sexta-feira, 11 de março de 2011

O Igarapé das Mulheres



Todos os dias, a mesma sina se repetia. As mulheres se reuniam à beira do rio para lavar roupa e também para conversar umas sobre as outras. Era quase que diária a rotina daquelas moças, damas, senhoras. Dona Luzia era uma delas. Criada pelos avós, Luzia sabia desde sempre que sua vida não seria fácil. Ela via pela televisão ainda sem cores que a vida lá fora parecia um conto de fadas. Luzia pensava que em São Paulo não existiam as dificuldades da vida no norte do país. A moça não imaginava que as coisas na cidade grande poderiam ser ainda piores do que na cidade pacata na qual vivia.

Aqueles anos todos à beira do Igarapé das Mulheres serviram para muita coisa. Uma delas foi fortalecer ainda mais a jovem e frágil Luzia que não havia tido escolha. Aos 20 anos, sua vida mudou de uma hora para outra: seus avós se foram sem aviso prévio, num desastre de barco no rio Amazonas. Luzia tivera que aprender a lutar sozinha contra tudo o que uma sociedade radicalmente machista e imponente impunha naquela época. Não fora nem um pouco simples tentar se manter. As guerras foram constantes. Vários nãos foram-lhe dados sem piedade, as pessoas fechavam as portas quando ela se oferecia para qualquer trabalho e ainda tivera que enfrentar o preconceito por ser negra. Mesmo com a beleza natural que todos sabiam que ela tinha, Luzia era simplesmente rejeitada. Por ser mulher, por ser solitária, por ser quem era.

Ela não se deixara abater com tamanha injustiça. Uma hora, iam reconhecer que ela não era inválida. E no Igarapé ela também aprendeu a ser persistente. Nunca desistir do que ela queria. A força, tanto física quanto psicológica, a ajudou mais do que qualquer outra coisa neste período. E se passaram tempos e mais tempos de batalhas, conflitos e muita, mas muita perseguição. Até que sua oportunidade chegou. Luzia era uma das poucas mulheres que tinha disposição para ensinar o pouco que sabia: ler e escrever. E foi com muito esforço e dedicação que ela conseguiu transformar a própria casa numa sala de aula. A comunidade carente do Igarapé das Mulheres se rendeu rapidamente à capacidade extraordinária que Luzia tinha para repassar conhecimento. Foi através da educação que Luzia conseguiu vencer todos os preconceitos contra ela e sua suposta condição. Ela incentivou toda uma geração futura de mulheres a seguir além com seus sonhos, vontades e desejos de mudar a situação na qual se encontravam, porque ser mulher não era simplesmente ser mulher. Ser mulher ia além disso. Ser mulher é ter a fragilidade de uma flor e a dureza de uma rocha. É possuir capacidade de distinguir o certo do errado. Ser mulher é ter resistência para enfrentar os mais duros momentos da vida. Mulher é um ser divino, abençoado. A mulher brasileira consegue ser muito mais do que isso tudo, a ponto de ser indescritível.

A mulher brasileira tem garra. É guerreira e sabe que é capaz de tudo. Mesmo que tudo signifique ter que enfrentar os obstáculos pelo caminho.

Luzia sempre dizia que desistir não era algo do qual alguém fosse se orgulhar. E mulher decididamente preferia riscar essa palavra do vocabulário. Luzia me fez admirar ainda mais toda a coragem e determinação que as mulheres tem. Em especial, aquelas que dão duro na vida aqui, no norte. A todas essas mulheres que batalham diariamente para sustentar uma família inteira, a todas essas mulheres que trabalham dura e dignamente e a todas as mulheres que sabem o real sentido do que é ser a mulher brasileira, o meu muito obrigado. Por contribuírem tanto com a sociedade e por darem um toque a mais de suavidade em nossas vidas. Mas acima de tudo, obrigado, mulheres nortistas, por serem exemplo constante de superação e vitória.

Ah, a Luzia? Bem, hoje ela é uma senhora aposentada de noventa e poucos anos que ainda faz questão de ensinar o be-a-bá para seus netos e bisnetos!


*Baseado em uma história real.
*Pra quem não sabe o significado de IGARAPÉ, é um rio pequeno. Um córrego, muito comum nos bairros aqui de Macapá. E Igarapé das Mulheres era o antigo nome do meu bairro.

Pauta para o Blorkutando - 128ª Semana : "Mulher Brasileira". 

9 pseudocomentaram:

●๋• тнαi иαรciмєитσ disse...

Qualquer pilha de textos e livros escritos sobre mulheres como essa seria pouca coisa diante da magnitude que elas representam. Merecem muito respeito e reconhecimento.


E boa sorte no BK!

Thaina Farias disse...

Perfeito, Tiêgo! Bom lembrar das mulheres da sua região, o texto realmente foi muito bacana e melhor ainda por saber que é uma história real.

Leila Ice Girl disse...

perfeito Tiêgo!! Lindo, alguma dúvida de quem leva o Blokurtando da semana?

Jeniffer Yara disse...

Linda história,amei ela ter sido baseada em fatos reais!

Beijo

Babizinha disse...

É uma triste realidade que traçada por suas palavras saiu tão encantadora!

Há mulheres de força em todo o lugar e você expôs o lado cruel da vida: quando todos desistem de você, mas você persiste com garra para alcançar tudo.

Parabéns pelo 1º lugar no Bk, merecidamente. (:
Beijos.

Vanessa disse...

Ai, Tiêgo, que história linda. Sem dúvida, a mulher brasileira tem garra! Bom saber que a dona Luzia está viva ainda.

mari ebert disse...

A mulher brasileira tem garra sim! hahaha adorei o post, texto nota 10! hahaha eh isso, bjão!


obs: eu sempre fico mt feliz com os seus elogios ao meu blog! Valeu mesmo, amigo!

Tay disse...

Perfeito esse texto! Vidas duras nos ensinam tanto sobre superação...e as mulheres sabem mostrar isso como ninguém. Beijo!

Ana Cynthia Sampaio disse...

Olá Tiêgo! Lindo o que escrevestes! Preciso muito de sua ajuda. Sou do Curso de Arquitetura e Urbanismo da Unifap e estou fazendo meu tcc sobre o Igarapé das Mulheres. Preciso de alguém que me conte a história de lá, como era, como foi mudando ao longo do tempo, etc. Não encontrei nada disso escrito. Tens algum contato da Dona Luzia?