
Nunca fui muito de acreditar que pessoas populares, bonitas e ricas pudessem ser tristes, não até ano passado ter conhecido o Mauro*. O Mauro era o típico galã da escola: era loiro, tinha os olhos verdes, era alto e atlético. Era o sonho de consumo de todas as meninas da escola e todos os meninos sentiam uma certa inveja dele. Era popular, todos o achavam o máximo. Mas existia alguma coisa no Mauro que não me convencia. Não sei se era aquele sorriso estranho ou aquele olhar vago. Só sei que eu parecia ser o único que enxergava a infelicidade daquele rapaz só de fitá-lo.
A entrada dele na minha sala causou o maior burburinho entre todos. Ele falava com todos, inclusive comigo. Era comunicativo, era bastante falador. E ao mesmo momento havia lapsos de minutos que eu o via com aquele olhar distante, sem rumo. Não contente, tratei de averiguar por fora o que acontecia com aquele rapaz que tinha tudo pra ter a vida dos sonhos de qualquer adolescente e mesmo assim era daquele jeito. Descobri que ele era filho único, que viera de uma escola particular caríssima e que estava acostumado com o luxo que o dinheiro pode proporcionar. Ele sempre deixava aquele rastro de sua personalidade por onde quer que ele passasse. Até que então a vida dele parecia ter mudado depois que fora para a mesma escola que eu, a melhor pública de ensino médio da cidade. Não sei até hoje o que aconteceu para que ele fosse parar lá, mas Mauro não tinha cara de insatisfação tampouco de mimado. Muito pelo contrário, diga-se de passagem. O problema era que já no finalzinho do período letivo, Mauro sorria, mas não com vontade de sorrir. Ele falava, sem vontade de falar. Parecia descolado, sem querer parecer nem um pouco. Quando me dei conta dos meus dotes shelockholmeanos de detetive, já estava íntimo dos melhores amigos de Mauro. Foi quando comecei a descobrir o que se passava com o rapaz, diretamente com ele.
Mauro usava drogas. E tinha acabado de terminar um tratamento para se ver livre do vício.
E como se não bastasse só isso, ele entrara em depressão porque não podia contar com a ajuda de ninguém para se ver livre daquilo.
Ele hesitou bastante antes de conseguir se abrir comigo e contar tudo o que se passava com ele. Mal pude acreditar que o galã da escola também passava por esse tipo de situação, pior até do que acontecia com muita gente. E ele custou a reconhecer que estava no estágio intermediário de depressão, mas quando admitiu para si que precisava de ajuda, fiz o que pude para deixá-lo legal. Aconselhava, ria, chorava junto. Nos tornamos grandes amigos em seu período de reabilitação. E quando o sol nasceu de novo para o Mauro, foi a hora de ele aprender a voar sozinho. Viajou para outro país, para reconstruir sua vida ao lado do pai e da irmã. Confesso que foi triste me despedir, mas fiquei bastante satisfeito ao ver que o olhar dele brotava alegria, que o sorriso já não era mais amarelo e que a vida havia o tocado novamente.
Essa história me fez aprender a confiar em clichês. Afinal, o sol nasce sim para todos, seja lá como você for. E não, não menospreze clichês. Eles podem fazer muito sentido, mais até do que imaginamos.
*nome trocado por questões pessoais
* Baseado em fatos reais.
Pauta para o Blorkutando – 141ª Semana: Pauta Livre #01

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