sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Depois do julgamento, a lição e a amizade.

Fevereiro de 2005, sexta série.
Onze anos e uma mentalidade já avançada pra um período que não requeria tal maturidade. Um amor reprimido e uma tristeza sem fim por estar isolado num lugar onde eu deveria estar me sentindo bem - e feliz. Tudo culpa de uma personalidade um pouco diferente da qual os demais estavam acostumados a presenciar. Esse era o meu perfil naquela época, quando era "o patinho feio" que ninguém sonhava em ficar junto. Não preciso nem dizer o quanto era triste ser julgado por aparentar ser algo completamente diferente do que todos pensavam que eu era...

A roqueira. Treze anos e dona de uma estilo que todas as outras garotas do colégio invejavam. Sexta-série, também. Só que diferente do nerd esquisito e com cara de oi-eu-sou-retardado, a Bárbara era considerada a rainha da escola. Andava com as melhores companhias, com os mais populares dos anos avançados e tinha aquela beleza surreal, digna dos filmes de cinema. Eu simplesmente odiava aquela roqueira cheia de estilo e popular, e que se achava a última bolacha do pacote - ódio esse que eu vim descobrir tempos depois que era a mais pura inveja que me motivava a falar mal da garota.

No meu antigo colégio, havia um sarau poético de língua francesa todo ano. Era minha primeira participação no evento e eu declamaria uma famosa poesia de Guillaume Apollinaire. Eu já sabia de cor todos os versos e estrofes da poesia. Só não sabia que a roqueira que eu tanto detestava também iria declamá-la, junto comigo.

Ao subir no palco, ninguém sequer virou os olhos para mim, a não ser a Luciana, minha professora de francês. Bárbara subiu a escada que dava acesso ao palco segundos depois, aplaudida por todos presentes no auditório naquele momento. Virei meu rosto, contendo a raiva. Ela, sem demonstrar o menor interesse no que eu estava sentindo por ela, dirigiu-se a mim, tirou uma rosa branca - que guardo até hoje - do bolso e entregou-a a mim, dizendo:

"- Jogue a flor com o máximo de desprezo no fim da última estrofe. Vai ajudar a dar um toque mais real à sua declamação."

Fiquei pasmo com a solidariedade da garota, que me desarmara completamente.Sorri de canto, murmurei um "obrigado" e as cortinas se afastaram. Bárbara começara a recitar a poesia com tal emoção na voz que eu não pude conter o arrepio. Logo, assumi a vez na poesia e não me atropelei no francês como sempre faço. Apenas declamei-a, frustrado com as conclusões precipitadas que havia tirado da garota e arrependido de tê-lo feito. Fomos ovacionados no fim da apresentação e ela, num gesto de humildade, estendeu a mão para mim e se apresentou, expurgando de vez toda e qualquer má impressão que eu tivesse tido dela. Uma garota da sétime série nos parabenizou pela apresentação e devolveu-me a rosa branca que eu havia jogado ao público. Naquele momento, eu prometi para mim próprio que nunca mais julgaria ninguém pela aparência, assim como não permitiria que o fizessem próximo de mim. Não é certo falar do que não se sabe e, muito pior, falar mal do que não se sabe. Pra quê perder tempo cuspindo incoveniências daquela pessoa se você sabe que tem curiosidade em saber se ela é mesmo daquele jeito? O modo de se vestir, de falar ou de andar faz com que saibamos logo de cara quem é uma pessoa de verdade? Não, não faz.

No fim das contas, Bárbara e eu estabelecemos uma amizade tão forte que mal conseguíamos estudar em salas separadas. Os julgamentos continuaram, porque não era sempre que o nerd-estranho-e-retardado conseguia se juntar à garota mais popular da escola. Mas quer saber? Não sentia a menor raiva de quem falava de mim. Até porque sei que estou tranquilo e calmo com quem sou e a primeira impressão das pessoas nunca é a que fica!




Pauta para o Blorkutando - 103ª Semana : Primeira Impressão.

2 pseudocomentaram:

Jeniffer Yara disse...

A conheço muito bem histórias como essa,de impressões erradas.Confesso que ás vezes jugo pela impressão que tenho das pessoas,e acabo não falando com aquelas que tenho uma má impressão;e o engraçado é que praticamente todos os meus amigos são diferentes,eles tiveram uma má impressão de mim,mas ao me conhecerem melhor,descobriram que não era bem assim.
Bom,o jugamento pela impressão é totalmente errado mesmo,hoje sei que precisamos conhecer aquilo que falamos,bem ou mal.

Ótimo texto Ti *-* História de vida real é sempre legal ler.

Beijos.

Allan disse...

Tiêgo, esse foi um dos melhores textos que eu já li aqui, está muito bom, tenho certeza que dará pódio! Sobre esse negócio de pré-julgamento todos nós seres humanos fazemos, mas nem todos temos a consciência de que mesmo tendo uma opinião formada nós temos que comprová-la, correr atrás pra ver se é isso mesmo, eu caí em mim quando descobri que todos os meus pré-julgamentos estão errados, sempre quem aparenta pra mim ser mais legal, é sempre dos mais chatos e vice-versa, a primeira impressão [pelo menos pra mim] não é a que fica. Sorte