segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Coffee, 2


- Cappuccino. É. Dois. - pedi ao garçom.
Eu adorava cappuccino. Ele também parecia gostar, pois aguardava ansioso, mais do que eu até. E era eu para estar, pois me sentia culpado demais por ter sido o culpado pela quebra dos óculos dele.
- Eu costumo tomar café aqui todos os dias nesse horário. Leio praticamente a tarde toda, se não fosse por isso - ele disse, escolhendo uma mesa bem distante de onde as demais pessoas estavam sentadas.
Caminhamos em silêncio da biblioteca até a cantina e parecia que eu continuava sem forças para falar. Sei lá que diabos tinha acontecido comigo; eu definitivamente não era daquele jeito. Mas o menino me deixava daquela forma. Só me restava continuar jogando o mesmo jogo que ele queria jogar, por mais que eu não fizesse ideia de como fazer isso.
- Eu trabalho à tarde - comecei, criando um pouquinho de coragem. - Trabalho numa creche, com crianças entre quatro e seis anos.
- Deve ser complicado, estou certo? - ele perguntou, rindo. Aquela risada me desconcertava, porque eu não sabia o que pensar.
- É. Você está certo. Eu realmente gostaria de trabalhar numa biblioteca,  ou em algo que envolva livros. Sou fascinado.
Ele ia começar a falar, mas o garçom interrompeu e disse, colocando as xícaras sobre a mesa:
- Dois cappuccinos. Mais alguma coisa?
- Não, obrigado - ele disse. Eu assenti e o senhor de meia-idade se retirou.
- Eu também gostaria. Aqui mesmo na universidade já seria legal - ele continuou a conversa. Eu achava que ele nem ia mais ligar para nada disso e eu não estava entendendo nada.
- Seria um bom começo. Acho que eu também gostaria.
Tomamos ao mesmo tempo um bom gole do café. E realmente estava delicioso.
- Incrível, como sempre - comentou. - Você não acha, Tiêgo?
Fiquei com cara de tacho. Todas as vezes em que ele chamou meu nome eu fiquei com cara de tacho, mas naquela vez foi pior.
- Américo. É isso que você quer saber, não é? Meu nome?
Senti um arrepio percorrer a minha espinha. Ele lia mentes ou coisa do tipo?
- Ainda bem que você sabe - disse, cheio de coragem. - Eu já estava apreensivo com você me chamando pelo nome e eu evitando construir frases que tivessem que inserir o seu nome.
- Você fala bonito. Eu acho que nunca falei na minha vida que ia "construir frases". - ele observou, rindo. Acho que da minha cara de tacho, mas enfim.
- Ah, já até me habituei a falar assim, Américo. - frisei o nome dele. E ele percebeu.
- Ó, de novo você falou difícil. Eu geralmente me acostumo a fazer algo. Você se habitua. É estranho de um modo legal. - Ele me fez parecer uma gramática daquelas bem grandes. - Ah, e não precisa frisar meu nome da próxima vez.
- Ok, paremos. Estou me sentindo um alienígena - ele começou a rir. Eu tomei mais um gole do café e ele me olhou fazer isso. Confesso que por um mínimo segundo eu me senti desejado, mas foi só por um segundo. Em seguida, ele recomeçou a falar, movimentando a colherzinha em círculos na xícara de cappuccino.
- Meus amigos me chamam de Dimas. Não tem nada a ver com Américo, antes que você me pergunte, mas é porque eu pareço muito com meu pai e o nome dele é Dimas. Prefiro que você me chame assim. - confessou.
- Certo, Américo - brinquei e sorri, já sentindo a tensão eliminada na mesma hora. A excitação ao olhar naqueles olhos pretos ainda persistia e eu ainda estava tentando entender como eu tinha ido parar ali. Só tinha certeza de que estava adorando aquilo tudo e que eu precisava me controlar para não afugentar o Dimas, porque algo me dizia que não acabaria ali.
- Se quiser me chamar assim, chame. Acho que não vou me importar.
Meu coração gelou de novo. Tomei mais um gole de café para ver se melhorava.
- Era brincadeira, Dimas. E antes que eu esqueça, preciso saber quanto custou o seu óculos. Não vou me perdoar se eu não te devolver outro - engatei a conversa, já com medo de me perder no nervosismo.
- De forma alguma. Você vai pagar o cappuccino. Já está de bom tamanho - decretou. - Aliás, tem uma coisa sim que você pode fazer por mim.
- O quê? - perguntei, tenso.
- Me fazendo companhia amanhã à noite. Você gosta de musicais?
Wow. Eu amava musicais, mas se ele me pedisse para eu ir num show de rock pauleira era bem capaz de eu aceitar na hora.
- Muito! Por que?
- Eu comprei dois ingressos para assistir A Chorus Line - O Remake - o inglês desse rapaz era perfeito. Senti vergonha. - A produção é local e eu acho que vai ser legal! É difícil ver algo do tipo por aqui, e não queria perder a oportunidade. Você topa ir comigo?
- Com certeza! Onde e que horas? - confirmei, nitidamente excitado (em todos os sentidos, confesso).
- Às sete, no Teatro Municipal - disse ele, puxando da carteira um ticket de entrada para o musical e me entregando. Ele tomou um último gole antes de acabar a xícara de cappuccino e prosseguir: - Acho que não vou me arrepender disso. E eu sei que você mal me conhece e tal, mas eu consigo ver em você algo que eu não vejo na maioria dos caras: sensibilidade.
Para quem mal tinha me visto uns vinte minutos, acho que ele já tinha feito uma análise completa sobre a minha vida.
- Nem sei o que dizer.
- Não diga. Amanhã, sete horas, Teatro Municipal. Até! - disse, apertando a minha mão e saindo apressado em direção a saída. Murmurei um "tchau, Dimas", mas acho que ele não ouviu. Mas não fazia mal. Eu teria uma noite toda para dizer um pouco mais do que "tchau, Dimas".
Tomei meu último gole de cappuccino, paguei a conta e, caminhando de volta para casa, me peguei afagando minha mão direita, apertada por aquele cara alto, dos cabelos negros e de um enigma indecifrável no olhar.

1 pseudocomentaram:

Tay disse...

Para Tegs!! Já tô apaixonada por esses dois (no caso, vcs dois). Juro que tem horas que nem parece ficção. E a linguagem é tão seu jeitinho de falar!!! <3