se cada cílio tivesse sido perfeitamente encaixado. Sua pele era quente, como pude perceber pelo toque de suas mãos e eu não tinha certeza, mas ele escondia algo atrás daquele moleton verde. Algo que eu sabia que não queria ver, mas que a intuição forte do Stevie precisava enxergar.

- Stevie, nós já nos conhecemos - ele começou, sombrio.- Você não deve se recordar, obviamente, mas aos sete anos de idade você visitou Cannes, na França, com seus pais, correto?

Eu havia visitado Cannes aos sete anos de idade com meus pais. Mas resolvi testá-lo.

- Você está mentindo. Nunca fui à França nem pretendo ir - menti, descaradamente.

- Não mesmo? Então como me explica seu desejo louco de retornar à Cannes para consertar a bicicletinha de madeira que você deixou cair da janela do apartamento onde você ficou?

Aquilo me deixou completamente desarmado. Como ele poderia saber da minha bicicletinha de madeira?

- Isso não pode ser verdade, Victor. Quero entender o que você fez comigo. Suas mãos fizeram alguma coisa... - e antes que eu pudesse completar, Victor me puxou para perto de si e me encarou. Ficamos a dois centímetros um do rosto do outro. Eu estava prestes a beijar um desconhecido que conhecia tudo sobre a minha vida e que tinha uns dez anos a menos do que eu.

E o mais engraçado era que eu queria aquilo.

- Você não precisa saber. Basta corresponder às minhas expectativas - disse ele, cheio de mistério.

- Me larga. Eu não quero ser bruto com você - falava como se fosse o pai dele. Senti seu aperto em meu pulso, que ficou vermelho. Podia sentir o cheiro dele, seu hálito de cereja e seu cosmo me invadindo por inteiro. Era como se eu quisesse lutar com algo que não tinha a menor chance.

Eu não era exatamente um projeto de super-homem, mas no alto dos meus 33 anos eu era baixinho e nem um pouco forte como Victor era. E quanto às minhas preferências sexuais, eu nunca tive vontade de ficar com um homem. Namorei com Alice por quase dois anos, e desde então não consigo amar mais ninguém. E desde que fitei meus olhos em Victor, uma estranha conexão foi estabelecida entre nós. E eu não sabia explicar no que ela se fundava.

Tudo o que eu pensava naquele momento foi excluído quando os lábios de Victor se colocaram sobre os meus.

4 pseudocomentaram:

Jota disse...

Quero mais (:

Jeniffer Yara disse...

Ai Ti! Você sabe mesmo como deixar um suspense intrigante no final!rs

Quero mais[2]!

Beijo

AH.orta disse...

Como que para com um suspense quando se para aí?! Quero mais³ ;D

Natália Souza disse...

Que perfeito !
Quero mais[4]!