quarta-feira, 9 de junho de 2010

The Brazil is colorful !

O café da manhã com meus pais era sempre aquele silêncio: pai lendo jornal, mãe querendo encontrar assunto mas não acha, e irmã que é quase muda ao acordar cedo pra ir à escola. Tudo estaria nos conformes se não fosse a expectativa para o resultado das eleições para presidente, senador e blábláblá, que ainda não tinha sido divulgada por nenhum meio de comunicação. Naquela segunda-feira, o jornal atrasou. E como atrasou. Quase uma hora de espera, e meu pai já estava com os nervos à flor da pele, pois ele não sossega enquanto não lê seu jornal matinal. Seu Oswaldo só conseguiu se acalmar quando Marcília, nossa governanta, adentrou a cozinha e trouxe o tão esperado jornal do dia.


Devagar, minha mãe parara de conversar com minha irmã sobre o quanto a vizinha havia ficado feia com o novo corte e eu, apreensivo, batia os pés ritmadamente, como se aquilo pudesse conter minha ansiedade. Foi ridícula a tentativa. Meu pai desfez o nó dado com o elástico para enrolar e fixar o jornal com cuidado, exatamente como em todas as manhãs. Só que a reação dele ao abrir o jornal não foi nada agradável e frustrou todas as minhas esperanças de, enfim, abrir o jogo com ele:


- NÃO POSSO ACREDITAR! O país colocou essa... essa... aberração pra nos governar! - exclamou ele, exasperado.

Minha mãe, como sempre, atreveu-se e leu os dizeres em letras garrafais impressos na manchete do jornal:

"Brasil é o primeiro país do mundo a ter um presidente gay assumido."

Não consegui enxergar nada porque estava na extremidade oposta da mesa, mas minha irmã me fez o favor de ler em voz alta a notícia:


- "Brasil é o primeiro país do mundo a ter um presidente gay assumido". Nossa, que coisa, não? - disse Larissa, parecendo mesmo pasma com o que acabara de ler.


- Isso é uma palhaçada, isso sim! Vou protestar até o fim contra o mandato desse sujeito. Era só o que me faltava, ser governado por um gay! - ironizou meu pai, com o rosto em fúria, pois seu partido havia sido derrotado pela oposição, justamente o lado do mais novo presidente.


- Pai, mas porque tanta fúria? Será que não basta pro senhor ter um partido que governou o Brasil por quase duas décadas? Hora de mudar, meu velho! - eu disse, tentando começar a conversa de um jeito descontraído.


- Concordo com o Luís, querido - disse mamãe, num momento raro de concordância comigo. - Acho que você deveria rever seus conceitos, porque os gays estão dominando o mundo e você já devia saber disso. Não não direi que estou feliz com esta vitória porque o candidato que escolhi não ganhou. Mas controle-se, Oswaldo. Não adianta chorar sobre o leite derramado.


Minha vontade naquele momento era carregar minha mãe no colo e enchê-la de beijos, mas o gesto pareceria meio insano e me denunciaria na mesma hora. Larissa não colocou sua opinião e saiu da mesa, com o pretexto de ir na casa de uma amiga buscar uns livros emprestados. Ela piscou pra mim e sussurrou um "boa sorte" tímido ao pé do meu ouvido. Tudo estava conspirando a meu favor naquela manhã. E a coragem simplesmente surgiu, deixando-me feliz por estar tão audaz assim numa situação tão... imprópria, digamos assim, para tais surtos impulsivos. Iniciei minhas palavras, confiante de que tudo ia dar certo - e tudo ia dar certo:


- Pai, eu preciso falar uma coisa pro senhor.


Ele me olhou rapidamente, já sem a expressão de raiva e comendo devagar a pera que tinha nas mãos, e fez sinal para que eu prosseguisse. Minhas pernas tremeram antes de continuar:


- Seria bom que o senhor se acostumasse com a ideia de ter um presidente gay governando o país.


- Porque, filho? - perguntou ele, largando a pera e cutucando minha mãe de leve, pra ela largar a revista de fofocas que ela tinha em mãos e prestar atenção em mim. Só que ela já sabia o que eu ia falar e deu uma piscadela pra mim, sem que meu pai percebesse.


- Porque o senhor é responsável por um, bem aqui na sua frente.


Ele me olhou com uma expressão pasma, de raiva, de medo, de pânico. Ele se levantou da cadeira, olhou nos meus olhos e disse, me deixando com medo:


- Você só falou isso por causa daquele maldito cara que será presidente, não foi? A opção sexual dele influenciou a sua, não foi filho? Fala! Faço questão de ...


- Para, pai! - eu o interrompi, querendo que ele entendesse que nada do que ele falava fazia sentido. - É uma opção minha, eu escolhi isso pra mim e ninguém teve nada a ver com isso. Só eu e pronto.


- Esse jornal desgraçado não devia ter parado aqui em casa hoje! Você acabou com meu dia, Luís!


Bem, eu já esperava isso do meu pai. Conservador demais, sério demais, durão demais. Mas quero apostar como daqui a pouco ele vem falar comigo, todo arrependido - quando ele ver que esqueceu o celular em cima da mesa. Minha mãe me abraçou, orgulhosa de minha coragem e de minha firmeza ao falar com papai e me reconfortou, dizendo que estava do meu lado, sempre. Não fiz questão de ficar abalado emocionalmente, muito menos de derramar lágrimas incessantes na minha cama. Eu sei que há muito mais para se fazer do que se lamentar por um pai não lhe aceitar como você é.


Principalmente quando ele se baseia em uma manchete de um jornal e não em seus próprios princípios.






Pauta para o Blorkutando - 89ª Semana: Extra! Extra!

6 pseudocomentaram:

@_jotaerre disse...

HAHAHAHA!
Seria bom se fosse verdade essa manchete! ;D
Que situação para contar, não é?
Você deveria escrever uma crônica e continuar a história do Luís. :D

xX

●๋• тнαi иαรciмєитσ disse...

Gostei da sua proposta de notícia pra a pauta do BK. Isso nos faz pensar na nossa própria reação caso uma coisa dessas realmente acontecesse.
E o Luís, esse é um rapaz de coragem.

Boa sorte no BK!

@Jota disse...

É podium na hora pra esse texto, rs!
Bom mesmo

mas em relação ao seu comentário no meu blog: o pior cego é aquele que não quer enchergar!

Jeniffer Yara disse...

Que belo conto! Ahh nunca mais tinha vindo aqui!
Tô sem tempo mesmo,saudades daqui! =/

Bjs!

Juliana Lima disse...

Nossa, nesse você se superou!
eu daria o primeiro lugar! :)
sumo por um tempo e cada vez que venho aqui é uma surpresa, seus textos estão cada vez melhores! quando crescer quero escrever como você! rs*
beiijos s2

Juliana Lima disse...

aah, to seguindo você no twitter! :)